sábado, 30 de março de 2013

Rainha do Céu, alegrai-vos!


Rainha do Céu, alegrai-vos, pois Aquele que merecestes trazer no vosso seio ressuscitou, como disse!
Aleluia!
Rogai a Deus por nós!
Aleluia!
Exultai e alegrai-Vos, ó Virgem Maria porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente!
Aleluia!

Ó Deus, que Vos dignastes alegrar o mundo com a Ressurreição do Vosso Filho Jesus Cristo, Senhor Nosso, concedei-nos, Vos suplicamos, que por sua Mãe, a Virgem Maria, alcancemos as alegrias da vida eterna.
Por Cristo, Senhor Nosso. Amém!

No dia do aniversário da Beata Alexandrina.

sexta-feira, 29 de março de 2013

VIA-SACRA


A grande mística Beata Alexandrina reviveu no corpo, no coração e na alma a Paixão de Jesus.
Foi obrigada pelos directores a deixar escrita a sua experiência num Diário: "Sentimentos da Alma"
Dele foram extraídos os fragmentos que compõem esta Via-Crucis, aqui assinalados com a sigla S (nalguns descreve o que vive Jesus, noutros exprime-se como se fosse ela mesma Jesus, com o qual se sente identificada.)


PRÓLOGO

Tu não quiseste nem sacrifício nem oblações, em vez disso preparaste-me um corpo ...
Então disse:
- Eis que venho, ó Deus, fazer a tua vontade!" (Heb. l0,5-7)

Viu a minha alma
a grande montanha do Calvário
e no cimo a cruz ao alto onde eu havia de estar crucificada. S(3-11-50)
Esta cruz chegava ao Céu
e fazia-o abrir e resplandecer. S (3-11-50)
Era cruz de triunfo
que brilhava mais que o sol! S (7-11-52)


1. JESUS É IMOLADO

Senti-me levada por alguém,
à varanda de Pilatos.
A cabeça ia cheia de espinhos,
o rosto coberto de sangue,
todo o corpo ferido e despedaçado.
Vi e ouvi a grande multidão que,
a uma só voz,
sem se condoer de mim,
bradava a minha crucifixão. S (4-7-47)
Os meus ouvidos ouviam, a uma voz só,
a palavra "morra", "condene-se!"
Oh, que gritos os da multidão! S (30-3-45)
Recebi a sentença de morte. S (11-4-52)
Vi a cruz que, pouco depois senti
a meus ombros para seguir o Calvário. S (4-7-47)
O meu corpo ia entregue aos malfeitores,
o meu espírito ia só em Deus. S (30-3-45)


2. JESUS RECEBE A CRUZ

Recebi a cruz.
Esmagada, curvada com o seu peso,
caí debaixo dela no mesmo lugar. S (5-10-45)
Foi talo peso, que me fez curvar
e fez sentir que me infundia no solo. S (8-3-46)
Não foi a cruz que levei em meus ombros:
foi o mundo inteiro! Senti-o bem. S (6-5-49)
Vi a multidão que me acompanhava:
poucos amigos, quase só inimigos.
Os amigos enterneciam-se;
os inimigos descarregavam
sobre o meu corpo
grandes chicotadas, sem dó nem piedade. S (31-8-45)


3. JESUS CAI PELA PRIMEIRA VEZ

Quase no princípio caí Jesus,
pela primeira vez.
Caiu sobre a cruz; feriu gravemente
o Seu santíssimo rosto e peito. S (16-5-47)
Um número de curiosos contemplavam
essa carne e esse sangue,
por escárnio e não por amor. S (14-9-45)
Caí desfalecida
(a Alexandrina identificada a Jesus).
E parecia mesmo, mesmo perder a vida!
Perder a vida para dar vidas dava-me forças.
Voltava a caminhar. S (26-1-45)
A sede ardente que no coração levava
era a força do meu caminhar. S (14-S-45)


