sexta-feira, 29 de julho de 2011

A festa do Sagrado Coração de Jesus de 1936, em Balasar


Em finais de 1935 (23 de Dezembro), o Idea Nova informava que o P.e Mariano Pinho fixava residência em Braga, isto é, abandonando a direcção de Brotéria, vinha para o Norte empenhar-se mais afincadamente na propagação das Cruzada Eucarística e das Congregações Marianas. Isso punha-o em contacto muito mais próximo com Balasar.
Veio a esta freguesia logo em Janeiro e depois no princípio de Maio. Mas voltou em finais de Agosto para um tríduo em honra do Sagrado Coração de Jesus.
Alexandrina fotografada pelo P.e Mariano Pinho em 1935

Na sua correspondência de 25 daquele mês (saída em 29), informa o P.e Leopoldino que “principiam amanhã, na igreja paroquial, umas conferências preparatórias da festa do Sagrado Coração de Jesus, que se realiza com brilho no próximo domingo.
Na quinta-feira, haverá comunhão e prática aos Cruzados, pela paz na Espanha; na sexta-feira, comunhão das mulheres; no sábado, comunhão dos homens; e, no domingo, haverá procissão eucarística, actos de desagravo, alocução e bênção pública, no largo da igreja.
Esta festa é promovida pela Associação do Coração de Jesus, fundada nesta freguesia no dia 2 de Julho de 1893 […]”
Na correspondência de 31 de Agosto, dá conta do êxito da festa, que foi grande:
“Revestiu-se de grande brilhantismo a festa do Sagrado Coração de Jesus ontem realizada. As conferências do Sr. P.e Mariano Pinho foram muito concorridas, principalmente pelos homens, que ocupavam a maior parte do templo. O assunto – o Apostolado da Oração e a Acção Católica - versado com mestria pelo grande orador, foi ouvido com atenção e agrado.
Em três dias houve reunião de confessores, sendo a comunhão geral no domingo numerosíssima, tomando nela parte mais de dois terços da freguesia.
Durante o tríduo, distribuíram-se cerca de 2000 comunhões. A missa da festa, cantada pelo nosso Rev. Abade, acolitado pelo Rev. Abade de Macieira e de S. Martinho do Outeiro, teve grande concorrência, estando encarregado da parte cantada o coro das mulheres, acompanhadas a harmónio pelo Rev. Abade de Rates.
De tarde, houve sermão, acto de consagração, bênção pascal e procissão, em que Jesus-Hóstia foi levado em triunfo por todo o povo da freguesia, entoando cânticos e passando por um tapete de verdura, vendo-se um artístico tapete de flores à porta da Sra. D. Rosa Murado.
No largo da igreja, foi dada a bênção pública depois duma brilhante alocução pelo Rev. Pinho, sendo Jesus Sacramentado muito vitoriado com palmas, vivas e acenar de lenços.
As crianças da Cruzada Eucarística empunhavam uma linda bandeira, com a cruz de Cristo, entusiasmando-se muito ao saudar com ela Jesus-Hóstia.
Enfim, foi uma festa que deixou saudades e que devia agradar ao Sagrado Coração de Jesus, a quem foi dedicada.
Parabéns aos zeladores do Apostolado da Oração”.
Em No Calvário de Balasar, escreveu o P.e Mariano Pinho a respeito deste tríduo por si pregado em Balasar:
“De 26 a 30 de Agosto de 1936, o director prega em Balasar um tríduo e teve então oportunidade de atender a doente a Alexandrina) com mais vagar. Num desses dias, Nosso Senhor interrompeu o longo silêncio de mais de quatro meses e vem confortá-la:

Mi­nha filha, com estes teus sofrimentos tens-me salvado muitas almas. Ora pela minha querida Espanha (grassava então na Espanha a guerra civil comunista). Vês o castigo de que Eu tantas vezes te falei? Estender-se-á a todo o mundo, se não se faz penitência e se não se convertem os pecadores”.

A Alexandrina passava então por um período de “treva cerradíssima e sofrimentos ininterruptos que a têm constantemente entre a vida e a morte. As cartas para o director interrompem-se durante quatro meses e tanto”.
O P.e Leopoldino ignorou isto nas suas notícias, que são preciosas apesar de tudo. Nem terá chegado a saber quase nada do que com ela se passou.
Note-se que o sucesso da festa também se deveu ao “grande orador”.
O Abade de Rates era o músico e compositor P.e Arnaldo Moreira; o de S. Martinho do Outeiro (Outeiro Maior) era o balasarense P.e Celestino Furtado.
O harmónio de que se fala era de Rates e era trazido à cabeça por uma mulher, numa distância de mais de cinco quilómeteros...

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Guerra Civil espanhola e a Beata Alexandrina


Em 7/12/1936, o P.e Leopoldino enviou para o Idea Nova um noticiário que saiu no dia 12 e que começava assim:

Há dias, veio uma comissão de nacionalistas dessa vila (Póvoa de Varzim) angariar nesta freguesia donativos para os nacionalistas espanhóis. A fim de facilitar o serviço, dividiram-se em três zonas, indo para a primeira os Srs. Administrador do Concelho, José do Nascimento Tavares, Adelino Gonçalves Ferreira e José da Silva Oliveira; para a segunda, o nosso Rev. Abade, Junta de Freguesia, ajudante do posto do Registo Civil e Cândido Faria Pinheiro; e para a terceira Presidente da União Nacional da freguesia, Regedor António Santos, António Leite Dourado, José Amorim Sampaio e Manuel Fernandes Lopes.
Todos foram bem recebidos pelo povo que ofereceu mais de cem escudos em dinheiro, algumas garrafas de aguardente, bacalhau e algumas dezenas de alqueires de milho e e batata.
As más condições económicas desta freguesia impediram que fossem mais avultadas as esmolas, porque este povo é generoso.

A Guerra Civil espanhola é mencionada pelo menos duas vezes em palavras de Jesus à Alexandrina. Veja-se em No Calvário de Balasar:

“De 26 a 30 de Agosto de 1936, o director prega em Balasar um tríduo e teve então oportunidade de atender a doente com mais vagar. Num desses dias, Nosso Senhor interrompeu o longo silêncio de mais de quatro meses e vem confortá-la:

Mi­nha filha, com estes teus sofrimentos tens-me salvado muitas almas. Ora pela minha querida Espanha (grassava então na Espanha a guerra civil comunista). Vês o castigo de que Eu tantas vezes te falei? Estender-se-á a todo o mundo, se não se faz penitência e se não se convertem os pecadores”.

