terça-feira, 16 de outubro de 2012

Uma atribulada festa em honra do Sagrado Coração de Jesus em 1911


A pressão republicana sobre a Igreja nos anos de 1911 e seguintes foi duríssima. Foram os anos em que a pequena Alexandrina estudou na Póvoa e depois regressou à sua Balasar. Não é abundante a informação que possuímos sobre o que se passou nesta freguesia e por isso paga a pena ver o que aconteceu com a festa do Sagrado Coração de Jesus no vizinho Outeiro Maior:

Outeiro, Vila do Conde, 2/8/1911

Realizou-se no domingo passado a festividade do Coração de Jesus, precedida de práticas preparatórias feitas pelo novel orador sagrado Adelino Anselmo de Matos, pároco de Curvos, Esposende, que muito agradou e tirou abundante fruto, não obstante ter sido chamado à última hora.
De manhã houve comunhão geral, distribuindo-se o Pão dos Anjos a umas trezentas pessoas.
De tarde realizou-se uma procissão em honra do SS. Sacramento, promovida por um grupo de devotos e que este ano quiseram cooperar com a Associação do Coração de Jesus, revestindo a festa mais solenidade em virtude de se ter levantado um novo e lindo cruzeiro oferecido à freguesia por um grupo de briosos rapazes que daqui foram para o Brasil e que, entregues ao labutar constante da vida, não se esqueceram da sua terra natal nem da sua fé.
À frente da procissão ia uma bandeira que, pela sua frente, em puro veludo de sedas, ostenta os emblemas do Coração de Jesus, circundados por um ramo a ouro, entrelaçado por uma fita a matiz, rematando tudo em uma espécie de dossel, que produz um efeito surpreendente. Do lado oposto, encontra-se, também bordado a ouro, o emblema JHS, tendo ao fundo um ramo a matiz de belo gosto, e ao cimo a palavra “particular”, em semicírculo.
Como que a pôr um embargo à alegria que todos sentiam no meio de tão linda e religiosa festividade, por ser a única que agrada e consola o coração do verdadeiro cristão e está no ânimo de todos os habitantes desta freguesia, apareceu um ofício do cidadão Administrador do Concelho de Vila do Conde, com a nota de “urgente”, que ao conhecer-se produziu o efeito de um frigidíssimo duche. Dizia assim:

Tendo conhecimento de que nessa freguesia se costuma anualmente fazer umas práticas e confissões, sob a denominação de Coração de Jesus, tenho a dizer-lhe que tais práticas são proibidas e punidas por lei. Queira pois não consentir e participar-me, caso não sejam acatadas as minhas ordens.
Saúde fraternidade.
Ao cidadão regedor da freguesia de Outeiro.
Vila do Conde, 27 de Julho de 1911.
O Administrador do Concelho – Luís da Silva Neves.

Está claro que se a autoridade da freguesia – o Sr. António Gonçalves de Azevedo – não fosse um cavalheiro prudente, um católico prático a quem agradam sobremaneira os actos da nossa santa religião, na qual se esmera por educar toda a sua família, este ofício viria privar este bom povo da sua querida festa, contristando-o e talvez exaltando-o. Felizmente tudo se fez sem o mais pequeno incidente e no meio da mais franca alegria. – P. A.

(Informação saída no jornal O Poveiro, da Póvoa de Varzim, em 10/8/1911)

De notar que a notícia refere a Associação do Coração de Jesus, que também se conhece em Balasar e poderia existir na generalidade das freguesias

Na imagem, cruzeiro do Outeiro Maior, de que a notícia faz menção e que pode ter sido obra de artista que participou na construção da Igreja de Balasar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a Alexandrina