4. JESUS ENCONTRA A MÃE

Saiu-me ao encontro a Mãezinha! Fitou-me; eu fitei-a a Ela.
Uniram-se os nossos corações na mesma dor. A troca dos nossos olhares não se demorou: tive que caminhar à frente,
maltratada, empurrada, arrastada. s (16-2-45)
Ela caminhava também, guiada pelo olhar que tinha ferido e atraído o coração e a alma.
S (13-7-45)
Em tudo o percurso do Calvário não perdi mais a união com Ela.
Eu não arrastava Só a cruz: arrastava-A também a Ela, ou melhor, arrastava a Sua dor. S (13-6-47)


5. JESUS É AJUDADO PELO CIRENEU

A cada passo ia a expirar.
Caía e sobre mim ficava a cruz. s (30-3-45)
Não por dó, mas por receio queriam alguém que a levasse.
Houve quem caminhasse com ela,
não por amor, mas por ser mandado. Mas, mesmo assim, quanto amor senti o meu coração dispensar-lhe!
Que grande paga! s (30-3-45)
Me foi tirada a cruz, mas eu sentia-me como se sempre levasse o seu peso.
S (27-647)


6. JESUS ENCONTRA A VERÓNICA

Veio ao meu encontro a mulher, a mulher querida compadecida da minha dor. Com que ternura e amor limpou do meu rosto o suor, o sangue e o pó!
Os laços da mais estreita amizade prenderam os nossos corações.
É indizível o que queria dizer dela, os louvores que queria dar-lhe!
Oh, como queria que ela fosse falada por este acto tão heróico! S (19-1-45)
Quando a Verónica limpou o rosto de Jesus, eu senti como se o meu rosto e o amor do meu coração, que não era o meu amor, ficassem no pano imprimidos. S (22-8-47)

  
7. JESUS CAI SEGUNDA VEZ

No meado do caminho, foi tão grande a queda e a descarga de açoites que sobre o meu corpo caíram! S (20-6-47)
Os lábios abriram-se-me em sangue e beijavam a terra na qual me feria! S (13-9-46)
O mundo não se compadecia da dor do divino Jesus. E eu via-O chorar. S (3-8-45)
Via os homens vomitar sobre Ele os vómitos das suas maldades e injúrias. S (3-8-45)


8. JESUS ENCONTRA AS SANTAS MULHERES

Quanto mais se aproximava o fim da montanha, mais difícil se tornou a subida: mais agonia, mai sangue, mais abandono e mais dor. S (12-1-51)
As golfadas de sangue eram quase contínuas e o desfalecimento leveva-me a terra. S (17-1-47)
Seguiam-me algumas mulheres. Choravam amargamente, a vista de tantos sofrimentos.

Caminhava e fitava-as com olhar de compaixão. O coração murmurava-lhes:
"Não choreis por mim mas por vós. Chorai as vossas culpas: são a causa das minhas dores". S (13-12-46)


9. JESUS CAI TERCEIRA VEZ

Caminhava como se o mundo estivesse sobre mim a esmagar-me, a sujar-me com todas as suas imundícies.
E o Céu carregava sobre este mundo de iniquidades, esmagava-o com o peso da sua justiça.
Era o mundo, era o Céu contra mim! S (28-6-46)
Caí. Por uns momentos fiquei desfalecida, como se não tivesse vida. Os algozes fitaram-me curiosos, pensando eu ter morrido.
Novo furor me arrastou fortemente e fez bater nas lajes. ( ... )
Mesmo assim, do meu coração Só saía amor e compaixão por eles. S (24-5-46)
No decorrer da viagem o meu corpo ficou por muitas vezes desfalecido... E quantas vezes se repetiam os sofrimentos, outras tantas me saia da alma uma oferta ao Eterno Pai. S (31-8-45)

  
10. JESUS É DESPIDO

Cheguei no Calvário. Ao serem-me tirados os vestidos, foram tirados com tanta pressa que chegaram a rasgarem-se. Que dores violentas ao irem com eles pedaços de carne! S (28-9-45)
Os olhos com o sangue não podiam abrir-se, mas a vergonha obrigava a conservá-los mais profundamente fechados.
Ser despida em público!
Sentí logo que a Mãezinha queria com o seu manto cobrir Jesus revestido em mim. S (12-10-45)
Foram tantas as risadas de escárnio, que ecoavam em todo o Calvário! S (20-9-46)

