sexta-feira, 8 de março de 2013

António José dos Santos e a Santa Cruz


O P.e Leopoldino dá conta de certos documentos relativos à festa da Santa Cruz, à aprovação dos estatutos da confraria, etc., onde entra a mão do administrador do concelho. Em tempos, pensávamos que eles estariam copiados nos livros da mesma confraria, mas pelos vistos não, o P.e Leopoldino foi buscá-los ao arquivo concelhio. Aliás, deve ter sido ele que fez a garatuja que se vê na margem da página.
Mas o que aquele pároco de Balasar devia ignorar era que o administrador de então era um balasarense, embora adoptivo. Chama-se António José dos Santos e casara para o Vila Nova.
Colocamos aqui o conhecido pedido de escolta militar para a festa da Santa Cruz de 1840.
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor
No dia 18 de Junho seguinte, em que a Igreja fes­teja a festividade — Corpus Christi — é costume feste­jar-se na freguesia de Balasar deste Concelho, a Santa Cruz, a cujo Templo concorre todo o povo circunvizinho e de longe, tanto na véspera, à noite, como no próprio dia, formando assim um dos adjuntos a que se chama Romaria; e por que eu desejasse conservar o sossego que quase sempre se perturba em tais adjuntos e não confie na polícia, por cujo porte me não posso responsabilizar; imploro de V. Ex.a a graça, sendo possível, de dar as suas ordens, para que na véspera e no dito dia esteja ali uma Escolta de Tropa de 20 sol­dados pelo menos. A administração da dita festividade prontifica-se ao agasalho dos soldados, sem os fazer pesados ao povo.
Deus guarde Vossa Senhoria.
Administração do Concelho da Póvoa de Varzim, 31 de Maio de 1840.
António José dos Santos

quarta-feira, 6 de março de 2013

Leigos na divulgação da Beata Alexandrina


Desde o princípio, a leiga Beata Alexandrina contou com a colaboração empenhada de leigos. Se a Deolinda era familiar e por isso com obrigações particulares daí decorrentes, não o era a Prof.ª Çãozinha, que teve um papel culturalmente decisivo.
Leigo era também o Dr. Dias de Azevedo, que a defendeu de muitos modos em vida e a divulgou no Boletim de Graças após a morte.
O P.e Humberto conseguiu a colaboração de um importante casal de cooperadores salesianos italianos, os Signoriles. Quanto lhe deve o estudo e divulgação da Beata de Balasar!
Do tempo do P.e Humberto foi também o leigo Francis Johnston (que por vezes ainda é apresentado erradamente como sacerdote), que a divulgou no mundo de língua inglesa. Dele dependeram Francis Reynolds, o fundador da Alexandrina Society (cujo filho, o Patrick, criou recentemente um site sobre a Alexandrina, em homenagem ao pai), Leo Madigan, o Kevin Rowles, o Glenn Dallaire…
O Kevin Rowles é um caso particular, pois o seu opúsculo sobre a Beata já foi editado em três países diferentes, já foi transposto para filme e traduzido ao menos para checo e maltês.
E houve a Maria Rita Scrimieri, que publicou livros, que escreveu até para o Osservatore Romano, que interveio em congressos internacionais, a Prof.ª Yolanda Astrid, colaboradora salesiana, o brasileiro Sidney Borba, a Paulette Leblanc, etc.
Entre os portugueses, conta-se o açoriano Afonso Rocha, um devoto e divulgador de longa data que colocou imensa informação na Internet, que escreveu sobre ela e que actualmente dispõe duma pequena editora.
Também o autor deste blogue, que integrou o secretariado da Beatificação, é autor de livros e de muita informação colocada em vários sites e ultimamente trabalha numa história de Balasar em três volumes que poderá fazer muita luz sobre o meio em que a Beata Alexandrina nasceu, viveu e se finou.
Sacerdotes e leigos apaixonados, juntos, são poucos para a divulgação de tão grande figura.