Em finais do séc. XIX a Póvoa decidiu avançar para a construção da Basílica do Sagrado Coração de Jesus: era um grande empreendimento que supunha uma profunda devoção.
“Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unico”. A redenção é a suprema obra do Amor e é deste amor que fala o Coração de Jesus.
Depois de sabermos que no Arquivo de Vila do Conde se conservam os arrolamentos dos bens paroquiais feitos pelos republicanos, quisemos verificar que sinais havia dessa devoção nas igrejas do concelho a norte do Ave, que se integram na Arquidiocese de Braga e portanto no arciprestado da Alexandrina. O testemunho é convincente.
As freguesias são dez. Seis tinham altares do Sagrado Coração de Jesus, três tinham só a sua imagem no Altar da Almas e apenas o inventário duma, Parada, não menciona mesmo a imagem.
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não era antiga: em Portugal popularizou-se apenas no séc. XIX. Mas apesar de ter sido um século de hostilidade à Igreja, ela impôs-se. E para isso há-de ter dado contributo decisivo a revista jesuíta o Mensageiro do Coração de Jesus.  
A Beata Alexandrina pertenceu à associação do Sagrado Coração de Jesus de Balasar, foi por altura dum tríduo em honra do Sagrado Coração, pregado pelo P.e Mariano Pinho na freguesia, que este conheceu a Alexandrina, as primeiras palavras de Jesus sobre a Consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria evocam Santa Margarida…
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus está no cerne da mensagem da Beata Alexandrina e Jesus pediu-lhe que a espalhasse.

Na imagem, conjunto escultórico da Igreja de Bagunte, vizinha de Balasar: o Sagrado Coração de Jesus e S. Margarida Maria Alacoque.

sábado, 13 de outubro de 2012

Directo de Balasar

Acompanhe aqui os eventos da Festa da Beata Alexandrina.

Estivemos de tarde em Balasar. O movimento que vimos e que a fotografia abaixo documenta fazem crer que na Missa da Festa a igreja vá registar uma grande enchente. Idos dos lados da Póvoa, alguns grupos de peregrinos dirigiam-se a pé para Balasar.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Amanhã, dia da Festa da Beata Alexandrina


Ó Trindade Santíssima,
adoro-Vos e agradeço-Vos
Porque nos destes o exemplo da Beata Alexandrina,
Gota puríssima do Vosso amor.
Peço-Vos que me ajudeis a imitá-la
No seu amor autêntico à Eucaristia;
Que eu me consuma num anseio sempre mais ardente
De me dedicar a Vós e aos irmãos.
Suplico-Vos humildemente que a glorifiqueis com a Canonização
E que me concedais, pela sua intercessão,
A graça que ardentemente Vos peço (enunciar o pedido)...

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,
como era no princípio, agora e sempre! Ámen!

Maria, nosso auxílio, rogai por nós!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O MARTÍRIO DOS ÚLTIMOS DEZ ANOS (3)


A última fase

Acabadas as fontes directas, as Cartas ao P.e Pinho e o Diário, atenhamo-nos às outras fontes: C G (Cristo Gesù in Alexandrina), NoC (No Calvário de Balasar).
Sobre os sofrimentos, temos duas cartas do Dr. Azevedo ao P.e Pinho. Uma é de 10 de Janeiro de 55:
A Alexandrina está prostrada como nunca. Está a chegar ao cimo do seu calvário... Parece que tudo tem evo­lucionado nesse sentido. (NoC, p. 299 port.)

A outra, de 17 de Outubro de 55, quatro dias depois da morte.
As do­res eram nos últimos meses horríveis.
Ultimamente estava a sofrer imenso, e parece-me que a sua doença, as suas dores eram de origem sobrenatural, daquela origem a que se refere Henri Bon, quan­do fala das enfermidades sobrenaturais. (NoC, pp. 298-299, port.)