  
11. JESUS É CRUCIFICADO

Senti como se fosse eu mesma a deitar-me sobre o madeiro e a estender as mãos e os pés para ser crucificada.
Era um abraço eterno à cruz, à obra da redenção ( ... ) Que sede infinita de me dar toda!
Na ânsia de me dar inteiramente no amor mais puro e louco, chegou o momento de dar a vida. S (24-2-50)
Foi violentíssima a crucifixão! Senti quase como que se me arrancassem os braços e pernas, tal era a força com que eram puxados para chegarem ao ponto marcado da cruz. S (18-2-49) 
Vi um algoz com olhares infernais levantar o martelo ao alto e com toda força o deixou cair no cravo que prendia a mão divina de Jesus.
Tudo se reflectia em meu coração. S (9-1-48)

  
12. JESUS MORRE NA CRUZ

Oferecia-me ao Pai como vítima; e à humanidade oferecia o coração e o amor. S (27-3-53)
Era noite, noite tremenda! S (31-10-47)
"Minha Mãe, aceita o mundo que é Teu: é filho do meu sangue e filho da tua dor.
Para o salvar tens que cooperar comigo". Nessa intimidade, com os olhos fitos no Céu, acrescentei: "Está tudo consumado". S (18-1-52)
"Meu Pai, custa-me a ingratidão, mas perdoai-lhes que desconhecem que sou Teu Filho". S (6-9-46)
"Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito: é para Ti o meu último suspiro". S (24--10-47)
Ele a expirar e um som harmonioso enchia o Céu e a Terra. S (11-10-46)

  
13. JESUS É DEPOSTO NO REGAÇO DE SUA MÃE

A minha alma viu-O a ser descido da cruz, cruz que estava dentro em mim.
A santíssima cabeça pendurada, um braço já estendido, e a Mãezinha ao pé da cruz, de braços abertos para O receber. S (21-12-45)
Queria abraçá-Lo, limpar-Lhe o rosto cheio de escarros e pó, todo ensanguentado e recolher em Si todas as gotas do precioso sangue de Jesus, que também era Seu.S (29-4-49)
Mas ai, quanto isto me custou! Estremeci: parecia-me sentir o corpo de Jesus sem vida, frio, gelado! S (21-12-45)


 14. JESUS NO SEPULCRO

Voou a sua Alma santíssima. E eu fiquei na mesma dor, a sentir a mesma perda da Mãezinha. S (11-3-49)
Jesus a morrer para dar a vida, e os homens a matarem a vida! S (3-8-45)
Como Ele amou, como Ele ama! Os Seus desejos que vivêssemos d'Ele e para Ele! S (20-5-49)
Foi o amor que levou Jesus a dar a vida. E a Mãezinha, já com o Seu querido Filho morto nos braços, continuava a mesma missão do amor: amar-nos como a Jesus. S (3-S-49)
Foi um ser humano que sofreu, uma vida divina que venceu. S (27-2-53)
O amor unido à graça e à vida divina triunfou na dor, triunfou na morte. S (27-2-53)


EPÍLOGO

Por entre aquelas nuvens da morte rompeu Jesus, sobressaiu, foi brilhar mais além.
Venceu tudo e de tudo triunfou. ( ... ) Ele foi, mas ficou sempre comigo. (...) Transformado em mim sofria. S (9-11-45) Jesus morreu e viveu sempre.
Senti que Ele morreu e senti que Ele vivia. Ó vida, vida celeste! S (23-12-49)
Ficou o Céu reconciliado com a Terra. S (20-5-49)
O Céu abriu-se quando Jesus expirou.
Já todos, do Calvário podíamos passar ao Céu. S (3-10-47)
O sangue regou a Terra. ( ... )
Ia ser para as almas, no decorrer dos tempos, orvalho de vida e de salvação. S (4-7-47)
Jesus declara:
"Quem com Jesus vive, com Jesus morre.
Quem com Ele morre, com Ele ressuscita para a verdadeira vida".

segunda-feira, 25 de março de 2013

A pequena Alexandrina na Póvoa de Varzim


O meu tema da vez passada foi a pequena Alexandrina em Gresufes; hoje é a mesma pequena Alexandrina, mas na Póvoa de Varzim, nos anos de 1911-1912. Contudo a sua passagem em criança pela Póvoa vai-me servir para duas conversas.
Hoje evitarei falar da República; deixarei isso para a próxima vez.


