segunda-feira, 4 de março de 2013

A IGREJA PAROQUIAL DE BALASAR (3)

As Igrejas de Gresufes e do Matinho em 1542

É muito pouca informação contida no tombo de 1542 sobre a antiga Igreja de Gresufes e sobre a do Matinho. Apenas algumas indicações relativas à sua localização.
À Igreja de Gresufes temos estas referências no casal do “assento de S. Salvador de Gresufes”:
Pegado com (a Igreja de) São Salvador, um campo todo tapado e valado sobre si: parte da parte do mar com a igreja e cortelho da mesma igreja e do norte com caminho e da terra com campo da Eira e do vendaval com Landim; tem de comprido setenta e oiro varas e de largo setenta varas; levará de semeadura dez alqueires.
Pegado com a mesma igreja, um cortelho tapado e valado sobre si; tem de comprido sessenta e sete varas e de largo vinte e sete varas; leva de semeadura três alqueires e meio e parte da terra com Searas e do norte com caminho e do mar com ribeiro de Oucela e do vendaval com o valo do moinho e terra de Landim.
Para nós isto é quase nada pois não sabemos localizar sequer um ou outro topónimo indicado. Mas ela estava lá.
Para a do Matinho, na medição do “Casal da Igreja”, ocorrem também referências:
Pegado com o cabido da dita igreja, quatro casas térreas telhadas e uma delas colmaça.
Uma casa colmaça em que vive o caseiro.
Um eido com duas cortes.
Mais duas cortes de gado colmaças.
Um pombal pegado com as casas.
Um tapado que levará um quarto de semeadura, que serve de colmeias.
Uma eira pegada com o adro e abaixo da eira um cortelho tapado sobre si que levará de semeadura um alqueire e meio.
A casa do caseiro ficava junto à residência paroquial e ambas junto da igreja. No século XVIII, a casa do caseiro foi demolida e sem dúvida construída de novo onde está hoje a Casa Murado, a sul do cemitério.
E nada mais.
Da Igreja de Gresufes, sabe-se que, em 1551, a Igreja de Gresufes estava em “ermida sem cura”, sem pároco.
Como já foi dito, à hipotética Igreja do Casal não há a mais distante alusão.

domingo, 3 de março de 2013

A IGREJA PAROQUIAL DE BALASAR (2)


As igrejas do Lousadelo e do Casal

Da igreja que existiu no Lousadelo quase nada sabemos. Mas o Censual do Bispo D. Pedro garante-nos ao menos que existiu e que deve ter servido os balasarenses a passar de um século. Seria muito pequena e viria do começo do século XI.
Sobre a igreja do Casal a nossa ignorância é maior. Até se pode perguntar se existiu. De facto nenhum documento original o confirma: nem as Inquirições nem os documentos da anexação de Gresufes. Não deve ter existido: o lugar era grande, havia ali a travessia do rio e a lendária fonte que depois foi de S. Pedro.
Há um documento de prazo de um moinho em Guardes, de 1215, que a terminar tem esta frase: Facto plazo mense Novembris in tempore illo quod ecclesia ipsa consumata fuit. “Prazo feito no mês de Novembro no tempo em que a igreja foi terminada”.
Esta data até fazia sentido, pois anos antes Pêro Pais Correia tinha nobilitado ali uma casa.
O P.e Leopoldino refere-se à Igreja do Casal baseando-se apenas na tradição popular, mas tal tradição podia resultar de confusão com a antiga Capela da Senhora da Piedade. Os documentos de quando se construiu esta capela não conservam nenhuma memória de antiga igreja.
O Tombo de 1542 não dá conta de qualquer propriedade paroquial no Casal, o que seria de esperar se até há pouco aí tivesse estado a igreja.

sábado, 2 de março de 2013

A actualidade da Alexandrina é a sua vida mística



Recentemente uma devota da Beata Alexandrina fez-nos uma pergunta sobre mística. O que ela queria era entender melhor a Beata. Como deve ser questão que diz respeito a muitas pessoas, colocamos aqui parte do prefácio do P.e Humberto Pasquale ao Cristo Gesù in Alexandrina, que traduzimos. Cremos que responde à pergunta, embora seja um texto pouco acessível ao leitor comum.