E mais adiante:

“Passados uns doze dias, tornava Nosso Senhor a dizer-lhe, referindo-se à revolução comunista em Espanha:

Este flagelo é um castigo; é a ira de Deus. Eu castigo para os chamar; a todos quero salvar. Morri por todos. Eu não quero ser ofendido e sou-o tão horrorosamente na Espanha e em todo o mundo. Corre tanto perigo de se espalharem estas barbaridades!”

A gente podia-se perguntar legitimamente o que é que a Alexandrina saberia da guerra em Espanha, pois ainda não havia rádios na freguesia. Mas de facto os jornais da Póvoa noticiavam-na e o tema devia ser da conversa comum.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O rapaz liberto da droga


Como último boletim não conta graças da Beata Alexandrina, aqui fica uma dum boletim antigo, de 1979. Aconteceu na Itália.

Eu tinha recebido como empregado um rapaz vítima da droga, mas animado de boa vontade de se ver livre dela.
Durante dois meses, dei-me conta que ele continuava a utilizar a droga, a tal ponto que já não contava com a sua recuperação. Rezei muito por ele, rodeei-o de muito carinho, pois tratava-se dum rapaz muito novo, e muito chorei ao vê-lo naquele estado.
Certo dia, à noitinha, sabendo que ele se ia injectar novamente com heroína, recorri com a força do desespero ao auxílio da Alexandrina. Na manhã seguinte, vejo-o vir todo sereno ao meu encontro. Lança-se-me nos braços a soluçar, que, sem saber como, tinha deitado fora a seringa e o pó já preparado e que daí em diante queria manter-se sempre assim.
Desde então já passaram diversos meses e o rapaz está praticamente curado. O pároco, que sempre me tinha amparado neste caso, perguntou-me.
- Como fez?
- Tive conhecimento duma santa, Alexandrina Maria da Costa, e confiei-lhe este rapaz. Foi ela que o salvou. Não encontro outra explicação… Porque isto é um grande milagre.
Savona, Itália.
(Carta assinada)

Noutro número do boletim vêm mais pormenores sobre este episódio. Ele tinha sido contado pelo telefone e então é contado em carta datada de Celle Ligure, de 26-7-78, e assinada por M.P. Testa

domingo, 24 de julho de 2011

Apreciação sobre duas conferências proferidas em Évora pelo Dr. Abílio Garcia de Carvalho, médico da Beata Alexandrina

Em 1936, o Dr. Abílio Garcia de Carvalho foi a Évora fazer duas conferências. O jornal poveiro Idea Nova, na edição de 27/6/36, transcreveu a apreciação que lá fizeram a essas conferências.
O nome do Dr. Abílio já tinha chegado muito longe, mas imagine-se como seria custosa então uma deslocação àquela cidade alentejana.

Não é para dar em resumo as magistrais lições do distintíssimo médico da Póvoa de Varzim, proferidas no Paço Episcopal nos dias 31 de Maio e 1 de Junho, que o nosso semanário consagra esta local.
O fim é só de agradecimento: que nem mesmo podíamos fazer uma síntese, sem tirar o brilho, o sabor às belas jóias literárias apresentadas por S. Ex.cia e escutadas com tanto interesse da parte do selecto auditório, em duas noite consecutivas.
Na primeira conferência, revelou-se S. Ex.cia um fino burilador da frase, espírito de cultura invulgar, dicção impecável, além de, em todo o seu dizer, se traduzir a convicção profunda do que se afirmava em suas palavras quentes e apropriadas.
Esta conferência foi o exórdio, a apresentação necessária do grande trabalho apresentado no dia 1 de Junho, “A Eucaristia e a Medicina”. Desse discurso deve dizer-se o mesmo que das grandes obras musicais: não se podem descrever, é necessário ouvi-las. Com efeito, saber mais profundo, convicção mais íntima, erudição mais vasta exposição mais perfeita e até mais ardente não é fácil encontrar-se em orador que seja ao mesmo tempo médico.
A impressão causada por ambos os trabalhos, mas sobretudo por este último, está bem gravada em quantos tiveram a aventura de ouvir a voz autorizada do Sr. Dr. Abílio Garcia de Carvalho.
A S. Ex.cia, em nome dos católicos de Évora, apresentamos os nossos agradecimentos muito sinceros e fazemos votos para que brevemente volte a esta nobre e culta cidade transtagana mimosear-nos com obras do quilate das duas últimas e comunicar-nos o fogo da sua fé e o seu acendrado amor a Deus e às Igreja.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A tourinha que ajoelhou frente à Alexandrina

Narra o P.e Humberto:

“Em vida da Alexandrina, a família vendeu ao médico Dr. Manuel Augusto Dias de Azevedo – um nome que veneramos – uma tourinha criada, para, com a sua venda, ajudar a subsidiar as despesas da casa, na qual, como se sabe, havia muitas dificuldades. A Alexandrina, que, depois do falecimento do tio não vira mais gado, mostrou no dia da venda o desejo de ver a bezerra antes de ela sair.
Para lhe darem esse gosto, resolveram levar o animal ao quarto da enferma, com todas as precauções não fosse o animal escoucear e pôr a cama em desordem e ferir a doente.
Por isso, as pessoas presentes cercaram o leito a defender a Alexandrina.
Mas qual não foi o espanto de todos quando o animal entra e, uma vez entrado, põe-se de joelhos e ali fica sossegado e quieto!
- Parecia ensinado – dizem as testemunhas.
E assim esteve um bom pedaço de tempo, até que a Alexandrina agradeceu e disse:
- Agora podem levá-la embora.
A tourinha levantou-se com toda a mansidão e saiu”.

E o P.e Humberto, já habituado às exigências da crítica histórica, autenticou o tal relato, feito em Agosto de 1978, com o nome das testemunhas:
Luciano Domingues de Azevedo, José da Silva Pereira Costa, Ana Domingues de Azevedo, Deolinda D. Azevedo, Joaquina D. Azevedo e Rita Domingues de Azevedo.
Este pormenor é edificante e sugestivo e faz lembrar outro místico de renome imortal na história da igreja e da Itália, o estigmatizado S. Francisco de Assis.