A Alexandrina ditou para a sua Autobiografia:

Em Janeiro de 1911, fui com minha irmã Deolinda para a Póvoa do Varzim, para frequentarmos a escola.
Não quero pensar quanto sofri com a separação da minha família. Chorei muito e durante muito tempo.
Distraíam-me, acariciavam-me, faziam-me todas as vontades e, depois de algum tempo, resignei-me.

Ela foi com a irmã, mas a irmã já frequentava a escola desde há um ou dois anos.
De acordo com o P.e Humberto Pasquale, “as duas irmãs foram colocadas em casa do carpinteiro Pedro Teixeira Novo, na rua da Junqueira”. A mulher do carpinteiro tinha o nome popular de Maria Mataca e possuía uma lojinha de comes e bebes próxima da Senhora das Dores.
Que relação haveria entre Maria Mataca e D. Ana? A mãe da Alexandrina fornecer-lhe-ia produtos agrícolas?
De novo o P.e Humberto: “Frequentaram a escola “Mónica Cardia” e foi sua professora a Sr.a D. Emília Rosa de Freitas Álvares, que habitava na rua do Almirante Reis”.
Mónica Cardia foi uma mulher abastada e piedosa do século XVII, que deixou um grande legado para a realização anual da Procissão do Senhor dos Passos.
A professora aparece numa fotografia escolar de 1905.

Em termos de casario, a Rua da Junqueira não era muito diferente do que é hoje, como o documentam fotografias antigas. Mas ainda haveria lá uma ou outra casa de gente muito humilde, como a de Pedro Teixeira Novo.
A Alexandrina já tinha estado na Rua da Junqueira… antes de nascer: foi lá que a Ana da Costa anunciou ao António Xavier que estava grávida e que ficou ciente que ele a trocava por outra.

O ensino primário em Balasar

D. Ana da Costa foi muito arrojada ao enviar as filhas para a escola na Póvoa: ela não era para menos.
Como é que uma mãe solteira tomou uma decisão destas, que as casadas e os casados não tomavam? Foi uma opção inspirada. Dizia ela que podia ser útil às filhas… E foi muito!
Em Balasar já havia escola para meninos desde há quarenta anos; o ensino primário para meninas só começou em tempos da Ditadura Nacional, em 1931.
O ensino primário para meninas na Póvoa começou também tarde. Num documento de 1848 esclarece-se que para meninas não havia lá escola, que elas aprendiam a ler com as “mestras de fazer meia e costura”…

O que a Alexandrina aprendeu na Póvoa

A Póvoa representou muito para a Alexandrina. Foi aí que ela aprendeu uns rudimentos de leitura e de escrita; que pôde conhecer um pouco da vida urbana – ter a experiência doutras formas de vida, comercial ou piscatória e de lazer, que não a da sua terra rural – e conhecer também o mar, que tem larga presença nos seus escritos; que passou a maior parte do tempo que não passou na sua aldeia.
Foi aí que ela comungou pela primeira vez, que pôde apreciar uma liturgia certamente mais rica, grandes festas religiosas, que frequentou a Capela da Senhora das Dores, etc.
Também aprendeu aí o que era uma religião perseguida, mas isso vê-lo-emos na próxima vez.
Morar na Rua da Junqueira era estratégico, ideal para conhecer a vida urbana. A escola ficava frente à actual estação do metro, que então era a do comboio.
Ela aprendeu muito mais do que a escola lhe ensinou.

Traquinices

Voltemos a ouvir a Alexandrina:

Continuei a ser muito traquinas: agarrava-me aos americanos, deixava-me ir um pouco e, depois, atirava-me ao chão e caía; atravessava a rua, quando eles iam a passar, sendo preciso o condutor deles acusar-me à patroa.