A mística na Igreja

A actualidade da Alexandrina é a sua vida mística. A elevação a “doutores” da Igreja das grandes místicas S. Catarina de Sena e Teresa de Ávila por parte de Paulo VI não é um apelo ao homem de hoje para aspirar a esta meta?
A mística não passou de moda; a mística não é coisa para “pessoas para cima de quarenta nos” como nos afirmava, com uma veia de mordacidade, um jovem sacerdote; a mística não é um fóssil, uma inutilidade.
Na nossa época vivem no escondimento inumeráveis almas místicas.
Precisamos do Magistério da Igreja para saber em que acreditar e precisamos dos teólogos para iluminar a nossa mente, mas serão sempre os místicos, enamorados de Jesus Cristo, que mais profundamente saberão penetrar no mistério cristão e revelar-nos, graças a uma sua experiência pessoal, a nossa vocação cristã de identificação com Ele; revelar-nos “a insondável riqueza de Cristo e fazer ressaltar, aos olhares de todos, qual seja o providencial desígnio do mistério, escondido desde os séculos em Deus, criador de todas as coisas, a fim de que possamos compreender a caridade de Cristo que transcende todo o conhecimento” (Ef 3,10).
“Felizmente muitos jovens e adultos que criticam e reflectem – assim escreve Igino Giordani – parecem acolher a exortação de Paulo VI, na Populorum Progressio, a 'criticar e a eliminar os falsos bens que trariam consigo um abaixamento do ideal humano'. Além disso, parecem, de vário modo, concordar sobre o facto que “se deve aspirar a um humanismo integral”. Nas suas buscas estão-se a abrir à visão do Santo Padre: 'Não há humanismo verdadeiro se não aberto para o Absoluto, no reconhecimento de uma vocação, que oferece a ideia verdadeira da vida humana. Longe de ser a norma última dos valores, o homem não se realiza a si mesmo senão transcendendo-se'”.
Por isso não “os matusaléns” mas os jovens apontam para a realização da vida que Cristo veio propor e dar aos seus seguidores.
Não serão certamente os improvisados “carismáticos”, sempre sentados na cátedra, a encher o mundo de palavras que fazem brilhar a palavra e a acção daquele Único que tem verdadeiramente o direito de falar e de agir, não obstante as suas elucubrações e protestos, sinais evidentes de uma fé muito humana que pretenderia passar a filtro até as coisas maiores e mais sublimes do Senhor.
Talvez desde há séculos, os escritos de João da Cruz, de Catarina de Sena, de Ângela de Foligno, de Teresa de Ávila não tenham atraído o interesse de tanta gente, fora dos claustros, como hoje.

Que é então esta mística?