Imagem: além de Sua Eminência o Cardeal Saraiva Martins, de Sua Excelência Rev.ma o Arcebispo de Braga, do Rev.do Pároco de Balasar, P.e Granja, vêem-se nesta fotografia de 2007 três dedicados divulgadores leigos da Beata Alexandrina: Leo Madigan e José Ferreira, do lado esquerdo, e o Afonso Rocha na extremidade direita.

terça-feira, 5 de março de 2013

A IGREJA PAROQUIAL DE BALASAR (4)


A reconstrução da Igreja do Matinho no século XVIII

Embora possuamos o dossiê relativo à bênção da capela-mor da Igreja do Matinho, há certamente em Braga vários documentos que desconhecemos e que têm a ver com a construção do corpo principal desta igreja.
Em 2001, o Mons. Manuel Amorim escreveu esta nota para a exposição Terras de Balasar que decorreu no Museu Municipal da Póvoa de Varzim:
Quando em 1740 o Comendador Fernando Xavier de Miranda Henriques mandou construir uma nova capela-mor e uma nova casa da residência do reitor, autorizou o empreiteiro a servir-se dos materiais aproveitáveis, que seriam retirados da capela demolida e das velhas moradias ali existentes. O Comendador executou a obra por imposição do tribunal da Mesa da Consciência e tal sugere que os fregueses tinham de há muito feito a sua parte, ou seja, a reconstrução do corpo da Igreja.
Há aqui alguma coisa que não deve estar certa. De facto, a capela-mor da Igreja de Balasar foi reedificada antes do começo de 1736. O pedido de autorização para a benzer não tem data:
Ilustríssimo Senhor
Dizem os moradores da freguesia de Santa Eulália de Balasar, termo de Barcelos, Arcebispado Primaz, que arruinando-se a capela-mor da sua igreja e freguesia e para haver de se reparar foi necessário erigi-la sendo de novo feita e acabada e juntamente emadeirada, telhada e caiada, com seu altar feito e tribuna benzida, capaz para nela se poder celebrar o Santo Sacrifício da Missa, pelo que pede a Vossa Ilustríssima seja servido conceder-lhe licença para se benzer e dizer nela e celebrar o Santo Sacrifício da Missa.
Mas tem-na a resposta a um esclarecimento depois pedido ao reitor de Balasar:
Ilustríssimo Senhor
O que os suplicantes alegam na sua petição é verdade porquanto a capela está feita e acabada e juntamente emadeirada e telhada e caiada e tem seu altar e tribuna benzida, capaz para nela se poder celebrar o Santo Sacrifício da Missa. É o que posso informar (?) informar a Vossa Ilustríssima, que mandará o que for servido.
Balasar e de Março dezasseis de 1736.
O Reitor António da Silva e Sousa
Tem também data a provisão que autorizou a bênção:
Nós, Deão, Dignidades, Cónegos, Cabido, sede vacante, Primaz das Espanhas, etc., pela presente e visto o requerimento retro dos suplicantes e moradores da freguesia de Santa Eulália de Balasar e por informação (?) dela concedemos a licença ao (?) Reverendo Pároco para que na forma do Missal Romano possa benzer a capela-mor da sua freguesia visto constar da sua informação se achar reedificada com a decência devida e com isso na mesma se celebrar nela na forma do estilo.
E por assim havermos por bem mandamos passar a presente que depois de por nós assinada se trasladará no livro do Registo Geral desta Corte sem o que não valha.
Dada em Braga sob nosso selo capitular aos 27 dias do mês de Março de 1738 anos.
Entre os suplicantes contar-se-iam os Grã-Magriços Manuel Carneiro e seu filho Alexandre Carneiro e o António da Costa Soares, do Porto, que ia edificar a capela da Senhora da Piedade, bem como os lavradores mais representativos.