E uma carta, ao P.e Humberto, da médica Dra. Irene de Azevedo, filha do Dr. Azevedo (querida amiga que muitas vezes tinha escrito, em substituição da Deolinda, o que a Alexandrina ditava para os seus diários); eis algumas linhas:
Tinha-se a sensação de que naquele quarto de dor acontecia algo de tremendamente grande e misterioso: tinham chegado os últimos momentos duma vítima à qual tinha sido pedida uma grande reparação.
Junto dela, tentava dar-lhe um pouco de consolo molhando-lhe os lábios secos.
Não ousava quase falar com o temor de lhe aumentar o sofrimento.
(...) Pedia com insistência a Deus que a levasse depressa para o Céu: única oração digna dela. (...) Que expressão tinha! Santa resignação à vontade de Deus, mas sofrimento de aterrorizar, e tal que uma alma pode suportar naquele modo só com uma graça e uma ajuda grande do Senhor.
Desde então faço uma ideia do que terá sido a Paixão e Morte do Senhor. (...) Contemplando o seu vulto dolorosíssimo, parecia-me ouvir a frase de Jesus: “Pai, porque me abandonaste?”
Tudo estava consumado. (C G, p. 694)

Em Setembro, a mártir Alexandrina teve a generosidade de permitir à Deolinda participar durante três dias num retiro espiritual em Fátima. Foi um esforço heróico, porque só a Deolinda sabia acudir-lhe do modo melhor nestes últimos tempos de dores atrozes.
A Alexandrina, que se sentia já próxima do fim, queria dar à Deolinda, com tal infusão de espiritualidade, a força para suportar o grande golpe. (C G p. 691)

No princípio do “seu” mês, ouve o anúncio da partida.
Hoje, 2 de Outubro, dia dos Santos Anjos, senti que me tocaram num ombro e ouvi cantar os Anjos. Perguntei:
— Quem cantará com os Anjos?
Nosso Senhor respondeu:
— Tu, tu, tu, em bre­ve, em breve, em breve. (NoC, p. 299, port.)

Em 1965 Deolinda contou ao P.e Humberto o que se segue:
Aconteceu, se não erro, em 7 de Outubro de 1955. Havendo trabalhos em casa, eu tive de vigiar os pedreiros. A minha irmã chamou-me para me dizer:
- Deolinda, tu foges-me!
Respondi-lhe: - Vou e volto já!
Sentei-me junto dela, que já se ouvia com dificuldade, e entregou-me o dinheiro destinado às missões e o saquinho do dinheiro para a casa.
Como é natural, fiquei impressionadíssima, porque a Alexandrina tinha administrado sempre os nossos pobres haveres, como também o dinheiro para as obras de caridade. (C G, p. 691, nota 17)


O dia 12

Às duas da noite a Alexandrina diz à Deolinda que a assiste:
Vou contar-te uma coisa que nunca te disse nunca para não te afligires.
Foi o seguinte: no dia um de Fevereiro, logo de manhã, ouvi uma voz:
- Faz um acto de resignação à vinda do teu Paizinho. (…)
Não to ditei para não to fazer saber. (C G, p. 691)
Depois acrescentou:
Logo que seja dia, farás três telefonemas.
1. - À menina Irene Gomes, para lhe pedir que acompanhe a casa a mãe com toda a sua roupa; que volte definitivamente, porque eu vou morrer (a mãe estava no mar a fazer uma cura).
2. - Ao P.e Alberto Gomes (o confessor), por um dever de gratidão da minha parte e, se mo consentir, para repetir publicamente o acto de renúncia à vinda do P.e Pinho.
Entretanto avisarás o tio Joaquim que vá a chamar o Dr. Azevedo.
3. - À Sra. Ana Pimenta (amiga e benfeitora, que tinha manifestado o desejo de assistir à morte da Alexandrina).

Durante a manhã disse várias vezes:
- Eu queria o Céu.
Não tenho peninha nenhuma de deixar a Terra.
Acabaram todas as trevas da alma (...)
É sol. É vida. É tudo. É Deus!
A Deolinda a um certo ponto perguntou-lhe:
- Queres alguma coisa?
- O Céu, porque na terra não se pode estar.
Eu queria receber o Sacramento dos Enfermos, enquanto estou lúcida.

Numa iluminação sobre o futuro, exclama:
- Um dia, vai ser muito bonito aqui!
Ó Jesus, seja feita a vossa vontade, não a minha!