A linha do americano vinha do Passeio Alegre (junto ao mar e ao Café Chinês), pela Junqueira e Praça do Almada, e dirigia-se para Vila do Conde. Passava portanto frente à escola.
O americano era uma carruagem que se deslocava sobre carris, puxada por muares. No final d’Os Maias (1888), de Eça, fala-se também do americano, em Lisboa.
Outra citação:

Muitas vezes fugia de casa e ia apanhar sargaço para a praia, metendo-me ao mar, como fazem as pescadeiras; trazia-o para casa e dava-o à patroa, que o vendia depois aos lavradores. Com isto afligia a patroa, pois fazia isto às escondidas, embora rapidamente.

Temos aqui a mesma menina activa, irrequieta, ao parece pouco dada ao estudo.

Como era então a vila da Póvoa?

A Póvoa era uma vila pequena, que começava ali nos arredores da Matriz, descia pela Praça do Almada até ao mar e se estendia ainda um pouco para sul e para norte. Já havia a avenida Mouzinho de Albuquerque, mas, para norte dela, só devia haver casas junto ao mar. Tribunal e Liceu ainda tinham que esperar quase 50 anos, a Basílica tinha só a capela-mor e as obras estavam paradas, a própria Capela do Desterro ficava num descampado, como a Basílica. Ainda me recordo duma casa de lavoura com o seu espigueiro frente ao Liceu e de campos frente ao Tribunal.
Eclesiasticamente a Póvoa era uma só paróquia.


A primeira biografia que se publicou sobre a Alexandrina apresenta-a como “uma vítima da Eucaristia”. De facto a Eucaristia tem um lugar único na sua vida; daí que os seus biógrafos dêem merecida atenção a esta informação:

Foi na Póvoa de Varzim que eu fiz a minha Primeira Comunhão, com sete anos de idade. Foi o Sr. Padre Álvaro Matos quem me perguntou a doutrina, confessou e me deu, pela primeira vez, a Sagrada Comunhão. Como prémio, recebi um lindo terço e uma estampazinha.

Como será que ela se recorda dos pormenores relativos ao Sr. Padre Álvaro Matos, que nós não recordamos do tempo da nossa Primeira Comunhão? Por uma razão simples, ele tinha raízes balasarenses e teve haveres na freguesia.

Quando comunguei, estava de joelhos, apesar de pequenina, e fitei a Sagrada Hóstia que ia receber de tal maneira que ficou tão gravada na alma, parecendo-me unir a Jesus para nunca mais me separar dele. Parece que me prendeu o coração!
A alegria que sentia era inexplicável. A todos dava a boa nova. A encarregada da minha educação levava-me a comungar diariamente.

Sobre as particularidades da Alexandrina face à Eucaristia, ver-se-á mais tarde.
A Primeira Comunhão pode ter ocorrido no dia 7 de Maio de 1911, Domingo do Bom Pastor. Ao menos, foi nesse dia que se fizeram as Primeiras Comunhões do ano seguinte, de acordo com este soneto saído n’O Poveiro, o semanário do Prior da Póvoa de Varzim, em 25 de Abril de 1912:

A Primeira Comunhão

(No Domingo de Bom Pastor)

Duas a duas, em passo compassado,
Fervorosas, elevam sua oração
As crianças que o Cordeiro Imaculado
Pela primeira vez hoje receber vão.

Sisudas e graves, o olhar extasiado
Para o Céu, onde cantam com devoção
Os Anjos que, cheios de amor dedicado,
A Deus mil graças e louvores dão,

Ajoelham, serenas, à sagrada mesa
Aqueles verdadeiros símbolos da pureza
Para receberem o cândido Jesus…

Que elas vêem, rodeado de Querubins
E de ternos e formosos Serafins,
Fulgente e belo, irradiando Luz!...

Foz, 1912

J. B. de Ovídio Machado



A Póvoa possuía e possui três igrejas marianas, a Matriz, a Senhora das Dores e a Lapa. A Alexandrina, que frequentou a Matriz com regularidade, mostra uma ligação vincada à Senhora das Dores, à Capela da Mãe Dolorosa. Anuncia-se aqui já a sua paixão pela “Mãezinha” e mesmo a sua atracção pelo Calvário, que não será só o nome do lugar da sua residência, mas quase a sua vivência de cada hora.
Nesta capela há nichos com imagens ilustrativas das Sete Dores de Nossa Senhora, que a menina deve ter contemplado com atenção.
Ouçamos a Alexandrina:

Quando ia a passeio com a patroa para o campo, acompanhada com outras meninas, fugia do convívio delas e ia apanhar flores, que desfolhava para fazer tapetes na igreja de Nossa Senhora das Dores. Era em Maio e toda me comprazia em ver o altar da Mãezinha adornado de rosas e cravos e de respirar o perfume dessas flores. Algumas vezes, oferecia à Mãezinha muitas flores, que minha mãe propositadamente me levava.