Gabriel Bosco in Boletim de Graças de Julho-Dezembro de 1978

No Natal de 1944


Extracto do colóquio de Jesus com a Beata Alexandrina no dia de Natal de 1944:

—  Nasci no presépio do teu coração, minha filha.
É o Esposo que vem à sua esposa, é o Rei que vem à sua rainha. Sou Rei do Céu e da terra.
Como estou bem aqui, ó rainha do amor! O presépio que Me dás não é áspero como o de Belém, é fofo com as tuas virtudes. No teu presépio não sinto os rigores do frio, sou aquecido com o amor mais puro e abrasado.
Tu és a minha estrela, estrela que guias o mundo como outrora guiou os Reis Magos no caminho de Belém.
Diz, minha filha, a todos os que cuidam de ti, aos que te são queridos, amam e rodeiam que lhes dou abundância das minhas graças, um enchente do meu divino Amor, um lugar reservado em meu divino Coração com a promessa do Céu.
Não vi o Menino Jesus, mas enquanto Ele me falou estava junto a mim uma grande palmeira de Anjos, centos ou milhares de Anjos; muitos deles com seus instrumentos desciam do alto e rodeavam-me. Tinha graça a pressa com que desciam. No meio deles estava uma grande escada; de todos os degraus desciam para mim numerosos raios dourados; eram como setas a penetrarem no meu peito. E Jesus dizia-me:
— São as tuas virtudes, são raios de amor divino. Recebe, é a tua vida.

terça-feira, 19 de julho de 2011

A Festa dos Centenários em Balasar


O P.e Leopoldino recordava bem as incríveis violências da Primeira República, que aliás o atingiram. Recordava-as ele e recordavam-nas muitos outros. E recordava como ela terminou, no desprezo quase geral. Por isso aderiu ao Estado Novo – e estranho seria se o não tivesse feito.
Em 1940, o regime festejou a fundação da Nacionalidade e a da Restauração com largo programa. Veja-se o que se passou em Balasar.

Esteve interessante e entusiasta a Festa dos Centenários, promovida pelo nosso Rev. Abade e Professores do Ensino Primário. Às 6 horas e meia, houve missa rezada, comunhão de 200 pessoas pela prosperidade de Portugal e Te Deum, a que assistiu muito povo. Às 10 horas e meia, cinco castelos da mocidade das escolas primárias acompanharam a bandeira da Fundação à Igreja Paroquial, onde o Rev. Abade, depois duma erudita alocução, a benzeu. Em seguida formou-se o cortejo, incorporando-se os jocistas, Cruzada Eucarística, com a bandeira, e muito povo. Todos cantaram hinos patrióticos até chegar aos edifícios escolares que estavam lindamente e ornamentados com verdes, tapetes e passadeiras de flores naturais.
Pelo aparelho de rádio, colocado numa janela, os circunstantes iam sabendo o que se passava em Guimarães, a Missa do Primaz das Espanhas, os cânticos dos alunos do Seminário de Braga, o toque dos clarins à elevação, os vivas do povo, tudo se ouvia com grande perfeição.
Do importante discurso do Sr. Dr. Oliveira Salazar, não se perdeu uma só palavra, tal o interesse e o silêncio com que era escutado. O içar da bandeira da Fundação foi um acto emocionante; os vivas, as aclamações, as palmas, as girândolas dos foguetes, tudo comovia.
Cantada a Portuguesa pela mocidade escolar, o Rev. Abade Leopoldino Mateus fez um patriótico discurso sobre os motivos daquela festa centenária, explicando ao povo o que fizeram a Cruz e a Espada na fundação e conservação da nacionalidade portuguesa.
Cantado o Hino da Mocidade, de novo ressoaram as palmas, os vivas, as aclamações a Portugal, à Igreja, ao estado Novo, a Carmona e a Salazar.
Todos retiraram satisfeitos, bendizendo os trabalhos e os esforços dos promotores duma linda, simples e significativa festa.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Recepção à Imagem Peregrina de Nossa Senhora da Fátima, na Póvoa de Varzim, nos começos de Setembro de 1951

Em 25 de Maio colocámos aqui um texto do P.e Leopoldino sobre a passagem da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima nas Fontainhas. Ele falava entusiasmado do acontecimento. Mas a passagem nas Fontainhas teve pouca comparação com o que se viveu na Póvoa de Varzim. O texto que se transcreve é de uma acta camarária. Há uma palavra que não conseguimos decifrar.

O Sr. Presidente disse que, como consta de actas anteriores, foi a Póvoa visitada, em dois e três do corrente, pela Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, acompanhada de grande embaixada, presidida pelo Sr. Arcebispo Primaz, que, à entrada do concelho, foi recebida pelas autoridades concelhias, civis, militares e eclesiásticas, e numeroso público da vila e concelho, passando em triunfo pelas freguesias de Estela, Navais e Amorim, e entrando na Póvoa, em verdadeira apoteose, na noite do primeiro dia; que, depois, seguiu em procissão através da vila, acompanhada de um mar de gente e velas, estacionando em frente dos Paços do Concelho, donde o Sr. Presidente Silveira Campos pronunciou uma sentida alocução piedosa de saudação vibrante e consagração religiosa; que, na manhã do dia seguinte, se efectuara a majestosa procissão, da Matriz ao Passeio Alegre, com visita à Cadeia e ao Hospital, celebrando-se frente ao mar actos tocantes de     , cânticos, bênção a doentes e bênção geral do Santíssimo perante multidão a perder de vista, composta dos habitantes do concelho, de banhistas e de inúmeras pessoas que acorreram nessa ocasião à Póvoa, actos que profundamente calaram nos ânimos e nos corações de todos quantos tomaram neles parte; que, ao fim da tarde, houve a maior manifestação de fé ardente e piedade vivida que jamais se presenciou entre muros da Póvoa, com a procissão de despedida, desde a Capela de S. José ao limite sul da vila e concelho, em que se incorporaram autoridades, confrarias e imensa avalancha de público de todas as categorias, em hossanas, em loas, em “adeuses”, “vivas”, acenos de lenços, na mais alta demonstração de quanto a Virgem è acarinhada, venerada, querida; que o momento último da despedida foi então de surpreendente arroubo, sobre-humano enleio; que a Póvoa viveu, nesses dias, uma vida quase extraterrena, como só na Cova da Iria, lá em Fátima, se pode sentir, e que a Câmara e o concelho estão de parabéns por tudo isto, impossível de descrever.
No Solo Per Amore, a D. Eugénia tem uma nota em que se fala da Imagem Peregrina de Fátima a propósito duma visão da Alexandrina de 1942. Ditou ela:

Na manhãzinha de 13 Dezembro, não foi sonho, penso não ser ilusão, oh, não!
Eu vi a Mãezinha de Fátima elevada não sei em quê a grande altura.
À volta dela, um universo de gente. Ela a todos fitava meigamente.
Fiquei fora de mim: pareceu-me ser transportada para outra região.