Pelas 15 do mesmo dia, na presença do confessor, do Dr. Azevedo, dos familiares e de alguns entre os mais íntimos, fez o acto de aceitação da morte.
Registemos o relato feito pelo sacerdote que a assistiu no momento da morte, Mons. Mendes do Carmo.
Quando naquelo quarto-calvário esteve tudo preparado, fez espontaneamente o seu Acto de Resignação diante de todos.
Ó Jesus Amor, ó divino Esposo da alma minha, eu, que na vida sempre procurei dar-Vos a maior glória, quero, na hora da minha morte, fazer-Vos um acto de resignação à vinda do meu Paizinho Espiritual; e assim, meu amado Jesus, se com este Acto dou maior glória à Santíssima Trindade, submeto-me jubilosamente aos vossos eternos desígnios... só para implorar da Vossa misericórdia o Vosso Reino de amor, a conversão dos pecadores, a salvação dos moribundos e a libertação das almas do Purgatório.
Meu Deus, como Vos consagrei sempre a minha vida, Vos ofereço agora o fim dela, aceitando resignada a morte acompanhada das as circunstâncias que Vos derem maior glória.

Depois, com voz clara, pediu perdão, agradeceu e perdoou a todos...
Recebeu depois, de modo angélico, o Sacramento que purifica de todos os vestígios de culpas e imperfeições.
O quarto encheu-se de soluços e a Alexandrina, moribunda, disse:
- Não choreis, porque vou para o Céu.
E repetiu:
- Não choreis, porque eu vou para o Céu! (C G, p.824)

Eis algumas frases que disse a intervalos:
- Ai Jesus, não posso ficar mais na terra.
Ai Jesus, a vida custa; o Céu custa!
Sofri tudo nesta vida pelas almas. Espremi-me nesta cama até a dar o meu sangue pelas almas.
Perdoo a todos... Foram tormentos para o meu bem.
Ai Jesus, perdoai ao mundo inteiro!...
Agradeço àqueles que me fizeram bem; rezarei por eles no Céu.
Estou tão contente por ir para o Céu! (sorrindo e olhando para o alto).

Ao médico que à tarde a saudava antes de a deixar, disse:
Que claridade, que luz! É tudo luz (sorrindo).
As trevas desapareceram. (C G, pp. 692-693)


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Um postal

Recebemos hoje um postal antigo italiano em cuja frente vem uma fotografia da Beata Alexandrina. No verso diz, traduzido:
ALEXANDRINA M. DA COSTA
Cooperadora Salesiana e Lâmpada Viva
Palavras de Jesus:
"Fala às almas;
fala-lhes do Rosário e da Eucaristia.
Rosário, Rosário, Rosário!
Eucaristia: o meu Corpo, o meu Sangue!"
(29-10-1954)



Frente do Postal 

O MARTÍRIO DOS ÚLTIMOS DEZ ANOS (2)


Sofrimentos espirituais

Os sofrimentos espirituais podem-se catalogar em dois tipos: as lutas contra Satanás, sem mais agressões do corpo, desde o fim do 1937, e as tentações contra a fé, que são também provocadas por Satanás.

LUTAS ESPIRITUAIS CONTRA SATANÁS

Ao meu lado estava o demónio encadeado. Queria chegar a mim. Eu via que ele não conseguia, mas sentia como se despedaçasse o meu corpo com mordeduras. Os insultos eram tantos. Dizia-me:
Maldita, hás-de pecar, hei-de te levar ao desespero. S (20-12-46)

Satanás insiste no fazê-la padecer o temor de enganar sobre os seus fenómenos místicos e de pecar por vaidade ao escrever.
O demónio diz-me que os meus combates sou eu que os invento para ter que escrever!
Meu Jesus, queria amar-Vos, mas não queria ter de escrever! Bem sabeis que é ele e não eu. S (21-8-45)

- Tu consegues com as tuas falsidade enganar quase toda a gente: hás-de condenar-te!
E na verdade, naqueles momentos, sentia-me falsa, enganadora, maliciosa. S (20-12-46)

Mas a nota mais insistente é a da luxúria.

