quinta-feira, 30 de maio de 2013

Que horrível, que extrema é a agonia da minha alma!

Eu queria esconder a minha dor, não queria falar mais dela, queria abafá-la por completo. Parece-me que o coração chora de amargura. De longe a longe as mágoas que ele sente fazem-me bailar nos olhos as lágrimas.
Quero encobrir tudo, bastava que Jesus soubesse, mas não posso; manda-me a obediência. E, embora como que arrastada, vou descobrindo, vou arrancando de dentro para fora alguma coisa do que sofro, do que sinto. Não sei se pelo estado grave do sofrimento em que me encontro, ou se é a realidade, sinto-me no pôr-do-sol da vida; parece-me que a morte se avizinha de mim. Curvo-me, inclino-me de boa vontade a receber o golpe que Jesus lhe aprouver dar-me. Sinto no meu coração a separação dos que me são queridos. Vou para a minha Pátria, mas alguma coisa quero deixar entre eles para os animar e consolar na sua dor. Não sou daqui, vou para o meu lugar, depressa nos veremos nessa glória sem fim.
Meu Deus, meu Jesus, o que será isto?
Quero partir, tenho de partir e custa-me tanto esta separação. A dor que isto me causa parece-me arrancar o coração e com ele todas as veias do meu corpo.
Seja tudo pelo amor do meu Jesus e pela salvação das almas.
Sinto que o mundo está em tanta desordem, tanta miséria e crimes! E eu quero pôr termo a tudo isto e não posso; queria remediar todo este mal e não sei como; não tenho mais que dar por ele.
Ah, se houvesse alguém que por ele quisesse sofrer, que o pudesse salvar, o que lhe daria eu?! O meu amor, tudo o que possuísse, o Céu com toda a glória, se esse me pertencesse. 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O registo

O registo que antigamente se distribuía em Balasar era uma pagela, uma pagela antiga, original.
No espaço central da face impressa, há duas imagens, a do Crucificado, pendente da Cruz, e ao fundo desta Nossa Senhora das Dores. Ao lado do Crucificado, esvoaçam uns anjos.
A cruz eleva-se dum terreno inculto que se deve assemelhar ao que se via originalmente no monte Calvário. É possível que a capela que se vê à direita represente a segunda capela da Santa Cruz, que era espaçosa e que foi demolida em 1906 ou 1907.
Os bordos laterais e superior da pagela são limitados por uma ornamentação vegetal.
Ao fundo, como nos ex-votos, vem uma cartela onde se lê:
“N. S. da Cruz aparecida no monte Calvário, na freguesia de Balasar, a 22 de Junho de 1832.
O N. Ex.mo Prelado concedeu 40 dias de indulgências (a) todas as pessoas que rezarem, de joelhos, um P. N. e Ave-Maria diante desta estampa pela extirpação das heresias, concórdia entre os príncipes cristãos e excitação (exaltação?) da S.ta Madre Igreja Católica”.

Na Igreja Paroquial de Balasar, à esquerda de quem entra, guarda-se um conjunto escultórico que tem semelhanças com as imagens centrais desta estampa. Estamos em crer que viriam da capela demolida da Santa Cruz. 

domingo, 26 de maio de 2013

Grupo de ortodoxos em Balasar

Veio recentemente em visita a Balasar um grande grupo de peregrinos ortodoxos. Disseram-nos que eram da Ucrânia ou da Croácia.

A pequena Alexandrina e a República (na Póvoa de Varzim)

(Palestra na Tuitio Fidei)