A vida mística é a misteriosa vida da graça de Cristo nas almas fiéis que, morrendo para si, com Ele vivem escondias em Deus (Col 3,3).
Isto é, “é a vida íntima que experimentam as almas justas, animadas e possuídas pelo Espírito de Jesus Cristo, recebendo dele sempre mais e sentindo, não raro de modo claro, os seus divinos influxos – gozosos e dolorosos – pelos quais crescem e progridem, em união e conformidade com Ele que é a sua Cabeça, até serem nele transformadas” (Gal 4,19; 2Cor 3,18).
Esta vida pode ser vivida de maneira inconsciente, como a criança vive a vida racional ou humana.
Vivem-na assim os principiantes e em geral os ascetas que caminham para a perfeição pelas “vias ordinárias” meditando laboriosamente os mistérios divinos, exercitando a mortificação das paixões e a prática das virtudes e da piedade.
Mas pode ser vivida mesmo de modo consciente, com uma certa experiência íntima dos misteriosos toques e influxos divinos, e da real presença vivificadora do Espírito Santo.
Assim a vivem muitas almas bastante adiantadas, que alcançaram o perfeito exercício das virtudes; como ainda outras almas privilegiadas, escolhidas, muito cedo, livremente, por Deus para as fazer atingir rapidamente, como se nos seus braços, através das “vias extraordinárias” da contemplação infusa.
Aquelas que vivem assim, mais ou menos conscientemente, da vida divina chamam-se místicas ou contemplativas.
Místicas, pela íntima experiência que têm dos ocultos mistérios de Deus; contemplativas porque a sua habitual oração costuma ser a contemplação que Deus mesmo infunde a quem quer, quando e como quer.
A oração dos ascetas é meditação discursiva que, com a graça ordinária que Deus não nega a ninguém, podem aperfeiçoar até a converterem em oração de simplicidade ou contemplação em parte infusa e em parte adquirida. Ela costuma ser acompanhada por certa presença amorosa de Deus, originada por um influxo do Espírito Consolador para realizar a transição gradual do estado ascético ao estado místico. Está escrito de facto que “as coisas de Deus ninguém as conhece senão o mesmo Espírito de Deus (1 Cor 2,11) e “aquele a quem o Filho quiser revelá-las” (Mt 11,27).
Para alcançar o estado místico é necessário ser-se consolidado na virtude, vencendo-se a si mesmo e o conformando sempre mais a própria vontade com a vontade de Deus. Só assim a alma começa a sentir e a notar certos desejos, impulsos ou instintos de todo novos e verdadeiramente divinos, não provenientes dela própria, que a impelem a um género de vida desconhecido e de perfeição muito superior.
Exercitando-se verdadeiramente na virtude, a alma entra naquela maturação do “homem perfeito” pela qual começará a ver diante de si a luz e a discrição do Espírito de Cristo, como ensina o apóstolo (Ef 5,14).
Submetida a prudência da carne – que é morte – à do Espírito que é “vida e paz”, começará a viver como “espiritual”, a mover-se sob os influxos do divino Consolidador.
Vendo-se então movida pelo Espírito de Cristo, reconhece ser filha de Deus porque aquele Espírito de adopção que a move lhe dá disso testemunho e a impele a chamar “Pai” a Deus omnipotente (Rom 8,6.16).
Havido este impulso, gera nela o dom da piedade: chama a Deus com este amoroso nome sem advertir que é o seu mesmo Espírito de amor a movê-la.
Passa assim da simples união de conformidade em que ela agia à união transformante em que se tem Deus como único director e motor ordinário da própria vida (S. Teresa, Mansão V, 2; VII, 3).
É aqui que a alma compreende não só que opera com a virtude de Cristo, mas que o próprio Cristo com que está configurada (sendo morta e ressuscitada com Ele e do qual recebeu a impressão do selo vivo) é Aquele que opera e vive nela e com ela. Assim pode repetir, em toda a verdade, “vivo, mas não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. De facto o seu viver é Cristo, ele cujo Espírito a vivifica em tudo porque reina no seu coração como padrão absoluto (S. João da Cruz, estrofe 3,5; 12,2; 23,1; 36,5).