segunda-feira, 4 de março de 2013

A IGREJA PAROQUIAL DE BALASAR (3)

As Igrejas de Gresufes e do Matinho em 1542

É muito pouca informação contida no tombo de 1542 sobre a antiga Igreja de Gresufes e sobre a do Matinho. Apenas algumas indicações relativas à sua localização.
À Igreja de Gresufes temos estas referências no casal do “assento de S. Salvador de Gresufes”:
Pegado com (a Igreja de) São Salvador, um campo todo tapado e valado sobre si: parte da parte do mar com a igreja e cortelho da mesma igreja e do norte com caminho e da terra com campo da Eira e do vendaval com Landim; tem de comprido setenta e oiro varas e de largo setenta varas; levará de semeadura dez alqueires.
Pegado com a mesma igreja, um cortelho tapado e valado sobre si; tem de comprido sessenta e sete varas e de largo vinte e sete varas; leva de semeadura três alqueires e meio e parte da terra com Searas e do norte com caminho e do mar com ribeiro de Oucela e do vendaval com o valo do moinho e terra de Landim.
Para nós isto é quase nada pois não sabemos localizar sequer um ou outro topónimo indicado. Mas ela estava lá.
Para a do Matinho, na medição do “Casal da Igreja”, ocorrem também referências:
Pegado com o cabido da dita igreja, quatro casas térreas telhadas e uma delas colmaça.
Uma casa colmaça em que vive o caseiro.
Um eido com duas cortes.
Mais duas cortes de gado colmaças.
Um pombal pegado com as casas.
Um tapado que levará um quarto de semeadura, que serve de colmeias.
Uma eira pegada com o adro e abaixo da eira um cortelho tapado sobre si que levará de semeadura um alqueire e meio.
A casa do caseiro ficava junto à residência paroquial e ambas junto da igreja. No século XVIII, a casa do caseiro foi demolida e sem dúvida construída de novo onde está hoje a Casa Murado, a sul do cemitério.
E nada mais.
Da Igreja de Gresufes, sabe-se que, em 1551, a Igreja de Gresufes estava em “ermida sem cura”, sem pároco.
Como já foi dito, à hipotética Igreja do Casal não há a mais distante alusão.

domingo, 3 de março de 2013

A IGREJA PAROQUIAL DE BALASAR (2)


As igrejas do Lousadelo e do Casal

Da igreja que existiu no Lousadelo quase nada sabemos. Mas o Censual do Bispo D. Pedro garante-nos ao menos que existiu e que deve ter servido os balasarenses a passar de um século. Seria muito pequena e viria do começo do século XI.
Sobre a igreja do Casal a nossa ignorância é maior. Até se pode perguntar se existiu. De facto nenhum documento original o confirma: nem as Inquirições nem os documentos da anexação de Gresufes. Não deve ter existido: o lugar era grande, havia ali a travessia do rio e a lendária fonte que depois foi de S. Pedro.
Há um documento de prazo de um moinho em Guardes, de 1215, que a terminar tem esta frase: Facto plazo mense Novembris in tempore illo quod ecclesia ipsa consumata fuit. “Prazo feito no mês de Novembro no tempo em que a igreja foi terminada”.
Esta data até fazia sentido, pois anos antes Pêro Pais Correia tinha nobilitado ali uma casa.
O P.e Leopoldino refere-se à Igreja do Casal baseando-se apenas na tradição popular, mas tal tradição podia resultar de confusão com a antiga Capela da Senhora da Piedade. Os documentos de quando se construiu esta capela não conservam nenhuma memória de antiga igreja.
O Tombo de 1542 não dá conta de qualquer propriedade paroquial no Casal, o que seria de esperar se até há pouco aí tivesse estado a igreja.

sábado, 2 de março de 2013

A actualidade da Alexandrina é a sua vida mística



Recentemente uma devota da Beata Alexandrina fez-nos uma pergunta sobre mística. O que ela queria era entender melhor a Beata. Como deve ser questão que diz respeito a muitas pessoas, colocamos aqui parte do prefácio do P.e Humberto Pasquale ao Cristo Gesù in Alexandrina, que traduzimos. Cremos que responde à pergunta, embora seja um texto pouco acessível ao leitor comum.