Agora a nota:

A propósito da “Peregrinatio Mariae” em Itália, o P.e Mário Mason, jesuíta, que participou pessoalmente na organização, deixou dela uma narração. Eis alguns extractos dela:
Em 1942 vi como num sonho a imagem de Nossa Senhora que passava por todos os países, como missionária, ficando por dois ou três dias, segundo a importância dos centros.
De Maio de 1947 a Outubro de 1949, em Milão e diocese foi acolhida como se fosse viva, como Mãe e Rainha. Todas as dificuldades da organização eram vencidas como por encanto.... e aumentava o afluxo dos fiéis. O próprio santo cardeal Schuster, comovido, dizia: «Aqui está a mão de Deus!»
Esta iniciativa passou de Milão a toda a Itália. Para preparar os ânimos para o acto solene da consagração da Itália a Maria Santíssima, feita na Catânia em 13 de Setembro de 1959 pelo Papa João XXIII, propôs ao Comité Nacional Mariano que a imagem de Nossa Senhora de Fátima passasse por todas as dioceses da Itália, de helicóptero, durante bem 150 dias, sem interrupção: foi como um Rosário vivo da Virgem Santíssima no meio dos seus filhos. Em competição com manifestações de amor e de profunda piedade todas as regiões. (...) As cenas sugestivas de acolhimento, as contínuas peregrinações e as vigílias em todas as pede transformavam as cidades em outros tantos santuários. (...) Isto fez-me viver aqueles 150 dias consecutivos como numa visão antecipada do Paraíso. (...)
Como recordação daquele itinerário surgirá o Templo Nacional de Maria, Mãe e Rainha, no monte Grisa, em Trieste, para unir e proteger todos os povos da Europa e do mundo (...).
Muitos foram “tocados”. Recordámos que S. P.e Pio, debruçado da janela da sua cela para olhar no céu a imagem que de lá se ia, angustiado, pedia a cura... e foi curado!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Nunca se fez coisa igual nem parecida em Balasar!


A festa do Sagrado Coração de Jesus em Balasar, em 1939

Em 7/8/39, o P.e Leopoldino informou para A Voz da Póvoa:

No próximo domingo verifica-se a festividade do Sagrado Coração de Jesus, promovida pelo Apostolado da Oração. Será precedida de um tríduo de práticas pelo Rev. missionário apostólico Mariano Pinho, S.J.
O Programa da solenidade é o seguinte: às 6 horas, missa, prática e comunhão geral; às 11, missa solene; às 16, exposição eucarística e sermão, seguida de procissão.
No largo fronteiro à igreja, será dada a bênção pública, precedida do coro falado em que tomarão parte as crianças da Cruzada Eucarística das freguesias de Arcos, Rio Mau, Rates, Macieira, Negreiros, Gondifelos e Fradelos.
Deve ser uma manifestação imponente a Jesus Sacramentado.
Recolhida a procissão, haverá no mesmo local, sessão de propaganda em prol da família cristã, falando vários oradores. É promovida pela Acção Católica.

Imagem do Sagrado Coração de Jesus da Igreja de Balasar.

Em 20/8/39, para o mesmo jornal, fez a apreciação do acontecimento:

Está de parabéns a nossa freguesia pelo brilhantismo da festa do Coração de Jesus. Nunca aqui se fez coisa igual nem parecida! Aquela parada das 521 crianças das Cruzadas Eucarísticas das aldeias vizinhas, e algumas bem de longe, foi admirável.
A jornada da família também esteve muito boa, revelando-se o jocista Joaquim da Silva Furtado (o Airoso), um pobre cesteiro, um orador de raça, se praticar e não se envaidecer.

Ao tempo do P.e Leopoldino, havia festas religiosas em Balasar como dificilmente se imagina. Desta vez, a presença do P.e Mariano Pinho, dinamizador da Cruzada Eucarística - e director da Alexandrina, que então começava a ser conhecida - constituía um especial chamariz. Na altura ele residia em Braga.
Nos escritos da Alexandrina, não encontrámos referência a esta vinda do director espiritual. Decorriam então as diligências para a Consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria e a Doente do Calvário revivia semanalmente a Paixão com movimentos.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Novo número do Boletim

Foi editado um número duplo, 18/19, do Boletim de Graças.
Abre com um longo editorial do Director, o P.e Manuel Neiva, sob o título de “Viver da Eucaristia”, que vem lado a lado com um artigo de semelhante extensão, do Mons. Manuel Ferreira Araújo (irmão do pároco das Caxinas, Vila do Conde), sobre o” Sarado Coração de Jesus”. Nos dois casos, insiste-se na dimensão evangélica da vivência cristã da Beata Alexandrina.
O Mons. Manuel Ferreira Araújo assina ainda na página 6 um “Breve biografia de Alexandrina de Balasar”, que é principalmente uma cronologia.
O P.e Dário Pedroso volta a escrever sobre o primeiro director espiritual da Alexandrina, na página 3.
Nas páginas centrais, 4 e 5, começa-se com a “Festa do sétimo aniversário da Beatificação de Alexandrina” e desenvolvem-se depois os temas “Jovens espanhóis vencem concursos de ideias para o Santuário em honra da Beata Alexandrina”, “Notícias da Fundação Alexandrina de Balasar” e “As irmãs Filhas da Pobreza do Santíssimo Sacramento despedem-se de Balasar”.
Pelas “Notícias da Fundação Alexandrina de Balasar”, ficamos a saber que foi criada uma Equipa de Voluntariado de Acolhimento ao Peregrino, que foi impresso um “desdobrável, em diversas línguas, com o itinerário, e uma pequena explicação desses lugares, que são muito importantes para conhecer a Beata Alexandrina”, que se está a trabalhar para “em breve adquirir e adaptar um edifício que será a Sede da Fundação e um Centro de Espiritualidade”, que “a Fundação adquiriu um terreno junto do adro da Igreja e da Residência Paroquial com a finalidade de construir um Centro Paroquial e um Centro de Acolhimento ao Peregrino” e que se está a trabalhar para criar uma “Escola do Sofrimento”.
Na penúltima página, o Cónego Fernando Silva escreve sobre “O mês de Maio em Balasar”, sobre a vivência do mês de Maio pela Alexandrina, e na última vem uma longa relação de “Graças Recebidas”.
Uma breve nota da página 3 sobre “Peregrinações” informa “são muitas as mensagens, cartas, pedidos de livros ou pagelas vindos do estrangeiro, v. g., Filipinas, Gana, África do Sul, Inglaterra, Espanha, França, Brasil, etc.” e que vieram a Balasar grupos de peregrinos de Portugal, Irlanda, Inglaterra, Itália, USA, Canadá, França e Líbano.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A pequena Alexandrina na Igreja de Balasar

Fomos hoje a Balasar e fotografámos as imagens de Nossa Senhora do Rosário e de S. José cujas vestem encantavam a pequena Alexandrina. Aqui ficam as fotografias:

 

Dr. Alexandrino Fernandes dos Santos

Professor no Seminário Conciliar e Director da revista "Acção Católica"

Nós tínhamos uma vaga ideia de que havia um sacerdote de Bagunte (esta freguesia confina com Balasar) que interviera de algum modo no caso da Beata Alexandrina. Agora temos a certeza: trata-se do P.e Dr. Alexandrino Fernandes dos Santos. 