Vida mística meta do cristão

Do exposto ressalta a importância para a alma de cuidar do crescimento de virtude em virtude para chegar à união com Deus e até à transformação deificante. Todos os Padres ensinam que este é o ponto capital da vida cristã: chegar a assemelhar-se a Deus como um filho a seu Pai: “sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai dos Céus” (Mt 5,48).
O convite é dirigido aos filhos do reino os quais, por isto mesmo, são já de Deus porque “se alguém não renasce pelo baptismo na água e no Espírito Santo, não pode entrar no seu reino”.
Mas o próprio Verbo encarnado “a quantos O recebem dá o poder de se tornarem filhos de Deus, renascendo dele” pela graça santificante (Jo 1,12-13; 3,5).
Esta graça é uma perfeição substancial, uma segunda natureza que nos faz novas criaturas na medida em que nos transforma e diviniza.
Somos filhos de Deus, proprie et formaliter, não tanto por um dom criado quanto pela inabitação do divino Espírito que vivifica e move as nossas almas.
Este título de filhos de Deus não é um nome vão, nem uma simples hipérbole… Indica uma real dignidade, sobrenatural, essencial a todos os justos e é fruto de redenção e dom de salvação. Ao recebê-la, com a graça santificante, por adopção, tornamo-nos em certo modo para Deus o que o seu Filho é por essência.
Sem nos identificarmos ou confundirmos com Ele, isto é, sem suprimir a nossa natureza, Deus associa-nos à sua, faz-nos participantes do seu Espírito, da sua luz com a fé, do seu amor com a caridade, das suas operações em virtude da sua graça. Põe na nossa alma um novo princípio de acção, o germe de uma vida superior, sobrenatural, divina, destinada a crescer e desenvolver-se no tempo para se mostrar plenamente na eternidade, onde participaremos da sua glória e do reino (Manuel Biblique, vol. IV, p. 216, n. 587). Eis a raça nova, a estirpe divina de que fala S. Pedro: um homem divinizado, incorporado com o Verbo feito homem, animado pelo mesmo Espírito Santo.
S. Agostinho ensina: “Se Deus se humilhou até se fazer homem, foi para elevar os homens e fazer deles deuses” (Serm. 166); “deifica-os com a sua graça; porque justificando-os deifica-os, fazendo-os filhos de Deus e por isso deuses” S. Agostinho, In Ps, 49,2).
O P.e Ramière escreve: “Parece chegado o tempo em que o grande dogma da incorporação dos cristãos com Cristo terá no ensino aos fiéis a mesma importância que lhe foi dada na doutrina apostólica. Chegou o tempo em que não se considerará como acessório o ponto em que S. Paulo fundava todo o seu ensino; em que se compreenderá que esta união apresentada pelo Salvador com a imagens dos ramos unidos à videira não é uma metáfora, mas uma realidade; que no baptismo nos tornamos realmente participantes da vida de Cristo; que recebemos não em figura mas realmente o divino Espírito, princípio desta vida, e que sem nos despojar da nossa personalidade humana, nos tornamos membros de um corpo divino adquirindo, por isso mesmo, forças divinas” (Les Espérances de l´Église, p. III, cap. 4).

P.e Humberto Pasquale, prefácio de Cristo Gesù in Alexandrina, páginas 6-11.

A IGREJA PAROQUIAL DE BALASAR (1)


Já várias vezes escrevemos sobre a história da Igreja Paroquial de Balasar. Vamos agora colocar aqui a versão actualizada do nosso trabalho sobre o tema.
Ao contrário de outras paróquias cuja igreja, ao longo dos séculos, com modificações e acrescentos, sempre se ergueu no mesmo lugar, a de Balasar é já o quarto templo construído de raiz e em localização diferente. A primeira foi a do Lousadelo, a segunda a do Casal, a terceira a do Matinho, a quarta a actual; e houve ainda a de Gresufes.
Durante o século XIX, muitas igrejas paroquiais foram restauradas e ampliadas, outras entretanto foram construídas de novo.
A de Touguinhó data de 1842, a grande igreja de Beiriz de 1872, a reconstrução da de Parada deve ter ocorrido em data próxima, a primeira fase das da Basílica do Sagrado Coração de Jesus iniciou-se ainda no século XIX, a nova igreja de Amorim (de linhas inovadoras e paga por quatro irmãos brasileiros da freguesia) remonta a 1908 e as obras da Misericórdia da Póvoa são do mesmo mestre pedreiro da de Balasar, mas posteriores. 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Um soneto que retrata a Beata Alexandrina

Alexandrina

Um lírio de pureza… castidade
Que tanto amou, e só de amor vivia…
O bom Jesus na santa Eucaristia
Era a sua paixão e ansiedade!...

Levar a fé a toda a humanidade,
Um tal desejo ardente ela sentia…
Do seu leito de dor, lenta agonia,
Com tal resignação e humildade!

Pedindo ao Senhor mais sofrimento
Pelas almas… e Deus ouviu-lhe a voz…
Tantos anos sofreu, sem um lamento!

Ai, quantas vezes com Jesus a sós
Na Hóstia Santa… único alimento!...
Eleita do Senhor, roga por nós!