Nós vivemos em república e os espanhóis em monarquia. Para o meu entender, nem eles ganham muito com o regime monárquico nem nós perdemos muito com o republicano. Isto é, uma monarquia constitucional e uma república são coisa indiferente para o cidadão comum.
Mas a Primeira República, em Portugal, foi odiosa, execrável. Porquê?
Pelo modo concreto, tirânico como se impôs. Parece-me que os republicanos eram movidos principalmente pelo ódio contra a Igreja mais que pelo amor à república. Maçónicos, queriam destruir a Igreja.
O decreto da extinção das Ordens Religiosas deve ter sido o primeiro, data de 8 de Outubro, e elas só estavam legalizadas desde há nove anos.
A pequena Alexandrina veio para a Póvoa de Varzim em Janeiro de 1911, para a Escola Mónica Cardia, que ficava frente à actual estação do Metro, e viveu em casa dum carpinteiro, na Rua da Junqueira, e a República fora proclamada no Outubro anterior. Na Póvoa foi proclamada em 7 deste mês.
Como na altura a Póvoa ainda era uma única paróquia, ela era paroquiana da Matriz, de que era Prior o P.e Manuel Martins Gonçalves da Silva, o padre viúvo, como lhe chamavam, pois fora casado por algum tempo antes de concluir os estudos de teologia.
Nesse Janeiro, já os Padres Jesuítas, as Irmãs Doroteias e as Irmãs de Caridade tinham ido embora há dois meses, muito poucos dias depois da proclamação. Os Jesuítas foram no dia 8, as Irmãs Doroteias no dia 9 e as Irmãs de Caridade, que trabalhavam no hospital, no dia 11.
Quando, em Abril de 1911, vem a Lei da Separação, a situação complica-se ainda muito mais. E segundo a democracia dessa lei, os párocos nem a podiam comentar. E as penas eram muito severas. A situação tornou-se terrível para padres e fiéis empenhados.
De acordo com tal tirânica lei, a pequena Alexandrina mal estava autorizada a frequentar a igreja, mas pelos vistos frequentou-a sempre. A lei estabelecia:
As crianças em idade escolar, que ainda não tiverem comprovado legalmente a sua habilitação em instrução primária elementar, não podem assistir ao culto durante as horas das lições.
Ela ainda não tinha “a sua habilitação em instrução primária elementar”. E onde estava o ensino primário que todos pudessem frequentar?
Certo, certo é que o pároco local reagia altivamente ao ambiente persecutório, o que o levará, em Março de 1912, para o exílio.
No tempo havia na Póvoa muitos jornais: o do Prior, O Poveiro, dois jornais antigos, O Liberal e a Estrela Povoense, e ainda os jornais recentes O Comércio da Póvoa de Varzim, O Intransigente e A Propaganda. Os dois últimos, creio que ligados aos brasileiros republicanos, eram radicais e consequentemente anticlericais. O Comércio continha-se mais, mas era também cruamente republicano. O Liberal e a Estrela Povoense, que eram órgãos dos antigos partidos regenerador e progressista, tentaram manter-se calmos a ver onde as coisas iriam parar.
A este nível da imprensa, a luta desenrolou-se entre O Poveiro e os três jornais republicanos. Foi muito dura. Quem nela participou foi o P.e Leopoldino, mas sempre anónimo. Embora O Poveiro tivesse uma tiragem muito superior à de todos os outros, acabou por ser primeiro censurado, depois levado a tribunal e por fim silenciado.
O director do Comércio era Santos Graça, um verdadeiro algoz da Igreja naqueles tempos, que foi administrador do concelho e que nessa qualidade promoveu os arrolamentos, o roubo das igrejas e dos passais. Foi ele que censurou, levou a tribunal e promoveu o silenciamento d’O Poveiro - que alcançava dimensão nacional.
Um homem que precedeu Santos Graça na administração do concelho e que também se distinguiu no ataque violento à Igreja foi Sebastião Tomás dos Santos, professor do Liceu, a escola onde eu ensinei mais de trinta anos. Era natural de Carregal do Sal e veio para a Póvoa em 1908 por qualquer relação sua com o regicídio.
Diz a Alexandrina que fez a Primeira Comunhão com sete anos de idade e que a encarregada da sua educação a levava a comungar diariamente.
O Crisma, recebeu-o em Vila do Conde das mãos dum bispo no exílio, o então Bispo do Algarve, D. António Barbosa Leão.

Citações:
Ainda na Póvoa de Varzim - escreveu a Alexandrina - lembro-me que tinha muito respeito pelos sacerdotes. Quando estava sentada à porta da rua, só ou com a minha irmã e primas, levantava-me sempre à sua passagem, e eles correspondiam tirando o chapéu, se era de longe, ou dando-me a bênção se passavam junto de mim. Observei algumas vezes que várias pessoas reparavam nisto e eu gostava e até chegava a sentar-me propositadamente para ter ocasião de me levantar no momento em que passavam por mim, só para ter o gosto de mostrar a minha dedicação e respeito pelos ministros do Senhor.
Sobretudo nos jornais mais radicais, os sacerdotes eram ridicularizados, com insinuações torpes. Sebastião Tomás dos Santos, em 5 de Outubro de 1911, no primeiro aniversário da república, pronunciou um discurso no Clube Afonso Costa onde atacou durissimamente a Igreja, a partir da Inquisição e de casos franceses de pedofilia.
A citação da Alexandrina ajusta-se bem à quadra com que, segundo a sua irmã, ela gostava de irritar os guardas-republicanos, e que era esta:
Co'as barbas de Afonso Costa
Nós faremos um pincel
Para engraxar as botas
Ao bom Rei D. Manuel.
Não se sabe se estes versos correspondem exactamente ao que ela cantava, pois são traduzidos do italiano, do livro Cristo Gesù in Alexandrina.
Mas um dia os guardas-republicanos assustaram-na muito. A ela e à irmã:
Depois de umas férias, ia para a Póvoa, eu e a minha irmã; tínhamos quem nos acompanhasse, mas só depois de atravessarmos a freguesia. Íamos pelo caminho-de-ferro e avistámos ao longe dois guardas-republicanos. Tivemos medo deles e refugiámo-nos na volta de um caminho. Como minha irmã levasse um cestinho com linho, eles imaginaram que ela levava fósforos (espera-galegos) – proibidos naquele tempo – e perseguiram-nos. Nós fugimos e gritámos muito. Aos nossos gritos acudiram várias pessoas. Já estavam para fazer fogo quando compreenderam que não éramos portadoras de tal contrabando.
Felizmente desta vez escapámos à morte.
Esta frase é de quem sentiu terror, um terror não ocasional.

