quarta-feira, 31 de outubro de 2012

De Balasar a Rates


Há alguns meses fizemos umas leituras sobre a Igreja românica de S. Pedro de Rates que nos impressionaram, sobretudo o que se refere ao tímpano do portal principal desta igreja.

Às vezes parece que há a ideia de que na Idade Média as pessoas eram todas cristãos praticantes e exemplares. Mas o nosso rei D. Afonso Henriques teve vários filhos fora do casamento, D. Sancho I a mesma coisa, D. Afonso III foi muito pior, D. Dinis foi também muito fraco marido. Se abrirmos o chamado Cancioneiro da Biblioteca Nacional, que é um livro muito grande e com poesia dos séculos XII, XIII e XIV, por cada cantiga decente que lá se encontra deve haver meia dúzia delas obscenas, ou mais. Nas Inquirições há comuns informações de roubos e às vezes de assassínios.
De facto, chegou-nos muita notícia de maldades que então se cometiam.
Ora o tímpano da Igreja de S. Pedro de Rates, que datará de cerca de 1220, parece um programa de ataque a este estado de coisas.
Ao centro, vê-se Cristo em Majestade ou o Pantocrátor, Cristo vencedor, ladeado pelos apóstolos S. Pedro e S. Paulo, o primeiro papa e o primeiro grande propagador do Cristianismo. Sob os pés de Cristo e dos apóstolos jazem dois homens, que os entendidos identificam como Ario e Judas. Ario foi um heresiarca e a sua heresia vigorou algum tempo na Península, sob os suevos. Judas representa o judaísmo, que pode ter tido relevância no período visigótico.
Ora, segundo os mesmos especialistas da história da arte, a imagem de Cristo em majestade apresentá-lo-á de acordo com estas palavras de um salmo: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita enquanto eu ponho os teus inimigos sob o escabelo dos teus pés”. Deus Pai promete a Cristo colocar-lhe os inimigos sob os pés, isto é, derrotá-los.
A mensagem é clara, a vitória de Cristo no passado sobre Ario e Judas garante a sua vitória no presente e no futuro.
Em capitéis do mesmo portal, representa-se o Tetramorfo, isto é, os símbolos dos Evangelistas, o que indica que essa vitória passa pelo Evangelho, pela sua divulgação.
Não está aqui, ao menos directamente, uma mensagem guerreira, de luta pelas armas contra os mouros, embora possa incluí-la, mas é antes uma mensagem para dentro das comunidades cristãs, para irem às fontes genuínas.
No tímpano da chamada porta sul, representa-se o Agnus Dei, o “Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”, do Evangelho de S. João, e o mesmo Cordeiro do Apocalipse, em cujo sangue os redimidos lavaram as suas vestes. E também aí terá estado representado o Tetramorfo.
Este segundo tímpano continua a mensagem do da porta principal, a do regresso ao Evangelho.
Sabemos que, apesar desta espécie de manifesto de luta, ali em Rates se desenvolveu a lenda de S. Pedro de Rates, a que andou associada a de S. Félix. E a lenda de S. Pedro de Rates teve um apêndice em Balasar. Em Bagunte, parece ser sobre uma lenda que se criou a ermida da Senhora das Neves, em S. Clara de Vila do Conde houve a Lenda da Berengária e outras.
É mais difícil estar com os Evangelhos, de um tempo e uma cultura distantes, do que com uma piedosa lenda do nosso lugar.
Esta mensagem, em imagens tão toscas, trazida pelos monges franceses de Cluny, é surpreendentemente actual, convidando os cristãos a seguir o caminho da verdade evangélica, na certeza de que a vitória os espera.
Muito curioso é tudo isto.
Ouçam-se estas palavras de um crítico de arte sobre o tímpano que serviu de ponto de partida para esta reflexão:
Talvez o mais interessante dos tímpanos portugueses seja o de S. Pedro de Rates, mosteiro de refundação beneditina do séc. XII que teve uma importância primordial na difusão artística da Ordem no Norte de Portugal, bem como um papel decisivo na “normalização” teológica e litúrgica empreendida pelos Beneditinos cluniacenses no novo reino peninsular, facto que ajuda a explicar o tema do tímpano do seu portal principal.
Jorge Rodrigues, História da Arte Portuguesa, direcção de Paulo Pereira, vol. I, páginas 268-269.
A Alexandrina conheceu certamente a Igreja de S. Pedro de Rates (Rates confronta com Balasar), que foi restaurada em finais dos anos de 1930, em tempo dela portanto, quando a paroquiava o P.e Arnaldo Moreira, que era bom músico e que ensaiou frequentemente o coro de Balasar.
Algumas vezes o órgão de Rates foi trazido por uma mulher, à cabeça, para tocar em Balasar.
Em fins de Outubro ou começos de Novembro de 1938, Salazar foi a Rates ver as obras do restauro.