Deolinda Rodrigues, 6/8/1977
(Boletim de Graças de Dezembro de 1977)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A pequena Alexandrina em Gresufes - texto

Eu vou falar sobre o nascimento, sobre a família e sobre os primeiros anos da vida da Alexandrina em Gresufes; mas, para que, desde o começo, os meus ouvintes formem uma ideia de como ela é excepcional e merecedora das nossas atenções, citarei agora umas frases que Jesus lhe dirigiu em 15 de Abril de 1949 e onde a definiu como escola:

Minha filha, escola de toda a humanidade!...
Quanto deve ela aprender nesta escola – escola da vida de Cristo, escola da ciência do Altíssimo!
É aqui que aprendem os pequenos, os grandes, os ignorantes e os sábios.
É nesta escola que se aprende a sofrer e a amar.

Perante estas afirmações, em primeiro lugar, é natural que sintamos uma forte vontade de aprender na escola da Alexandrina e, depois, devemos procurar que outros a frequentem: devemos divulgá-la.
Eu entendo que as palavras de Jesus são também proféticas: se ela é “escola de toda a humanidade”, é porque o vai ser… porque neste momento ainda não é…
Há muitas outras declarações deste género. Jesus pedia-lhe muito, mas era divinamente generoso com ela, exaltando-a, privilegiando-a com um papel de destaque na Igreja e no mundo.
Beata Alexandrina
Nascimento
A Alexandrina nasceu aqui perto, em Gresufes, na casa dos avós, no dia 30 de Março de 1904 (100 anos depois, foi beatificada).
Era quarta-feira da Semana Santa e ela foi baptizada no Sábado de Aleluia. O padrinho foi o Tio Joaquim, que muito mais tarde irá morar na Casa do Calvário.
A vida mística da Alexandrina vai girar quase toda em volta da semana da Paixão.

Os Vicentes
Os Vicentes – a família materna da Alexandrina – não eram pobres; eram certamente uns lavradores remediados, embora isso não equivalha ao que actualmente consideramos uma família de remediados. Uma família remediada de hoje vive melhor do que gente muito rica do tempo, que não tinha energia eléctrica, não tinha aquelas máquinas que agora há em todas as casas, água quente, televisão, telefone e Internet, que tinha uma alimentação pouco diversificada, um vestuário pouco variado, meios de deslocação rudimentares, etc.
Ser remediado no tempo, nos meios rurais, era trabalhar alguns campos seus, sem depender da oferta de trabalho alheia, muitas vezes sazonal. Era ter casa própria, dispor de pão e vinho para todo o ano, de lenha sua, era poder criar um cevado, dispor dum vestuário que não se ficasse pelo estritamente utilitário e pouco mais.
A mãe da Alexandrina, que se chamava Maria Ana da Costa, tinha 27 anos em 1904 e era já uma mãe solteira: tinha outra menina, a Deolinda.
Nisto não foi exemplar; mas depois havia de ser mesmo muito exemplar.
Além do Joaquim e outro irmão, Maria Ana da Costa tinha ainda duas ou três irmãs.
Março é tempo de frio, por isso a Alexandrina nasceu na cozinha, frente à lareira, sobre uma enxerga.
A casa dos Vicentes foi mais tarde à falência e arruinou-se, mas a cozinha não. Está lá, mas é particular.
A servir de banco de namoro, frente à casa, está o lintel do portal fronho, que data de 1764. Na residência paroquial, conserva-se um escudete de fechadura, isto é, uma das ferragens do portal.

Lareira da casa dos avós da Alexandrina: foi frente a ela que a pequena nasceu.

O pai da Alexandrina
Quando nasce um filho, há sempre uma mãe, mas há também um pai. O pai da recém-nascida chamava-se António Xavier, era duma casa do lugar em que nos encontramos, Vila Pouca; era brasileiro e prometia casamento à Maria Ana da Costa. Os Xavieres eram padeiros.
Ele prometia casamento, mas falhou cobardemente: ainda a menina não devia ter nascido e já António Xavier tinha casado com outra, na Póvoa.
Foi uma decisão muito errada: rejeitou as filhas, deixou à mãe todos os cuidados delas e perdeu uma grande mulher: se ele tivesse casado com a Ana da Costa, ela faria dele um homem respeitável. A ela sobrava-lhe energia para trabalhar, era boa figura e uma pessoa apaixonada.
Inscrição do lintel do portal fronho da casa dos avós da Alexandrina.