Veja-se agora um pouco do que ela ditou no dia 9 de Maio de 1947 e onde recebe o título de “Alexandrina das Dores”:

Esta manhã não podia respirar, não podia viver, estava tomada de terror.
Sentia os olhos colados pelo sangue que brotava do grande capacete de penetrantes espinhos que me cingiam a cabeça.
Assim segui as escuras e estreitas ruas do Calvário. ...
Oh, como foi dolorosa a viagem!
Quanto me custou chegar ao Calvário![1]
...
Veio Jesus; deu luz a toda a minha alma e disse-me:
- Minha filha, minha filha, minha Alexandrina, Alexandrina das dores:
Deixa-me que te dê mais este título de Minha esposa: Alexandrina das Dores!
Tem coragem!

O mar

Embora possamos voltar a falar da importância do mar na obra da Beata Alexandrina, vou ler agora dois fragmentos dos Sentimentos da Alma cheios de imagens marinhas e tempestade:

Mas, mais ainda, a minha dor tem olhos que choram lágrimas de sangue e choram continuamente na maior das amarguras; tem pés, tem mãos para ser crucificados, tem cabeça para ser coroada de espinhos até penetrar os ouvidos, invadindo a dor todo o corpo.
Jesus, estou num sobressalto, não sei o que pressente a minha dor.
Ai, que horror, tudo é tempestade, ameaças: ouço zunir os ventos, os ecos dos trovões terríveis, ameaças de destruição.
Tudo fugiu espavorido e eu sozinha no meio do mar, sem barco, sem leme e sem luz, prestes a afundar-me para sempre no abismo do mar.
Horror! Horror!
A tempestade rasga as nuvens, o Céu abre-se e revolta-se contra a terra.
Meu Deus, meu Jesus, que me espera ainda? Em Vossos santíssimos braços me entrego. (27/7/44)

Ontem de tarde, vi o Horto; vi-o em duas partes: numa, tudo era podridão, ruína e morte, trovões, tempestades e a ira do Senhor sobre ela; na outra, dor de toda a qualidade, dor sem fim.
Levou-me para a última parte o amor: mergulhada ali naquela dor, transformou-se o meu coração num mar de sangue, que dava corrente para todas as nascentes; era a água de todas as fontes, era a vida de todas as vidas.
Veio a primeira parte e mergulhou-se neste mar de sangue, e aí a escondeu o amor de Jesus. Como eu o sentia e via Ele incendiar-se! Como Ele amava, enquanto recebia dor, dor sem fim.
(29/8/47)

Esta linguagem também confirma a importância da passagem da Alexandrina pela Póvoa.


[1] Está a falar da vivência da Paixão; embora só íntima, não era menos dolorosa do que quando a revivia visivelmente.

sábado, 23 de março de 2013

Novo número do Boletim da Alexandrina Society e o aniversário da Beata Alexandrina


É já no próximo dia 30 de Março que se celebra o aniversário do nascimento da Beata Alexandrina e a Alexandrina Society publicou para o efeito um novo número do seu boletim.
Depois da informação relativa à Beata, a notícia mais importante desta edição é a de que Sheila Reynolds, a viúva de Francis Reynolds, fundador da associação, vai deixar a Irlanda e regressar à sua Gales natal. Úrsula Coppinger fica a secretariar a associação.
Para o dia 30 de Março, planeiam uma adoração eucarística de 24 horas, como já é uso fazerem.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Eugénia e Chiaffredo Signorile (6)


Ilustrações criativas nas capas dos livros - b

“Mio Signore, mio Dio!”
Esta ilustração da capa de Mio Signore, mio Dio!, “Meu Senhor e meu Deus!”, de 1992, pintada pelo capuchinho Frei Dâmaso, mostra o Céu que se comunica com a homem, ou vice-versa, o homem que se comunica com o Céu. É apenas, bem o sabemos, uma representação visual duma realidade espiritual, mas é expressiva e adequada ao tema da oração tratado pelo livro.