Alguém escreveu que a simplicidade é a igno­rância do próprio méri­to. Todavia, as almas grandes, conforme ensi­na Santa Teresa, reconhe­cendo em si méritos, fazem deles entrega a Deus.
É assim que eu vejo o Dr. Alexandrino Fernan­des dos Santos: tudo re­ferindo a Deus, já que reconhecia que "tudo" quanto tinha do Senhor o havia recebido.
«A humildade é o al­tar sobre o qual Deus quer que Lhe ofereçamos sacrifícios»... e o Doutor Alexandrino "celebrou" neste altar.
Tenho a firme convic­ção que todos os antigos alunos do prestigiado mestre, que nasceu em Santagões, antiga fregue­sia e hoje lugar da fre­guesia de Bagunte, con­celho de Vila do Conde, em 3 de Abril de 1908, dele têm esta viva ima­gem: a simplicidade e humildade em pessoa.
Terminado o Curso Filosófico e após o primeiro ano de Teologia, concluído com distinção, foi escolhido para com­pletar na Universidade Gregoriano, em Roma, o Curso teológico, matri­culando-se em 1928.
Em 26 de Março de 1932 recebeu em Roma a ordenação sacerdotal e, concluído o doutora­mento em Teologia, ini­ciou o magistério no Se­minário Conciliar de Braga, em Outubro de 1932, sendo um grande obreiro da formação in­telectual dos seminaris­tas pelo espaço de qua­renta anos.
Foi um distinto professor, admirado e estima­do por todos os alunos embora só o vissem nas aulas e na capela onde, di­ariamente, celebrava a Santa Missa... De resto, passava o dia-a-dia no seu quarto a estudar, a ler, a escrever.
Era uma pessoa doente e o seu mal estava nos pul­mões; por esta razão pas­sou meses nos Sanatórios da Guarda e do Caramulo e ainda em Casas de Saúde de Braga e do Porto.
A doença complexava­-o, de tal modo que se dizia incapaz de leccionar e foi necessário, muitas vezes, que o Reitor do Seminário e os colegas o "forças­sem"...
Sendo competentíssi­mo, escrevia todas as lições... falava muito depres­sa e verificava-se o seu cansaço em cada aula. Dizia ele que ficava completamente arrasado.
Muitas vezes quis de­sistir do magistério, dizen­do que se sentia incapaz de comunicar fosse com quem fosse, afirmando que as suas lições faziam dormir os alunos: o que não era verdade. Tinha receio de falar em público e, quantas vezes, por esta razão, o Arcebispo D. António Ben­to Martins Júnior o quis encarregar de missões es­peciais, mas nada conse­guiu.
Pela sua capacidade te­ológica, cultura humanís­tica e o gosto pelas letras, foi nomeado Director da re­vista "Acção Católica" - cargo que abandonou de­corridos seis meses, ape­lando para o seu estado de saúde.
Sempre desempenhou o cargo de examinador do Clero e de Juiz do Tribunal Eclesiástico, sendo exí­mio nas sentenças profe­ridas e na redacção das mesmas, quando em latim.
Não posso esquecer o trabalho que o Doutor Alexandrino realizou como Juiz na condução do Processo de beatifica­ção de Alexandrina Ma­ria da Costa - terça-fei­ra, dia 30 de Março, co­memorou-se o centená­rio do nascimento da Ve­nerável de Balasar, Pó­voa de Varzim.
O seu nome está pro­fundamente unido ao da Serva de Deus... Jamais se esquivou a qualquer trabalho, mesmo árduo, dizendo sempre que a Alexandrina tudo lhe merecia.
Quanto mais se poderia escrever sobre este mestre!
Na tarde de 2 de Ja­neiro de 1974, faleceu no Hospital do Carmo, no Porto, e foi sepultado em Bagunte, terra de sua naturalidade.
Recordo que presi­diu ao funeral e nos deu a "imagem perfeita do Doutor Alexandrino" o Senhor Arcebispo D. Francisco Maria da Silva - seu condiscípulo, em Roma, desde a primeira hora... Citou um pensa­mento do célebre Bour­daloue, cuja ideia central retive: muitos se têm perdido pelo fulgor dos seus talentos, dos seus triunfos... jamais se perdeu alguém pelos sen­timentos de uma ver­dadeira e sólida humil­dade.
O Doutor Alexandri­no está na glória!

Cónego Eduardo de Melo Peixoto, Diário do Minho, 4/4/2004

domingo, 10 de julho de 2011

A primeira oração original da Beata Alexandrina

Há tempos, uma professora do ensino secundário, de Balasar, dizia-nos que as pessoas, mesmo as mais motivadas, não entendem os escritos da Beata Alexandrina. De facto, é preciso fazer um pouco de esforço, insistir, descobrir as principais linhas de pensamento que os orientam.
Aqui, procuramos dar a nossa ajuda, uma ajuda que passa por informação histórica e por fornecer pistas das orientações principais do pensamento dela.
É eucarística a primeira oração original da Alexandrina na Autobiografia. Veja-se:

Gostava muito de ir à igreja e chegava-me para junto da minha catequista [1] e rezava quanto ela queria. Não deixava dia nenhum de rezar a estação ao Santíssimo Sacramento, meditada, quer fosse na igreja quer em casa, até pelos caminhos, fazendo sempre a comunhão espiritual assim:

Ó meu Jesus, vinde ao meu pobre coração! Ah, Eu desejo-Vos, não tardeis!
Vinde enriquecer-me das Vossas graças; aumentai-me o Vosso santo e divino amor.
Uni-me a Vós! Escondei-me no Vosso Sagrado Lado!
Não quero outro bem senão a Vós! Só a Vós amo, só a Vós quero, só por Vós suspiro!
Dou-vos graças, Eterno Pai, por me haverdes deixado a Jesus no Santíssimo Sacramento.
Dou-Vos graças, meu Jesus, e por último peço-Vos a Vossa santa bênção!
Seja louvado em cada momento o Santíssimo e Diviníssimo Sacramento da Eucaristia!