Na sua cegueira, António Xavier trocou-a por uma mulherzinha: chegou a ter de pedir auxílio económico… à acamada Alexandrina, a filha que ele rejeitara.

Como era então Gresufes?
Gresufes era um beco, um fim do mundo: a esta aldeia ia-se e voltava-se: não se passava ali para lado nenhum (hoje já não é bem assim). Os acessos eram fraquíssimos e até a igreja ficava longe.
Ao tempo da infância da Alexandrina, deviam viver lá umas 50 pessoas, algumas abastadas: os Machados, os Torres, os Farias, os Santos, os Boucinhas.
No ano em que ela nasceu, morreu Manuel Boucinhas, um político local tão considerado que da Póvoa veio um comboio especial com gente para participar no enterro.
Durante séculos, na Idade Média, Gresufes foi sede de paróquia e pertenceu a uma importante família nobre.
Em tempos muito mais recuados, de antes de Cristo, próximo de Gresufes e de Vila Pouca, houve um outeiro, um local celta de qualquer actividade religiosa; cerca dum quilómetro a norte, existiu um castro, o Castro de Penices. Mas muito antes, lá para 2.000 anos antes de Cristo, ao pé de onde depois se construiu o castro, houve um monumento megalítico, uma mamoa.
Próximas da aldeia da Alexandrina, ficavam as aldeias de Vila Pouca (onde estamos) e Além. Em Além, também havia alguns lavradores grandes, em Vila Pouca nem tanto.
Os nomes Vila Pouca, como Vila Nova, que ficava mais para sul, vêm do tempo visigótico.
Em certos períodos do ano Gresufes deve ser um local muito bonito: a aldeia fica ao fundo de dois vales, o Vale do Painho e o Vale Grande, e tem água com abundância: até houve lá um moinho. Quando a Primavera enchesse o lugar de verdura ele devia ser um recanto encantador.


EPISÓDIOS EM GRESUFES

Os episódios que a Beata Alexandrina conta na Autobiografia e que decorreram em Gresufes são poucos, talvez meia dúzia. Vou contar alguns:

A ferida ao canto da boca
Como era desinquieta e, enquanto minha mãe descansava um pouco, tendo-me deitado junto dela, eu não quis dormir e, levantando-me, subi à parte de cima da cama para chegar a uma malga que continha gordura de aplicar no cabelo – conforme era uso da terra – e, por ter visto alguém fazê-lo, principiei também a aplicá-la nos meus cabelos. Minha mãe deu por isso, falou-me e eu assustei-me. Com o susto, deitei a malga ao chão, caí em cima dela e feri-me muito no rosto.
Foi preciso recorrer imediatamente ao médico que, vendo o meu estado, recusou-se a tratar-me, julgando-se incapaz.
Minha mãe levou-me a Viatodos, a um farmacêutico de grande fama, que me tratou, embora com muito custo, porque foi preciso coser a cara por três vezes e levou bastante tempo a cicatrizar a ferida. O sofrimento foi doloroso.
Ah, se desta idade soubesse já aproveitar-me dele!... Mas não.
Depois de um curativo, fiquei muito zangada com o farmacêutico; este ofereceu-me alguns biscoitos e vinho, que depois de amolecidos no vinho queria que os comesse. Eu tinha fome e, às vezes, até chegava a chorar porque não podia mexer os queixos. Não aceitei a oferta e ainda maltratei o farmacêutico.
Ora aqui está a minha primeira maldade.

Por causa deste ferimento, a Alexandrina ficou sempre com uma marca ao lado da boca.
A minha terra é pegada a Viatodos e por isso eu sei várias coisas sobre o farmacêutico de que a Alexandrina falou. A farmácia ficava no rés-do-chão dum óptimo palacete que ele mandou construir poucos anos antes de ela lá ir. Ainda conheci essa casa. Depois, ela foi comprada por um brasileiro que a restaurou radicalmente. Mais tarde, sofreu um incêndio. Hoje ainda existe, mas é muito diferente da original.
O farmacêutico era o Sr. Oliveira. Um dia enviuvou e casou com uma familiar dum médico que foi presidente da Câmara da Póvoa e médico da Alexandrina, o Dr. Abílio Garcia de Carvalho.