Brenda Hunter pintou também a ilustração da capa de L’Amor che Muove il Sole e l’Altere Stelle, “O Amor que Move o Sol e as Outras Estrelas”. A expressão usada no título deste livro vem da Divina Comédia, que é um livro muito imaginoso.
A D. Eugénia tem a ideia fixa do amor, e é o amor de Deus que move o mundo, como move a Alexandrina.
A pintora colocou a pomba, branca, do Espírito Santo no centro do turbilhão cósmico, que concebeu como algo de galáctico.

“Eu sou para o meu amado
e o meu amado é para mim”.
Cântico dos Cânticos (citado pela D. Eugénia)

Eugénia e Chiaffredo Signorile (5)


Ilustrações criativas nas capas dos livros - a

“Solo Per Amore!”
A ilustração de Solo per Amore! é a nossa primeira escolha; assina-a Graziella Sarno. Partiu duma conhecida fotografia da Alexandrina em êxtase, deu-lhe um rosto adolescente e acrescentou a parte da imagem do Crucificado.

Só por amor me deixei ferir,
Só por amor meu coração sangra,
Só por Ti, Jesus, a dor tem doçura,
Só na cruz contigo se me alegra a alma.
Alexandrina 


“Zampilli Incandescenti”

Esta ilustração mostra a Alexandrina como mestra: ela transmite à humanidade os “Jorros Incandescentes” (Zampilli Incandescenti) que recebe do seu Jesus. Recorda as línguas de fogo do Espírito Santo a descer sobre os Apóstolos e Maria Santíssima.
Brenda Hunter estava em momento de inspiração. 

terça-feira, 19 de março de 2013

Eugénia e Chiaffredo Signorile (4)


Colaboradores

A produtividade de quem se envolve em alguma tarefa como a dos Signoriles depende muito da capacidade de agregar colaboradores. Ora eles obtiveram colaboração variada:

·        de teólogos, como o P.e Luigi Fiora, que apresenta o Figlia del Dlore Madre di Amore, Frei Franco Bussar Bassini, autor da introdução do mesmo livro, P.e Gianni Serighetti, prefaciador de Venite a Me!, Giulio Giacometi e Piero Sessa, colaboradores de La Gloria dell’Uomo dei Dolori nel Sorriso di Alexandrina, P.e Vittorio De Bernardi, S.J., cremos que Gabriele Amorth e sem dúvida outros.
·   de ilustradores, como Massimo Astrua em Sulle Ali del Dolore, Sofferenza Amata, Ho Sete di Voi!, capa de Alexandrina, Voglio Imparare da Te! e “Mi Amasti fino all’Estremo!”; Frei Damaso – capa de Figlia del Dolore e de Mio Signore, de Ho Sete di Voi! e contracapa de “Mi Amasti fino all’Estremo!”; Felicina Sesto, autora das belíssimas aguarelas de Anima Pura Cuore di Fuoco; Elisabetta Alberti, com as ilustrações de Mio Signore, mio Dio! e de L’Amor che Muove il Sole e l’altere Stelle; Graziella Sarno, autora da capa de Solo per Amore! e outros trabalhos; Brenda Hunter com uma ilustração em Solo per Amore! e capa de Zampilli Incandescenti...
O aspecto visual dos livros é muito cuidado e as ilustrações são particularmente ajustadas ao seu conteúdo.
·    de grupos, como Soto il Manto di Maria Regina della Pace e Grupo Beata Alexandrina. Ambos devem ter promovido edições de obras.
·   de  tradutores, como os colaboradores do antigo Sítio Oficial da Beata Alexandrina, que  traduziram algumas para português, francês, inglês, espanhol e alemão; pensamos que Solo per Amore! está traduzido para tailandês.
·        e há ainda um conjunto de outros colaboradores, alguns dos quais têm os seus nomes assinalados nos livros: Ana Maria, Glória, Maria Rita, Miguel, Ana Maria, Caterina, Paula, Adriana Cardin, etc.