quinta-feira, 23 de maio de 2013

O milagre de Maria Margarida, da Póvoa de Varzim (3)

Este milagre, de 1838, é um milagre de emigrante. Uma senhora poveira, de nome Maria Margarida, viúva, tinha um filho no Brasil desde há muito e poucas notícias lhe chegavam. Depois de orar, «com muitas lágrimas», na presença da Cruz, o filho «lhe apareceu à porta sem ser esperado».
Diz a cartela:
“Milagre que fez Nosso Senhor por intercessão de sua Santíssima Cruz Aparecida a Margarida, viúva, da Póvoa de Varzim, que tendo um filho nas terras do Brasil há 13 anos, com poucas notícias dele, recorreu ao dito Senhor, na presença da dita Cruz, com muitas lágrimas, e ele lhe apareceu à porta sem ser esperado. 1838 anos”.
A pintura é a mais original de todos os cinco milagres. Desde logo porque a Cruz está desenhada no chão, como apareceu, junto a uma mulher em oração. Além da cruz, vê-se uma grande nuvem de tons brancos, que parece evocar a que guiava o povo hebreu na caminhada no deserto. Dela, um Olho de Deus, inscrito num triângulo isósceles, representando a Trindade Divina, como que reflecte para a mulher a força que sai da cruz através dum feixe luminoso ligeiramente colorido. Ou então a força da oração da mulher é que é significada nos raios que dela se dirigem para Deus, que torna a cruz capaz de operar o milagre.


A senhora, que, como a Maria Margarida, de Fão, aparenta ser de algumas posses, tem a cabeça descoberta.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O milagre de Rosária da Silva Lopes, de Fão (2)


O milagre ou ex-voto de Rosária da Silva Lopes é talvez o mais antigo dos que se conservam. E não é um milagre qualquer. Fez ela escrever:
“Milagre que fez esta Santa Cruz de Balasar a Rosária da Silva Lopes, mulher de José Joaquim Cardoso, da Vila de Fão, que padecendo uma enfermidade de olhos pelo espaço de dez anos, tendo gastado imenso cabedal em médicos e banhos, apegou-se com esta Santa Cruz e alcançou saúde no ano de 1837” (leitura do P.e Leopoldino).
Curar-se duma enfermidade que a fazia gastar dinheiro e paciência havia dez anos não é para menos. É um milagre de cura.

Muito simples a parte pintada: uma mulher em oração e uma cruz elevada do chão, na vertical, sem o Crucificado.
Pela indumentária, parece tratar-se duma mulher com algumas posses.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Os milagres ou ex-votos da Santa Cruz (1)


Os milagres ou quadros ex-votos à Santa Cruz são hoje cinco, mas devem ter sido mais, e cada um possui os seus motivos de interesse. Respeitam a um período curto, de cerca de 10 anos.
Três pertencem actualmente ao museu da Póvoa e os outros dois são da Confraria do Senhor da Cruz. Do de Custódio José da Costa há cópia, também em Balasar, aliás na casa onde ele viveu.
Os milagres da Santa Cruz integram-se num género de iconografia que foi muito abundante e por isso estudá-los é também integrá-los na tradição deste género artístico devocional.
O “milagre” mais comum é o da cura. O devoto, num momento em que a sua vida está ameaçada por doença, pede a cura, ela vem e ele, agradecido, manda pintar um quadro a evocar o acontecimento. Dois dos ex-votos da Santa Cruz são de cura.
No período de que eles vêm havia muita emigração para o Brasil, que implicava grandes perigos. Um da Santa Cruz também tem a ver com a emigração.
Na origem do da Bernardina Rosa está o momento político e o de Custódio José da Costa agradece não ter sido roubado.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Uma "espécie de capela" cuja construção se decidiu em quatro dias

A mais antiga notícia sobre a Santa Cruz de Balasar data de 6 de Agosto de 1832, mês e meio após a sua aparição no dia do Corpo de Deus, e encontra-se numa exposição dirigida pelo reitor António José de Azevedo à autoridade eclesiástica de Braga. Dividimo-la aqui em quatro fragmentos:

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor

Notícia da aparição

Dou parte a Vossa Excelência de um caso raro acontecido nesta freguesia de Santa Eulália de Balasar.
No dia de Corpo de Deus próximo pretérito, indo o povo da missa de manhã em um caminho que passa no monte Calvário, divisaram uma cruz descrita na terra: a terra que demonstrava esta cruz era de cor mais branca que a outra: e parecia que, tendo caído orvalho em toda a mais terra, naquele sítio que demonstrava a forma da cruz não tinha caído orvalho algum.
Mandei eu varrer todo o pó e terra solta que estava naquele sítio; e continuou a aparecer como antes no mesmo sítio a forma da cruz. Mandei depois lançar água com abundância tanto na cruz como na mais terra em volta; e então a terra que demonstrava a forma da cruz apareceu de uma cor preta, que até ao presente tem conservado.
A haste desta cruz tem quinze palmos de comprido e a travessa oito; nos dias turvos divisa-se com clareza a forma da cruz em qualquer hora do dia e nos dias de sol claro vê-se muito bem a forma da cruz de manhã até as nove horas e de tarde quando o sol declina mais para o ocidente, e no mais espaço do dia não é bem visível.

Reacções populares e milagres

Divulgada a notícia do aparecimento desta cruz, começou a concorrer o povo a vê-la e venerá-la; adornavam-na com flores e davam-lhe algumas esmolas; e dizem que algumas pessoas por meio dela têm implorado o auxílio de Deus nas suas necessidades e que têm alcançado o efeito desejado, bem como: sararem em poucos dias alguns animais doentes; acharem quase como por milagroso animais que julgavam perdidos ou roubados e até algumas pessoas terem obtido em poucos dias a saúde em algumas enfermidades que há muito padeciam. E uma mulher da freguesia da Apúlia, que tinha um dedo da mão aleijado, efeito de um penando que nela teve, tocando a Cruz com o dito dedo, repentinamente ficou sã, movendo e endireitando o dedo como os outros da mesma mão, cujo facto eu não presenciei, mas o atestam pessoas fidedignas que viram.
Enfim, é tão grande a devoção que o povo tem com a dita cruz que nos domingos e dias santos de guarda concorre povo de muito longe a vê-la e venerá-la, fazem romarias ora de pé ora de joelhos em volta dela e lhe deixam esmolas; e eu nomeei um homem fiel e virtuoso para guardar as esmolas.

Ideia duma "espécie de capela"

Querem agora alguns moradores desta freguesia com o dinheiro das esmolas se faça, no sítio onde está a cruz, como uma espécie de capela cujo tecto, coberto de tabuado, seja firmado em colunas de madeira e em volta cercado de grades também de madeira, para resguardo e decência da mesma cruz e, dentro e defronte da cruz descrita na terra, pôr e levan­tar outra cruz feita de madeira, bem pintada, com a Imagem de Jesus Crucificado pintada na mesma cruz.

Opinião do signatário

Eu não tenho querido anuir a isto sem dar a Vossa Excelência parte do acontecido e mesmo em fazer a sobredita obra sem licença de Vossa Excelência, persuadido que nem eu nem os moradores da freguesia temos autoridade para dispor a nosso arbítrio do dinheiro das esmolas, que por agora ainda é pouco e não chega para se fazer obra mais dispendiosa e decente à proporção do objecto.
Agora sirva-se Vossa Excelência determinar o que lhe parecer e o que eu devo praticar a este respeito.

Santa Eulália de Balasar, aos seis dias do mês de Agosto de mil oito centos trinta e dois.
De Vossa Excelência Súbdito o mais reverente,
O Reitor António José de Azevedo.

Em Braga, quiseram ouvir a opinião do pároco de Gondifelos (pelo nome parece irmão do pároco de Balasar), que tem a data do dia oito:

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor
Em observância da determinação de Vossa Excelência fui à freguesia de Balasar observar a mencionada cruz, o que eu já há tempos tinha feito de meu voto próprio, e acho que ela continua a aparecer, posto que menos clara do que então a vi.
Tem sido muito grande o concurso de povo para a ver, vindo de terras dis­tantes; e, se ela continuar a existir de forma que se não desvaneça, me parece que virá a ser objecto de grande veneração; e no entanto sempre me merece algum culto ao menos.
O que o Reverendo [reitor de Balasar] representa a Vossa Excelência é quanto se me oferece dizer a Vossa Excelência, que determinará o que for servido.

