Traduzimos
esta carta que vem nas págs. 773-774 de Cristo Gesù in Alexandrina. Ela é interessante sob muitos aspectos,
sendo dois deles a situação médica concreta da Alexandrina naquele momento e o distanciamento
que o pároco mantinha frente a ela.
Não
sabemos nada sobre o destinatário.
Balasar, 30/4/1942
Rev. Pe. Ifigénio Adão Pinto Casalta,
amigo e colega
Recebi a sua a que respondo.
A doente Alexandrina está tão grave que
lhe administrei a sagrada Unção. Há cinco semanas que não ingere nada excepto a
santa Comunhão diária e uma vez ou outra um pouco de água que nem sempre retém.
A sua fraqueza é tal que não pode receber injecções: tudo lhe faz mal. Fala
muito pouco e não dorme; geme apenas. O médico assistente, Dr. Azevedo de
Ribeirão, disse-me que não sabe como possa viver; e está surpreendido que
demore tanto a morrer.
Os fenómenos das sextas-feiras continuam
mas noutra forma; até à sexta-feira de Abril (?), saía da cama e reproduzia ao vivo a Paixão; de sexta-feira
santa para cá, entra em êxtase ao meio dia até às três e meia, mas não desce da
cama, e tem dores horríveis…
Por isso não poderá sair de casa tão
cedo e creio muito próxima a sua morte.
A doente é muito pobre; era uma camponesa
e vive de esmolas porque não pode trabalhar; a mãe também é pobre.
Desde que está doente já foi duas vezes
ao Porto para exames médicos, mas estes não conseguiram saber qual é a doença
de estômago que a faz vomitar tudo; tiraram-lhe a radiografia. Quem tratou
destas viagens foi o confessor e director espiritual Pe. Pinho, que arranjou os
meios para o transporte e permanência no Porto para ela e para a irmã, que a
acompanhou.
Tenho-me conservado estranho ao caso,
limitando-me como pároco só a dar-lhe a Comunhão e a assistir como simples
espectador aos fenómenos da sexta-feira.
Vieram cá Padres da Companhia (de Jesus) e seculares, médicos e outras
pessoas, mas só com autorização do Pe. Pinho porque eu não tenho poder para
isso a não ser que venha oficialmente, autorizado pelo Ordinário.
Na freguesia pouquíssimas pessoas sabem
do facto e se alguma coisa transparece é pelos automóveis que estacionam frente
à casa; mas agora são raríssimos por falta de gasolina.
Deverá ir a Coimbra?... Em Braga ou no
Porto não haverá médicos competentes e de confiança do nosso Arcebispo para
examinar a doente?
Ela nunca foi a Coimbra e a viagem é
muito longa. Quando foi ao Porto o médico receou que morresse na viagem; e
então estava muito mais forte do que agora porque se alimentava.
A Beata Alexandrina em êxtase. Ao lado esquerdo, fundo, vê-se a mão do Pe. Pinho e o caderno em que toma apontamentos.
A pedido do Pe. Pinho, o Dr. Elísio de Moura veio examiná-la e declarou que precisava de observá-la alguns dias para lhe estudar a doença.
A pedido do Pe. Pinho, o Dr. Elísio de Moura veio examiná-la e declarou que precisava de observá-la alguns dias para lhe estudar a doença.
Poderá ele fazer o que não conseguiram
os médicos do Porto?
A doente ficou mal impressionada com médico
do Dr. Elísio, que no exame usou modos muito bruscos, mesmo grosseiros,
próprios para dementes mais que para pessoas mentalmente normais.
Informado dos fenómenos da sexta-feira
disse tratar-se de histerismo; contestado com argumentos fundamentados nesta
sua opinião declarou que ignorava tais fenómenos espirituais e que nenhum médico
em Portugal está à altura de responder nestes assuntos.
Estando assim as coisas porquê mandar a
doente a Coimbra? Para martirizá-la e matá-la, mesmo que involuntariamente?
Gostaria de ir a Braga para falar disto
ao Arcebispo; e se o Dr. Ferreira de Macieira de Rates estivesse disposto a
acompanhar-me explicaria a doença desde o seu princípio porque foi ele o médico
que a assistiu mais tempo. Mas estou numa paróquia sem comunicações pelo que me
é difícil a viagem a Braga. Vamos ver se a posso fazer.
À espera de novas ordens creia-me colega
e amigo.
Pe. Leopoldino Rodrigues Mateus
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