A mística na Igreja

A actualidade da Alexandrina é a sua vida mística. A elevação a “doutores” da Igreja das grandes místicas S. Catarina de Sena e Teresa de Ávila por parte de Paulo VI não é um apelo ao homem de hoje para aspirar a esta meta?
A mística não passou de moda; a mística não é coisa para “pessoas para cima de quarenta nos” como nos afirmava, com uma veia de mordacidade, um jovem sacerdote; a mística não é um fóssil, uma inutilidade.
Na nossa época vivem no escondimento inumeráveis almas místicas.
Precisamos do Magistério da Igreja para saber em que acreditar e precisamos dos teólogos para iluminar a nossa mente, mas serão sempre os místicos, enamorados de Jesus Cristo, que mais profundamente saberão penetrar no mistério cristão e revelar-nos, graças a uma sua experiência pessoal, a nossa vocação cristã de identificação com Ele; revelar-nos “a insondável riqueza de Cristo e fazer ressaltar, aos olhares de todos, qual seja o providencial desígnio do mistério, escondido desde os séculos em Deus, criador de todas as coisas, a fim de que possamos compreender a caridade de Cristo que transcende todo o conhecimento” (Ef 3,10).
“Felizmente muitos jovens e adultos que criticam e reflectem – assim escreve Igino Giordani – parecem acolher a exortação de Paulo VI, na Populorum Progressio, a 'criticar e a eliminar os falsos bens que trariam consigo um abaixamento do ideal humano'. Além disso, parecem, de vário modo, concordar sobre o facto que “se deve aspirar a um humanismo integral”. Nas suas buscas estão-se a abrir à visão do Santo Padre: 'Não há humanismo verdadeiro se não aberto para o Absoluto, no reconhecimento de uma vocação, que oferece a ideia verdadeira da vida humana. Longe de ser a norma última dos valores, o homem não se realiza a si mesmo senão transcendendo-se'”.
Por isso não “os matusaléns” mas os jovens apontam para a realização da vida que Cristo veio propor e dar aos seus seguidores.
Não serão certamente os improvisados “carismáticos”, sempre sentados na cátedra, a encher o mundo de palavras que fazem brilhar a palavra e a acção daquele Único que tem verdadeiramente o direito de falar e de agir, não obstante as suas elucubrações e protestos, sinais evidentes de uma fé muito humana que pretenderia passar a filtro até as coisas maiores e mais sublimes do Senhor.
Talvez desde há séculos, os escritos de João da Cruz, de Catarina de Sena, de Ângela de Foligno, de Teresa de Ávila não tenham atraído o interesse de tanta gente, fora dos claustros, como hoje.

Que é então esta mística?