Escudete do portal fronho da casa dos avós da Alexandrina.

Maria-rapaz, mas briosa
Era viva e tão viva que até me chamavam maria-rapaz. Dominava as companheiras da minha idade e até as mais velhas do que eu. Trepava às árvores, aos muros e até preferia estes para caminhar em vez das estradas.
Gostava muito de trabalhar: arrumava a casa, acarretava a lenha e fazia outros serviços caseiros. Tinha gosto que o trabalho fosse bem feito e gostava de andar asseadinha. Também lavava roupa e, quando mais não tinha, era o meu aventalinho que trazia à cinta. Quando não sabiam de mim, era quase certo encontrarem-me a lavar num ribeiro que corria perto de casa.

A Alexandrina era uma pequena saudável e activa.
O ribeiro ainda não saiu do sítio, está ali.

A brincadeira da égua
Um dia, fui com a minha irmã e uma prima apascentar o gado, entre ele uma égua. A certa altura, a égua fugia para o lado do campo que estava cultivado e, como a fosse tornar, ela atirou-me ao chão, dando-me com a cabeça, e depois colocou-se sobre mim; de vez em quando raspava-me o peito com uma pata sobre o meu coração, como quem brinca. Levantava-se, relinchava e voltava a fazer o mesmo. Fez assim algumas vezes, mas não me magoou.
As minhas companheiras gritaram e acudiram várias pessoas que ficaram admiradas de eu sair ilesa da brincadeira do animal.

A égua podia ser da casa Machado ou da Torres. As casas ricas tinham charrete para as deslocações.

A chuva de flores
Tinha eu 6 anos quando, de noite, me entretinha, por muito tempo, a ver cair sobre mim inúmeras pétalas de flores de todas as cores, parecendo chuva miudinha. Isto repetiu-se várias vezes. Eu via cair estas pétalas, mas não compreendia; talvez fosse Jesus a convidar-me à contemplação das suas grandezas.

Isto se calhar isto era apenas sonho, mas é poético e talvez premonitório: um dia Jesus vai-lhe dizer que pretende fazer nela “grandes cosias”. Seria o que lhe estava a anunciar desde muito longe.
É ela vai para a Póvoa quando tem quase sete anos e, quando volta, tem oito, e passa a morar no Calvário.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Genealogia da Beata Alexandrina


uma vez aqui nos referimos à genealogia da Beata Alexandrina, seguindo informação de Mário Joaquim Nogueira de Azevedo.
Este genealogista, que descendia da Casa de Além, em Além, Balasar, colocou em linha a sua árvore genealógica onde se encontra a da Beata Alexandrina (procure-se Beata Alexandrina).
Apurou este autor que é possível recuar nos antepassados dela até ao morgado Pedro Carneiro da Grã. Mas depois pode-se recuar até ao abade Manuel Gonçalves, pai de Margarida Álvares.
Até ao morgado, é assim:
O Morgado Pedro Carneiro da Grã – Pai de – Maria da Costa Carneira – Mãe de – Maria da Costa Carneira – Mãe de – Tereza Maria da Costa Carneira – Mãe de – Custódio da Costa Baeta – Pai de – António José da Costa Baeta – Pai de – Joaquina Maria de Freitas da Silva – Mãe de – José António da Costa – Pai de – Maria Ana da Costa – Mãe de  - Alexandrina Maria da Costa (Beata Alexandrina).
Na biografia da Wikipédia, Pedro Carneiro da Grã já aparece como antepassado da Beata.
Coloca-se abaixo um fragmento dum documento de Pedro Carneiro da Grã, cidadão da cidade do Porto, mas morador na Quinta de Balasar, que é uma doação que faz, em 1668, a seu filho Manuel Carneiro.