Imagens a partir de cima: Igreja românica de S. Pedro de Rates, tímpano do portal principal da mesma e tímpano do portal sul.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pagelas 4


Uma pagela poliglota

Esta é uma das pagelas mais antigas: com o mesmo texto, embora com alguma variação na imagem, foi editada quando a Alexandrina era ainda Serva de Deus, depois quando já era Venerável e por fim já Beata.
O primeiro Nihil obstat tem a assinatura de Molho de Faria e data de 1965, de quando o P.e Humberto já preparava o Processo Informativo Diocesano. Foi sem dúvida este que a preparou e conseguiu as traduções para italiano, espanhol, francês, inglês e alemão.
Houve tempo em que era disponibilizada com uma pequena relíquia.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Pagelas 3


Na Beatificação

Esta pagela, desdobrável, em três colunas, do Secretariado da Beatificação, é bastante cuidada, contém com muita informação e três ilustrações. Mas é negativo que nenhuma das duas fotografias da agora beata a mostre na cama e que ela seja chamada Alexandrina de Balasar.
Coloca-se a seguir um texto do antigo abade de Singeverga, D. Gabriel de Sousa, que frequentou a casa da Alexandrina. Dispusemo-lo em verso, como tínhamos feito para a pagela:

Uma flor que não seca

Às vezes, de visita a lugares célebres,
trago entre as folhas do canhenho
a pétala duma flor;
ela seca, perde o aroma,
e só fica a valorizá-la a data que se lhe inscreve.
Fui a Balasar um dia. Voltei uma segunda vez.
E também trouxe de lá,
entre as folhas do Livro de Horas de minha pobre vida,
uma pétala de lembrança.
Mas essa ainda não murchou,
ainda não perdeu o aroma:
a visão duma alma angelical,
através duns olhos de pureza,
como nesta derrancada terra se não encontram.
E, do Calvá­rio da Alexandrina Costa,
foi esta a dolorosa e ima­culada lembrança
que me ficou.

D. Gabriel de Sousa, abade de Singeverga

Clique sobre as imagens para as ver em tamanho maior.

domingo, 28 de outubro de 2012

Pagelas 2

Associação pela Conversão dos Pecadores

A pagela ao fundo, desdobrável em três e com destacável, tem aprovação de 1974, depois do fim do Processo Informativo; deve ter sido criação do P.e Humberto, que naquele ano fez uma comunicação ao II Congresso Eucarístico de Braga sobre "A Alexandrina e a Reparação". Além disso, este exemplar concreto remete para uma associação italiana.
A conversão dos pecadores era um dos temas primeiros da Alexandrina: tudo pelo amor de Deus e pela salvação das almas.
Pena foi que a associação proposta não vingasse.

Clique sobre as imagens para as aumentar.

sábado, 27 de outubro de 2012

Pagelas 1

A pagela mais antiga

Esta pagela, embora, pela ilustração, venha do tempo em que já havia capela-jazigo, tem a aprovação do Sr. Arcebispo Primaz D. António Bento Júnior e a data de Fevereiro de 1956; paroquiava ainda Balasar do P.e Leopoldino Mateus.
Deve ter saído antes de chegar do Brasil Uma Vítima da Eucaristia.
Foi por essa altura, ignoramos se antes se depois, que, em Roma, Pio XII declarou a D. António Martins Júnior que a Alexandrina era “uma jóia que o mundo não conheceu”.
Assim, faz mais sentido que, em 8 de Setembro de 1956, a beatificação já surgisse como uma meta muito assumida e divulgada num noticiário do P.e Leopoldino:
Há dias recebemos de Alvarães, Viana do castelo, a seguinte missiva:
"Senhor, enviamos em vale do correio 75 escudos, sendo 25 escudos para ser celebrada uma Missa e 50 para juntar para as despesas da beatificação da Alexandrina, em acção de graças por ter obtido de Nosso Senhor o benefício de aliviar de outros sofrimentos uma pessoa da família".

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Vida maravilhosa e prodigiosa é a tua, ó filha querida!