A vida mística é a misteriosa vida da graça de Cristo nas almas fiéis que, morrendo para si, com Ele vivem escondias em Deus (Col 3,3).
Isto é, “é a vida íntima que experimentam as almas justas, animadas e possuídas pelo Espírito de Jesus Cristo, recebendo dele sempre mais e sentindo, não raro de modo claro, os seus divinos influxos – gozosos e dolorosos – pelos quais crescem e progridem, em união e conformidade com Ele que é a sua Cabeça, até serem nele transformadas” (Gal 4,19; 2Cor 3,18).
Esta vida pode ser vivida de maneira inconsciente, como a criança vive a vida racional ou humana.
Vivem-na assim os principiantes e em geral os ascetas que caminham para a perfeição pelas “vias ordinárias” meditando laboriosamente os mistérios divinos, exercitando a mortificação das paixões e a prática das virtudes e da piedade.
Mas pode ser vivida mesmo de modo consciente, com uma certa experiência íntima dos misteriosos toques e influxos divinos, e da real presença vivificadora do Espírito Santo.
Assim a vivem muitas almas bastante adiantadas, que alcançaram o perfeito exercício das virtudes; como ainda outras almas privilegiadas, escolhidas, muito cedo, livremente, por Deus para as fazer atingir rapidamente, como se nos seus braços, através das “vias extraordinárias” da contemplação infusa.
Aquelas que vivem assim, mais ou menos conscientemente, da vida divina chamam-se místicas ou contemplativas.
Místicas, pela íntima experiência que têm dos ocultos mistérios de Deus; contemplativas porque a sua habitual oração costuma ser a contemplação que Deus mesmo infunde a quem quer, quando e como quer.
A oração dos ascetas é meditação discursiva que, com a graça ordinária que Deus não nega a ninguém, podem aperfeiçoar até a converterem em oração de simplicidade ou contemplação em parte infusa e em parte adquirida. Ela costuma ser acompanhada por certa presença amorosa de Deus, originada por um influxo do Espírito Consolador para realizar a transição gradual do estado ascético ao estado místico. Está escrito de facto que “as coisas de Deus ninguém as conhece senão o mesmo Espírito de Deus (1 Cor 2,11) e “aquele a quem o Filho quiser revelá-las” (Mt 11,27).
Para alcançar o estado místico é necessário ser-se consolidado na virtude, vencendo-se a si mesmo e o conformando sempre mais a própria vontade com a vontade de Deus. Só assim a alma começa a sentir e a notar certos desejos, impulsos ou instintos de todo novos e verdadeiramente divinos, não provenientes dela própria, que a impelem a um género de vida desconhecido e de perfeição muito superior.
Exercitando-se verdadeiramente na virtude, a alma entra naquela maturação do “homem perfeito” pela qual começará a ver diante de si a luz e a discrição do Espírito de Cristo, como ensina o apóstolo (Ef 5,14).
Submetida a prudência da carne – que é morte – à do Espírito que é “vida e paz”, começará a viver como “espiritual”, a mover-se sob os influxos do divino Consolidador.
Vendo-se então movida pelo Espírito de Cristo, reconhece ser filha de Deus porque aquele Espírito de adopção que a move lhe dá disso testemunho e a impele a chamar “Pai” a Deus omnipotente (Rom 8,6.16).
Havido este impulso, gera nela o dom da piedade: chama a Deus com este amoroso nome sem advertir que é o seu mesmo Espírito de amor a movê-la.
Passa assim da simples união de conformidade em que ela agia à união transformante em que se tem Deus como único director e motor ordinário da própria vida (S. Teresa, Mansão V, 2; VII, 3).
É aqui que a alma compreende não só que opera com a virtude de Cristo, mas que o próprio Cristo com que está configurada (sendo morta e ressuscitada com Ele e do qual recebeu a impressão do selo vivo) é Aquele que opera e vive nela e com ela. Assim pode repetir, em toda a verdade, “vivo, mas não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. De facto o seu viver é Cristo, ele cujo Espírito a vivifica em tudo porque reina no seu coração como padrão absoluto (S. João da Cruz, estrofe 3,5; 12,2; 23,1; 36,5).