Mas contém já um aceno à Cruz, pela referência ao “Sagrado Lado”, o golpe da lança no peito de Jesus.


[1] Josefina Alves de Sousa, vulgarmente chamada «Josefina-Escola», por viver no edifício da escola, juntamente com seu irmão professor.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Ida a Gondifelos

Foi aos nove anos que fiz pela primeira vez a minha confissão geral e foi com o Sr. P.e Manuel das Chagas.
Fomos, a Deolinda, eu e a minha prima Olívia, a Gondifelos, onde Sua Reverência se encontrava, e lá nos confessámos todas três. Levámos merenda e ficámos para a tarde, à espera do sermão.
Esperámos algumas horas e recorda-me que não saímos da igreja para brincar. Tomámos nosso lugar junto do altar do Sagrado Coração de Jesus e eu pus os meus soquinhos dentro das grades do altar.
A pregação dessa tarde foi sobre o inferno. Escutei com muita atenção todas as palavras de Sua Reverência, mas, a certa altura, ele convidou-nos a ir ao inferno em espírito. Para mim mesma disse: “Ao inferno é que eu não vou! Quando todos se dirigirem para lá, eu vou-me embora!”, e tratei de pegar nos soquinhos. Como não vi ninguém sair, fiquei também, não largando mais os soquinhos. Autobiografia

Frei Manuel das Chagas

Nascido a 17 de Novembro de 1850, no lugar da Borralha, perto de Águeda, Frei Manuel das Chagas entrou na Ordem Franciscana a 22 de Maio de 1868, professou no ano seguinte, a 22 de Maio de 1869 e foi ordenado presbítero a 27 de Agosto de 1873.
Foi um pregador de grande valor, muito prolífico.
Vejamos:
Pregou o seu primeiro sermão durante a Quaresma de 1875, e o seu último a 15 de Abril de 1923, antes de falecer em Tui, na Espanha, com 72 anos, a 17 de Maio de 1923. Durante estes quarenta e oito anos de apostolado intenso, pregou 8.140 sermões.

Se a Alexandrina foi a Gondifelos, que é vizinha de Balasar, com 9 anos, estava-se em 1913, em tempo da extinção republicana das Ordens Religiosas. Deve ser por isso que ela fala de padre e não de frei. Deve ser ainda em razão da República que Fr. Manuel das Chagas morre em Tui, na Galiza, junto à fronteira norte de Portugal.
Aí pelos anos 60 do século passado, a nossa mãe, nascida em 1913, ainda recordava o nome de Fr. Manuel das Chagas, pelo que ele deve ter pregado por cá até perto do falecimento.

Confissão geral é coisa que hoje não existe.
A Alexandrina fala no altar do Sagrado Coração de Jesus. De facto era então muito divulgada esta devoção (que Jesus há-de recomendar à mesma Alexandrina).
A Igreja de Gondifelos foi profundamente remodelada, de modo que não restará muito do que a pequena viu.

Não é só aqui que são mencionados os soquinhos que tanto envaideciam a pequena Alexandrina. Os da nossa imagem podem não corresponder de todo aos dela.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

"Os céus e a terra proclamam a Vossa glória!"

Aquele que tem fé não pode deixar de ver na natureza a obra de Deus. Na sua beleza, na sua grandeza, na sua variedade, na sua harmonia.
O mundo não é caótico e absurdo: ele proclama a glória do seu Criador.
No texto da Autobiografia que se transcreve agora já está a sensibilidade poética da autora do Hino aos Sacrários.
Colocamos ao fundo algumas imagens, a nosso ver poéticas, que nos mostram belos espectáculos de luminosidade e cor naturais.

Pelos nove anos, quando me levantava cedo para ir trabalhar nos campos e quando me encontrava sozinha, punha-me a contemplar a natureza. O romper da aurora, o nascer do sol, o gorjeio das avezinhas, o murmúrio das águas entravam em mim numa contemplação profunda que quase me esquecia de que vivia no mundo. Chegava a deter os passos e ficava embebida neste pensamento, o poder de Deus!
E, quando me encontrava à beira-mar, oh, como me perdia diante daquela grandeza infinita! À noite, ao contemplar o céu e as estrelas, parecia esconder-me mais ainda para admirar as belezas do Criador!
Quantas vezes no meu jardinzinho, onde hoje é o meu quarto, fitava o céu, escutando o murmúrio das águas e ia contemplando cada vez mais este abismo das grandezas divinas!
Tenho pena de não saber aproveitar tudo para começar nesta idade as minhas meditações.




quarta-feira, 6 de julho de 2011

Anos de infância da Alexandrina

Era viva e tão viva que até me chamavam maria-rapaz. Dominava as companheiras da minha idade e até as mais velhas do que eu. Trepava às árvores, aos muros e até preferia estes para caminhar em vez das estradas.
Gostava muito de trabalhar: arrumava a casa, acarretava a lenha e fazia outros serviços caseiros. Tinha gosto que o trabalho fosse bem feito e gostava de andar asseadinha. Também lavava roupa e, quando mais não tinha, era o meu aventalinho que trazia à cinta. Quando não sabiam de mim, era quase certo encontrarem-me a lavar num ribeiro que corria perto de casa.

É de duvidar se os fragmentos do princípio da Autobiografia estão bem ordenados. Dá a impressão que não. Este vem após outros em que a Alexandrina já frequenta a igreja e vai à catequese, imediatamente antes de ir para a Póvoa. Ora este parece apontar para um período anterior, para os tempos de Gresufes.
É provável que na altura este lugar fosse bastante habitado. Havia lá algumas casas grandes, como a da Torre, quase pegada à dos avós da Alexandrina, a dos Machados, mesmo ao lado, a dos Boucinhas, mais para nascente, e até a da Tinta, hoje ao abandono. Em todas elas, e noutras, haveria famílias numerosas.
No séc. XVIII, havia ainda em Gresufes memória dos lugares de que se compunha a antiga paróquia. Boucinhas e Tinta ainda eram “lugares”.
Um ano e poucos meses antes de a Alexandrina nascer, morria um celebrado político balasarense de Gresufes, Manuel da Costa Boucinhas. Algumas dezenas de anos antes, teria vivido na Casa da Tinta o famoso Cirurgião da Bicha. Da casa da Torre descenderia um ilustre advogado poveiro, o Dr. Joaquim Torres da Costa Reis. Na Casa Machado, nasceria Joaquim António Machado, que haveria de ter uma intervenção política activa na freguesia e a sua filha Maria (ou Mariazinha) Machado.
De quase todas as casas mencionadas, havia ou tinha havido sacerdotes: José António da Costa Reis, da Casa da Torre; Joaquim da Costa Machado, da Casa dos Machados; Miguel Fernandes de Sousa Campos, da Casa da Tinta…