A abóbada do céu desceu sobre mim toda ela almofadada em algodão, a qual envolvia os anjos com instrumentos. Ouvia os seus hinos maravilhosos, não os compreendia bem, mas sei que eram a Jesus Sacramentado. Ouvi as palavras Corpus Domini Jesu Christi, senti que Jesus Se deu a mim e me prendeu mais e mais a Ele. Os anjos continuavam a cantar; por entre eles sobressaiu um canal fortíssimo directamente a mim, dele caíam chamas de fogo e muitas e muitas coisas, tudo entrava para mim. E então principiou Jesus a dizer-me assim:
- Este canal, minha filha, é do Coração da tua e minha Mãe Bendita: dele recebes o nosso amor na maior das abundâncias; dele recebes as nossas graças, virtudes e dons, riquezas divinas e tudo o que é do céu. Dele recebes vida para viveres, vida para dares às almas. É este o orvalho, o sangue que sentes cair sobre a humanidade. É uma mistura que faço das minhas riquezas, das minhas graças com a tua dor. És a nova redentora. Passo para ti tudo pelo canal da minha Bendita Mãe; és tu com Ela que salvas o mundo.
Não te entristeças, minha filha, por não me receberes na Eucaristia. Quanto mais fores humilhada e a minha divina causa combatida mais maravilhas, maiores prodígios opero em ti. A minha divina ciência tem sempre que dar-te e tu, minha pomba bela, tens sempre que oferecer. Já que é sem igual a tua dor, o teu martírio, é sem igual o meu amor, as minha maravilhas em ti. São luzes confusas para aqueles que as não quiseram ver claras. Vida maravilhosa e prodigiosa é a tua, ó filha querida! Tu és orvalho que fecunda e dá vida. Tu és de Jesus, tu és das almas. És a bolinha de Jesus, és a bolinha dos meus entretimentos, dos meus encantos, assim como és a bolinha de encantos atraentes para os pecadores. És de Jesus e és deles. És vítima que amas e encantas o céu, és vítima que dás a vida momento a momento pela humanidade. Recebe toda esta vida divina, dá-a ao mundo faminto, dá-a ao mundo em perigo. A ti o entreguei, a ti o confiei. Tenho eu, Jesus, toda a confiança em ti. Confio tanto quanto tu me amas, quanto amas as almas. És rica comigo, comigo as salvas, comigo e minha Bendita Mãe. Vai, minha jardineira, para a minha agricultura. Vai dar, vai distribuir.

A expressão Corpus Domini Jesu Christi significa Corpo do Senhor Jesus Cristo. Mas é diferente da que os sacerdotes usavam, que era Corpus Domini nostri Jesu Christi, Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Embora a Alexandrina não soubesse latim, ela notava a diferença - que se justificava por não ser um sacerdote ou um anjo a dar-lhe a Comunhão, mas o próprio Senhor Jesus Cristo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Ainda a Via-Sacra


O P.e Humberto criou a Via-Sacra a partir de A Paixão de Jesus em Alexandrina Maria da Costa. Ela, e também o livro, foram um êxito: traduzidos ambos para japonês, a Via-Sacra foi mesmo musicada e passada na Rádio Maria (possuímos uma gravação)
Quando este livro do P.e Humberto se esgotou, os Signoriles publicaram um semelhante com o título de Sofferenza Amata. Mais adiante, ou ainda os dois ou já só a D. Eugénia, redigiram também uma Via-Sacra. Encontrámo-la, por exemplo, em Mi Amasti fino all’Estremo. Recentemente a D. Eugénia refê-la: a versão que resultou foi a que pretendeu que fosse colocada na Casa do Calvário.
A Prof.ª Maria Rita publicou também uma Via-Sacra, mas conhecemos ainda mais duas publicações com trabalho do mesmo género: o do P.e Pier Luigi Cameroni em Sui Passi di Alexandrina e um outro em opúsculo independente.
Pela nossa parte, colocámos a Via-Sacra em Orar com a Beata Alexandrina, livrinho de que já se venderam em Balasar vários milhares de exemplares.
De facto a caminhada que leva ao Calvário está no coração das vivências místicas da Beata Alexandrina: quase todos, senão todos, os colóquios dos Sentimentos da Alma a evocam.

Imagens: ao cimo, pequenina publicação com a Via-Sacra criada pelo P.e Humberto; mais abaixo, refrão musicado da mesma Via-Sacra, de uma outra publicação; ao fundo, 14ª estação da Via-Sacra em japonês.