O Crisma

Foi em Vila do Conde onde recebi o Sacramento da Confir­mação, ministrada pelo Exmo. Rev. Sr. Bispo do Porto. Lembro-me muito bem desta cerimónia e recebi-a com toda a consolação.
No momento em que fui crismada, não sei o que senti em mim: pareceu-me ser uma graça sobrenatural que me transformou e me uniu cada vez mais a Nosso Senhor.
Sobre isto, queria exprimir-me melhor, mas não sei.

Este bispo do Porto, então do Algarve, chamava-se D. António Barbosa Leão; como ele, todos os restantes bispos residiram fora das suas dioceses, como castigo de não aceitarem a imposição governamental das Cultuais.
O arcebispo de Braga, D. Manuel Ba­ptista da Cunha, viveu parte do seu exílio em Vila do Conde (19 de Dezem­bro de 1912 a 13 de Maio de 1913), onde faleceu de morte natural.
Era então pároco da Vila o ilustradíssimo Monsenhor José Augusto Ferreira.
Não é impossível que na mesma ocasião em que a Alexandrina foi crismada o fosse também o futuro José Régio.
Há uma pergunta que se deve fazer: que pensará mais tarde uma pessoa como a Alexandrina sobre os perseguidores da sua infância, a quem teve de resistir? Que regime opressor fora esse?
E convém lembrar que o P.e Mariano Pinho, que era seminarista em 1910, viveu muito tempo no exílio (Espanha, Bélgica, Áustria, França e Brasil). O P.e Leopoldino foi muito humilhado.



Uma festa um pouco atribulada no Outeiro Maior (ao lado de Balasar), em 1911

Documento da perseguição republicana no concelho de Vila do Conde

Outeiro (Maior), Vila do Conde, 2/8/1911
Realizou-se no domingo passado a festividade do Coração de Jesus, precedida de práticas preparatórias feitas pelo novel orador sagrado Adelino Anselmo de Matos, pároco de Curvos, Esposende, que muito agradou e tirou abundante fruto, não obstante ter sido chamado à última hora.
De manhã houve comunhão geral, distribuindo-se o Pão dos Anjos a umas trezentas pessoas.
De tarde realizou-se uma procissão em honra do SS. Sacramento, promovida por um grupo de devotos e que este ano quiseram cooperar com a Associação do Coração de Jesus, revestindo a festa mais solenidade em virtude de se ter levantado um novo e lindo cruzeiro oferecido à freguesia por um grupo de briosos rapazes que daqui foram para o Brasil e que, entregues ao labutar constante da vida, não se esqueceram da sua terra natal nem da sua fé.
À frente da procissão ia uma bandeira que, pela sua frente, em puro veludo de sedas, ostenta os emblemas do Coração de Jesus, circundados por um ramo a ouro, entrelaçado por uma fita a matiz, rematando tudo em uma espécie de dossel, que produz um efeito surpreendente. Do lado oposto, encontra-se, também bordado a ouro, o emblema JHS, tendo ao fundo um ramo a matiz de belo gosto, e ao cimo a palavra “particular”, em semicírculo.
Como que a pôr um embargo à alegria que todos sentiam no meio de tão linda e religiosa festividade, por ser a única que agrada e consola o coração do verdadeiro cristão e está no ânimo de todos os habitantes desta freguesia, apareceu um ofício do cidadão Administrador do Concelho de Vila do Conde, com a nota de “urgente”, que ao conhecer-se produziu o efeito de um frigidíssimo duche. Dizia assim:
Ao cidadão regedor da freguesia de Outeiro.
Tendo conhecimento de que nessa freguesia se costuma anualmente fazer umas práticas e confissões, sob a denominação de Coração de Jesus, tenho a dizer-lhe que tais práticas são proibidas e punidas por lei. Queira pois não consentir e participar-me, caso não sejam acatadas as minhas ordens.
Saúde e fraternidade.
Vila do Conde, 27 de Julho de 1911.
O Administrador do Concelho – Luís da Silva Neves.
Está claro que se a autoridade da freguesia – o Sr. António Gonçalves de Azevedo – não fosse um cavalheiro prudente, um católico prático a quem agradam sobremaneira os actos da nossa santa religião, na qual se esmera por educar toda a sua família, este ofício viria privar este bom povo da sua querida festa, contristando-o e talvez exaltando-o. Felizmente tudo se fez sem o mais pequeno incidente e no meio da mais franca alegria. – P. A. (Pombal Amorim, que era o pároco)

(Informação saída no jornal O Poveiro, da Póvoa de Varzim, em 10/8/1911. P. A. corresponde a Pombal Amorim, que era o pároco).