Imagens:
Em cima, vista de Gresufes.
Em baixo, excelente quadro que apenas evoca uma situação parecida com a da pequena Alexandrina a preparar-se para lavar no ribeiro a sua roupa.

terça-feira, 5 de julho de 2011

A pequena Alexandrina na Igreja de Balasar

Veja-se este fragmento da Autobiografia, de quando a Alexandrina começou a frequentar a igreja:

Quando me encontrava na igreja, punha-me a contemplar os santos, e os que mais encantavam eram as imagens de Nossa Senhora do Rosário e S. José, porque tinham uns vestidos muito bonitos e eu desejava ter uns iguais aos deles. Não sei se seria já princípio da manifestação da minha vaidade. Queria ter uns vestidos assim, porque perecia-me que ficava mais bonita com eles.
E, se nesta idade manifestava os meus defeitos, também mostrava o meu amor para com a Mãe do Céu, e lembra-me com que entusiasmo cantava os versinhos a Nossa Senhora e até me recordo do primeiro cântico que entoei na igreja, que foi “Virgem pura, tua ternura, etc.”
Gostava muito de levar flores às zeladoras que compunham o altar da Mãezinha.

As imagens

Quando a Alexandrina começou a frequentar a igreja, havia uma igreja nova, a estrear. Era como se tivesse sido preparada para ela.
Conhecemos várias das imagens que então lá se encontravam, mas não conhecemos as que a Alexandrina menciona. Colocamos aqui a da padroeira, na sua versão antiga, em pose de lutadora; ultimamente, foi pintada e ficou irreconhecível.

O cântico mariano

Procuramos na Internet o cântico cujo primeiro verso é citado. A quadra inicial é esta:

Virgem pura, tua ternura
É de alívio ao meu penar.
Noite dia, de Maria
a beleza hei-de cantar (2x).

É uma quadra bonita, elogiosa da Mãe de Deus, e que envia já para o penar, para o sofrimento. Ainda a ouvimos cantar há muitos anos.
Encontrámos outras quadras do cântico, mas a sua fixação por escrito não parece muito fiável. Ainda assim deixamos aqui algumas:

Foi criada Imaculada
Sem pecado e maldição;
Foi querida, revestida
de mil graças de bênção.

É donzela toda bela
A mais santa em seu primor,
Desde a hora em que ela
Fora concebida (?) ao Criador.

Aos errantes navegantes
Ela acode no alto mar;
Pecadores nos terrores,
Ela ensina-os a esperar.

Do Menino Seu Divino
Toda graça Ela nos dá.
Mãe piedosa, carinhosa
Sempre olhando nos está.

Aos pedidos dos queridos,
Abre o terno coração.
Ao gemido do afligido,
Ela é toda compaixão.

Quando a lida desta vida
For connosco terminar,
Mãe piedosa, poderosa,
Vem Teus filhos amparar.

Não conhecemos nenhuma antologia de cânticos de uso litúrgico; há-os muito bonitos.

domingo, 3 de julho de 2011

Da Igreja Velha de Balasar à Igreja Nova


Em 23 de Dezembro de 1906, o jornal poveiro Estrela Povoense traz esta notícia sobre a “Igreja Paroquial de Balasar”, bem semelhante a uma outra saída n’O Comércio da Póvoa de Varzim no dia 27:

A freguesia de Balasar, deste concelho, vai possuir um novo templo paroquial, cujas obras vão ser postas a concurso.
Quem desejar concorrer deverá examinar o projecto na secretaria do arquitecto da Câmara Municipal, onde ele está exposto todos os dias úteis, desde as 10 horas da manhã até às 3 horas da tarde.
As propostas devem ser enviadas, em carta fechada, à residência paroquial daquela freguesia, até ao próximo dia 30 do corrente ao meio-dia.

Em termos de obras, no final deste ano não só estava tudo por fazer, mas até a empreitada não fora entregue ao construtor. E como a construção levou três anos, já se vê que a data de 1907 – que está sobre a porta principal da igreja – só poderá ser a do ano do seu início ou daquele em que se aprontou tudo para ela começar, pois a Junta de Paróquia só deu a aprovação à planta… em 24 de Novembro de 1907, como consta da acta desse dia.
De 24 de Fevereiro do mesmo ano da 1907, lê-se numa acta uma exposição feita à Junta de Paróquia pelo pároco, o abade Manuel Fernandes de Sousa Campos, que merece ser transcrita:

Tendo uma comissão, composta de alguns moradores desta freguesia, como à Junta não é estranho, tomado a seu cargo, por meio duma subscrição, a construção da nova igreja paroquial desta mesma freguesia, por essa construção não poder realizar-se por conta desta Junta de Paróquia, visto serem insignificantes os seus rendimentos e essa nova igreja tornar-se absoluta necessidade pelo estado de ruína em que se acha a actual, que não pode contiguar a funcionar porque as suas paredes estão desequilibradas e as suas madeiras podres, como já foi verificado por peritos competentes, cumpria à Junta auxiliar essa iniciativa, prestando a essa comissão todo o seu apoio e valimento, dentro das atribuições legais, pois que de um tal melhoramento provinha um salutar benefício para a freguesia. Portanto, ocorria à Junta o dever de não só ceder da antiga igreja o seu material, altares e mais aprestos, como realizar definitivamente o acordo feito em 20 de Junho de 1897 com a comissão do Senhor da Cruz, desta freguesia, a fim de ser aproveitada a sua capela e terreno anexo na construção da nova igreja, por se tornar esse local o mais apropriado para essa edificação.

Os membros da mesa da Confraria do Senhor da Cruz estavam presentes e fecharam o acordo mencionado, abrindo assim as portas à construção da nova igreja. Este acordo será ainda corroborado na sessão de 28 de Abril.
No jornal poveiro O Liberal de 7 de Novembro de 1909, saiu esta breve informação sobre a Igreja de Balasar então em fase final de construção:

Conquanto ainda não estejam concluídas as obras da nova igreja da freguesia de Balasar, deste concelho, sabemos que elas estão muito adiantadas, principiando já há semanas a celebração da missa.
Ainda não tivemos ocasião de ver o novo templo para podermos falar acerca dele, mas logo que isso nos seja possível diremos das nossas impressões.
No entanto, as informações que temos são de que a construção da igreja satisfaz por completo e que o lugar em que foi construída é um dos melhores da freguesia.