Gondifelos, oito de Agosto de mil e oito centos trinta e dois.
De Vossa Excelência Súbdito Reverente – o Abade Manuel José de Azevedo

E ao quarto dia veio a autorização para a construção da capela:

Concedo a licença pedida, ficando a cargo do Reverendo representante o evitar qualquer culto supers­ticioso que possa haver da parte do povo ignorante.
Braga, nove de Agosto de mil e oito centos trinta e dois.
Com a rubrica do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Vigário capitular


A situação política era má, embora D. Miguel ainda se sentisse bastante seguro (o irmão, com os liberais, estava cercado no Porto). Isso, a evidência de se estar perante algo milagroso e a afluência de populares hão-de ter concorrido para acelerar a decisão do Vigário Capitular.
Hoje chamamos capela ao templozinho que cobre o espaço onde se mostrou a Santa Cruz, mas o que foi pedido em 1832 foi "uma espécie de capela", a que depois se chamou "uma espécie de oratório". Pelos vistos, não se esperava celebrar aí a Santa Missa. Pretendia-se cobrir o espaço, mas não fechá-lo. O inverno porém deve ter lavado a encerrá-lo para evitar que a enxurrada destruísse tudo.

domingo, 12 de maio de 2013

Uma canonização oportuna


O Papa Francisco canonizou, entre outros, 800 mártires que morreram às mãos dos turcos em 1480. Parece-nos uma canonização muito oportuna quando pela Europa os próprios governos dos países mais desenvolvidos se acobardam receando denunciar actos que possam beliscar os islamitas ou reescrevendo a história para lhes não desagradar.
Todos têm obrigação de olhar de frente o seu passado, as suas glórias e os seus erros. 

sábado, 11 de maio de 2013

Da Santa Cruz à Beata Alexandrina



Há mais de um século que mostrei a Cruz a esta terra amada

No colóquio de 5 de Dezembro de 1947, Jesus falou assim à Beata Alexandrina:
És a minha vítima a quem confiei a mais alta missão. E como prova disso atende bem ao que te digo para bem o saberes dizer.
Quase um século era passado que eu mandei a esta privilegiada freguesia a cruz para sinal da tua crucifixão. Não a mandei de rosas, porque a não tinha, eram só espinhos; nem de oiro, porque esse com pedras preciosas serias tu com as tuas virtudes, com o teu heroísmo a adorná-la. A cruz foi de terra, porque a mesma terra a preparou.
Estava preparada a cruz; faltava a vítima, mas já nos planos divinos estava escolhida; foste tu.
O mal aumentou, a onda dos crimes atingiu o seu auge, tinha que ser a vítima imolada; vieste, foi o mundo a sacrificar-te.
E agora partes para o céu e a cruz fica até ao fim do mundo, como ficou também a minha.
Foi a maldade humana a preparar-Me a minha, e a mesma maldade humana preparou a tua.
Oh, como são admiráveis os desígnios do Senhor! Como são grandes e admiráveis! Que encantos eles têm!
Oito anos à frente, em 21 de Janeiro de 1955, insistiu:
Há mais de um século que mostrei a cruz a esta terra amada, cruz que veio esperar a vítima. Tudo são provas de amor!
Oh, Balasar, se me não correspondes!...
Cruz de terra para a vítima que do nada foi tirada, vítima escolhida por Deus e que sempre existiu nos olhares de Deus!
Vítima do mundo, mas tão enriquecida das riquezas celestes que ao Céu dá tudo e por amor às almas aceita tudo!
Confia, crê, minha filha! Eu estou aqui. Repete o teu «creio». Confia!
É por isto que importa estudar a história da Santa Cruz tão a eito quanto possível.
Quanto tivermos oportunidade, haveremos de actualizar a nossa página dedicada à Santa Cruz e mesmo o Pequeno Dicionário da Beata Alexandrina e da Santa Cruz.
Na última semana, as visitas a este blogue (mas não só a ele) têm vindo sobretudo da Rússia. Bem-vindos!