Vida mística meta do cristão

Do exposto ressalta a importância para a alma de cuidar do crescimento de virtude em virtude para chegar à união com Deus e até à transformação deificante. Todos os Padres ensinam que este é o ponto capital da vida cristã: chegar a assemelhar-se a Deus como um filho a seu Pai: “sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai dos Céus” (Mt 5,48).
O convite é dirigido aos filhos do reino os quais, por isto mesmo, são já de Deus porque “se alguém não renasce pelo baptismo na água e no Espírito Santo, não pode entrar no seu reino”.
Mas o próprio Verbo encarnado “a quantos O recebem dá o poder de se tornarem filhos de Deus, renascendo dele” pela graça santificante (Jo 1,12-13; 3,5).
Esta graça é uma perfeição substancial, uma segunda natureza que nos faz novas criaturas na medida em que nos transforma e diviniza.
Somos filhos de Deus, proprie et formaliter, não tanto por um dom criado quanto pela inabitação do divino Espírito que vivifica e move as nossas almas.
Este título de filhos de Deus não é um nome vão, nem uma simples hipérbole… Indica uma real dignidade, sobrenatural, essencial a todos os justos e é fruto de redenção e dom de salvação. Ao recebê-la, com a graça santificante, por adopção, tornamo-nos em certo modo para Deus o que o seu Filho é por essência.
Sem nos identificarmos ou confundirmos com Ele, isto é, sem suprimir a nossa natureza, Deus associa-nos à sua, faz-nos participantes do seu Espírito, da sua luz com a fé, do seu amor com a caridade, das suas operações em virtude da sua graça. Põe na nossa alma um novo princípio de acção, o germe de uma vida superior, sobrenatural, divina, destinada a crescer e desenvolver-se no tempo para se mostrar plenamente na eternidade, onde participaremos da sua glória e do reino (Manuel Biblique, vol. IV, p. 216, n. 587). Eis a raça nova, a estirpe divina de que fala S. Pedro: um homem divinizado, incorporado com o Verbo feito homem, animado pelo mesmo Espírito Santo.
S. Agostinho ensina: “Se Deus se humilhou até se fazer homem, foi para elevar os homens e fazer deles deuses” (Serm. 166); “deifica-os com a sua graça; porque justificando-os deifica-os, fazendo-os filhos de Deus e por isso deuses” S. Agostinho, In Ps, 49,2).
O P.e Ramière escreve: “Parece chegado o tempo em que o grande dogma da incorporação dos cristãos com Cristo terá no ensino aos fiéis a mesma importância que lhe foi dada na doutrina apostólica. Chegou o tempo em que não se considerará como acessório o ponto em que S. Paulo fundava todo o seu ensino; em que se compreenderá que esta união apresentada pelo Salvador com a imagens dos ramos unidos à videira não é uma metáfora, mas uma realidade; que no baptismo nos tornamos realmente participantes da vida de Cristo; que recebemos não em figura mas realmente o divino Espírito, princípio desta vida, e que sem nos despojar da nossa personalidade humana, nos tornamos membros de um corpo divino adquirindo, por isso mesmo, forças divinas” (Les Espérances de l´Église, p. III, cap. 4).

P.e Humberto Pasquale, prefácio de Cristo Gesù in Alexandrina, páginas 6-11.

A IGREJA PAROQUIAL DE BALASAR (1)


Já várias vezes escrevemos sobre a história da Igreja Paroquial de Balasar. Vamos agora colocar aqui a versão actualizada do nosso trabalho sobre o tema.
Ao contrário de outras paróquias cuja igreja, ao longo dos séculos, com modificações e acrescentos, sempre se ergueu no mesmo lugar, a de Balasar é já o quarto templo construído de raiz e em localização diferente. A primeira foi a do Lousadelo, a segunda a do Casal, a terceira a do Matinho, a quarta a actual; e houve ainda a de Gresufes.
Durante o século XIX, muitas igrejas paroquiais foram restauradas e ampliadas, outras entretanto foram construídas de novo.
A de Touguinhó data de 1842, a grande igreja de Beiriz de 1872, a reconstrução da de Parada deve ter ocorrido em data próxima, a primeira fase das da Basílica do Sagrado Coração de Jesus iniciou-se ainda no século XIX, a nova igreja de Amorim (de linhas inovadoras e paga por quatro irmãos brasileiros da freguesia) remonta a 1908 e as obras da Misericórdia da Póvoa são do mesmo mestre pedreiro da de Balasar, mas posteriores.