Infelizmente, não encontrámos no jornal o cumprimento da promessa de que voltaria a falar da nova igreja.
Quem lê as primeiras páginas da Autobiografia deseja naturalmente possuir informação tão precisa quanto possível sobre esta igreja.

sábado, 2 de julho de 2011

Um soneto

O soneto abaixo saiu n’O Poveiro, o semanário do Prior da Póvoa de Varzim, em 25 de Abril de 1912. Pode ter querido celebrar o dia em que a pequena Alexandrina fez a sua Primeira Comunhão. É provável até.

A Primeira Comunhão

(No Domingo de Bom Pastor)

Duas a duas, em passo compassado,
Fervorosas, elevam sua oração
As crianças que o Cordeiro Imaculado
Pela primeira vez hoje receber vão.

Sisudas e graves, o olhar extasiado,
Para o Céu, onde cantam com devoção
Os Anjos que, cheios de amor dedicado,
A Deus mil graças e louvores dão.

Ajoelham, serenas, à sagrada mesa
Aqueles verdadeiros símbolos da pureza
Para receberem o cândido Jesus…

Que elas vêem, rodeado de Querubins
E de ternos e formosos Serafins,
Fulgente e belo, irradiando Luz!...

Foz, 1912

J. B. de Ovídio Machado

A Alexandrina Maria da Costa e a Santa Cruz


Após a Beata Alexandrina falecer, vários sacerdotes escreveram sobre ela.
Escreveu o Mons. Mendes do Carmo no Diário do Minho, o P.e Leopoldino no Ala Arriba e o P.e Humberto no Boletim Salesiano. Além disso, o P.e Pinho, no Brasil, começou a redigir Uma Vítima da Eucaristia, que ficou pronta poucos meses depois, em Janeiro do ano seguinte.
O artigo do P.e Leopoldino que agora transcrevemos saiu em 3 de Dezembro de 1955 e tem o mérito de, pela primeira vez em letra de forma, relacionar a Beata Alexandrina coma a Santa Cruz. O que é importantíssimo. Que santos na história da Igreja foram anunciados de semelhante modo?
Deve-se porém assinalar um pequeno erro no artigo: o documento não foi enviado ao “Sr. Dr. António Pires de Azevedo Loureiro, Desembargador-Provisor e por ausência do Governador, Vigário Capitular, sede vacante, encarregado interinamente do governo temporal e espiritual do Arcebispado de Braga”, pois ele só viria para Braga quase dois anos mais tarde - como intruso.
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Junto da igreja paroquial de San­ta Eulália de Balasar, deste conce­lho, existe uma capela dedicada à Santa Cruz, levantada em memória da aparição em Junho de 1832, de uma cruz de terra, no lugar de Cal­vário.
O pároco de então, Reitor António José de Azevedo, narra essa apa­rição numa representação dirigida ao Sr. Dr. António Pires de Azevedo Loureiro, Desembargador-Provisor e por ausência do Governador, Vigário Capitular, sede vacante, encarregado interinamente do governo temporal e espiritual do Arcebispado de Braga.
Eis o teor da representação:

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor
Dou parte a Vossa Excelência de um caso raro acontecido nesta freguesia de Santa Eulália de Balasar.
No dia de Corpo de Deus próximo pretérito, indo o povo da missa de manhã em um caminho que passa no monte Calvário, divisaram uma cruz descrita na terra: a terra que demonstrava esta cruz era de cor mais branca que a outra: e parecia que, tendo caído orvalho em toda a mais terra, naquele sítio que de­monstrava a forma da cruz não tinha caído orvalho algum.
Mandei eu varrer todo o pó e terra solta que estava naquele sítio; e continuou a aparecer como antes no mesmo sítio a forma da cruz. Mandei depois lan­çar água com abundância tanto na cruz como na mais terra em volta; e então a terra que demonstrava a forma da cruz apareceu de uma cor preta, que até ao presente tem conservado.
A haste desta cruz tem quinze palmos de comprido e a travessa oito; nos dias turvos divisa-se com clareza a forma da cruz em qualquer hora do dia e nos dias de sol claro vê-se muito bem a forma da cruz de manhã até as nove horas e de tarde quando o Sol declina mais para o ocidente, e no mais espaço do dia não é bem visível.
Divulgada a notícia do aparecimento desta cruz, começou a concorrer o povo a vê-la e venerá-la; adornavam-na com flores e davam-lhe algumas esmolas; e dizem que algu­mas pessoas por meio dela têm implorado o auxílio de Deus nas suas necessidades e que têm alcançado o efeito desejado, bem como: sararem em poucos dias alguns animais doentes; acharem quase como por milagroso animais que julgavam perdidos ou roubados e até algumas pessoas terem obtido em poucos dias a saúde em algumas enfermidades que há muito padeciam. E uma mulher da freguesia da Apúlia, que tinha um dedo da mão aleijado, efeito de um penando que nela teve, tocando a Cruz com o dito dedo, repentinamente ficou sã, movendo e endireitando o dedo como os outros da mesma mão, cujo facto eu não presenciei, mas o atestam pessoas fidedignas que viram.
Enfim, é tão grande a devoção que o povo tem com a dita cruz que nos domingos e dias santos de guarda concorre povo de muito longe a vê-la e venerá-la, fazem romarias ora de pé ora de joelhos em volta dela e lhe deixam esmolas; e eu nomeei um homem fiel e virtuoso para guardar as esmolas.

É a esta Cruz que, no colóquio de 14 de Janeiro de 1955, Nosso Senhor se refere quando disse à doente Ale­xandrina:

Há mais de um século que mostrei a cruz a esta terra amada, cruz que veio esperar a vítima. Tudo são provas de amor!
Oh, Balasar, se me não correspondes!...
Cruz de terra para a vítima que do nada foi tirada, vítima escolhida por Deus e que sempre existiu nos olhares de Deus!
Vítima do mundo, mas tão enriquecida das riquezas celestes que ao Céu dá tudo e por amor às almas aceita tudo!
Confia, crê, minha filha! Eu estou aqui. Repete o teu «creio». Confia!
Toda a tua vida está es­crita e fechada a chave de ouro.
Aqui a tenho nas minhas mãos…

E Alexandrina continuou até à hora da morte, abraçada à Cruz, a pedir, a sofrer a martirizar-se pelos pecadores!
Quanto lhe devemos!!!