O milagre de Inácio José da Silva, de Balasar (6)

Há ainda um quinto ex-voto, supomos que pertença da Confraria do Senhor da Cruz. Nele, o balasarense Inácio José da Silva afirma ter obtido saúde para o seu neto graças à Santa Cruz:
“Milagre feito pela Santa Cruz em Balasar a Inácio José da Silva a um seu neto em perigo de vida por uma inchação, por cuja devoção teve saúde, em 1846”.
Na pintura, há duas cruzes, uma no chão, como a da aparição de 1832, e outra com o Crucificado, como que em visão, envolta em nuvem, mas sob um fundo de tom amarelo-canário. A divisão onde se encontram o avô e o neto é espaçosa, as roupas do avô e da cama do pequeno denotam bom nível económico. Inácio José da Silva reza de joelhos com a cartola pousada a seu lado, no chão.

1846 é o ano da Maria da Fonte, de modo que todos estes ex-votos respeitam ao período que vai da vitória liberal até esta revolta popular que fez frente ao novo regime.

sábado, 25 de maio de 2013

O milagre de Custódio José da Costa (5)

Segundo o P.e Leopoldino, a Junta de Paróquia de Balasar, em sessão de 29 de Junho de 1840, deliberou: “que o retrato de Custódio José da Costa seja posto no corpo da capela, encostado à parede, entre os milagres”.
Este retrato foi concebido como ex-voto, como fica claro da sua extensa legenda:

“Milagre que fez a Santa Cruz de Balasar aparecida a 21 de Junho de 1832 a Custódio José da Costa que, sendo o principal fundador desta capela, trabalhou 5 anos com o seu corpo e abonos de dinheiros prometendo à mesma Santa Cruz que, se lhe permitisse estas obras sem perigos nem assaltos de ladrões, e nela colocaria um painel com o retrato da sua efígie com a cruz na mão; e assim o concedeu a mesma Santa Cruz; e pede de mercê a todos que este lerem um Padre-nosso e uma Ave-Maria por minha intenção e por todos os benfeitores que ajudaram estas obras aplicado pelas almas de seus pais e por todas as do Purgatório”. 

Em 1840, Custódio José da Costa tinha 48 anos, o que condiz bastante bem com o que mostra a pintura. É um retrato de meio corpo e o retratado está bem vestido, com uma roupa que aparenta ser mais de inverno que de verão. Não usa barba. Tem a cruz na mão para vincar bem o papel que lhe coube na propagação e defesa da sua devoção. É um quadro muito maior que os restantes e complementa a outra informação que chegou até nós sobre Custódio José da Costa.

Uma pequena batalha em Vila do Conde?

Joaquim Pacheco Neves no seu livro Vila do Conde (2.ª edição, 1991, página 37) dá conta de uma pequena batalha que ocorreu na foz do Ave em Setembro de 1833. Não foi um recontro entre poderosos exércitos, mas morreram muitos homens e outros foram aprisionados; a enorme impressão que ela há-de ter causado deve ter sido sentida mesmo em Balasar. Era um prenúncio muito mau do que veio a seguir.

Em 6 de Setembro de 1833 a vila foi ocupada pelas tropas de D. Pedro sob o comando do Tenente General Stubbs. A notícia foi dada no dia 8 na “Crónica Constitucional de Lisboa”.
As milícias que guardavam Vila do Conde foram desbaratadas e deixaram nas mãos dos liberais 168 prisoneiros e as ruas e campos “juncados de mortos subindo o número destes a mais de 200, se se compreender os que tentavam passar junto à barra em quatro barcos; virando-se estes com a precipitação da fuga se perderam”.
Deste acontecimento não se dá notícia nas actas da Câmara, mas lê-se no relato mandado pelo Tenente General Stubbs ao General Saldanha e transcrito como notícia no citado jornal.

Estranhamente, as actas da câmara e os registos de óbito de Vila do Conde não dão conta da mortandade resultante desta acção militar. Mas registam uma, nos meses de Julho, Agosto e Setembro, devida a uma epidemia de cólera.
Há contudo um assento de óbito de 4 de Setembro, relativo a um vila-condense que faleceu “por se ter reunido à tropa que fazia a guerra ao legítimo governo da Rainha”. Se a "guerra ao governo da Rainha" já em 4 de Setembro era coisa do passado, então a batalha de Vila do Conde pode ser ficção.