Há dias que sinto o meu corpo é uma casa aberta de entrada para quem quer.
Sofri muito com esta novo sofrimento! (...)
O demónio, mais enraivecido, veio como um ladrão e senti como se ele me levasse o coração.
- É meu – disse-me – vamos pecar! - E cobriu-me de insultos. - E com o teu coração nas minhas mãos faço-te pecar quando quero.
Então, muito mais ao vivo, senti de ser essa morada que acima falei. Nela entravam quantos queriam. Eu era a casa do pecado, e o próprio pecado: estava disposta para tudo. Meu Deus, que horror, tantos pecados, tantos crimes!
Lutei muito e o demónio mostrava-se contentíssimo, por fazer de mim tudo quanto queria.
Disse a Jesus muitas vezes que era a sua vítima e que não queria pecar. S (23-7-45)

Foram quatro os combates que tive com o demónio; foram combates do inferno!
Tinha mãos para tudo, menos me benzer e afastar da mim o maldito. O corpo era num banho de suor, o coração uma máquina estrondosa.
Sim, eu conseguia chamar por Jesus e pela bendita Mãezinha. Mas o que eu não conseguia, ou me pareceu, foi chamá-los a tempo.
Eu gostava de ser cega e surda para não ver nem ouvir os ensinamentos do maldito e para não me aterrorizar com o que ele dizia contra Jesus.
Mas, se assim fosse, não poderia combater nem sofrer, não poderia ser vítima do meu Senhor. S (7-11-47)

O demónio atormentou-me com a sua força e malícia diabólica.
Nos primeiros três ataques atormentou-me em forma de homem, mas introduziu em mim toda a malícia humana. Que horror! 
Eu pecava em todos os pontos e sentidos. E ele, muito descansado, deitava ao mundo o seu olhar infernal e deixava tudo cheio da sua malícia. 
Se eu soubesse dizer o veneno que ele infundia nas almas!
Que horror! Oh, como se peca! S (11-10-46)

Às vezes Jesus faz-lhe compreender por que categorias está a reparar.
Nosso Senhor fez-me compreender, pelos sentimentos e visões da alma, por quem me pedia a reparação.
Os primeiros dois ataques foram pelos pecados durante os bailes e divertimentos mundanos: quanta indecência, quanta maldade e crimes escandalosos praticados descaradamente!
Os três a seguir foram pelos sacerdotes. Ó meu Jesus, quanto se deve pedir por eles! São do mesmo barro que nós somos, coitadinhos! Estão sujeitos a grandes quedas. S (9-7-48)

Jesus conforta-a, encoraja-a a continuar, afirmando que com tal reparação salva almas.
É esse o desespero do demónio, é a razão por que ele tenta devorar-te: ele sabe bem quantas almas que lhe tens arrancado. S (14-9-51)

- O demónio tem sobre ti toda a sua raiva infernal. É grande o estrago que lhe dás: fazes mais mal à sua obra satânica pelo teu sofrimento do que todo o bem que na humanidade se faz.
Está raivoso, raivoso. Serve-se de tudo. Serve-se dos homens para a minha Causa destruir. Nunca, nunca seus infernais intentos se satisfazem.
Sofre tudo, minha filha, sofre toda a tua indizível dor e tormento.
Repara-Me, repara-Me por todos os sacrilégios e por todas as confissões nulas.
- Jesus, eu amo-Vos: sou a vossa vítima! S (19-3-54)

TENTAÇÕES CONTRA A FÉ

Pareceu-me que desceu uma nuvem sobre mim, negra, negra, assustadora. Envolveu-me toda nela.
Tudo é noite, da Terra ao Céu.
Debaixo de mim, está cruz e espinhos; à minha volta cercam-me cruzes e espinhos; sobre mim, cruzes e espinhos. Tudo é noite, tudo são cruzes, tudo são espinhos, dor e sangue: morte no mundo e morte na eternidade. S (29-3-45)

Sinto-me como que só eu e a dor vivêssemos no mundo. Sinto fugirem-me todos; senti fugir-me Jesus.
Tenho por companhia a dor, por habitação as trevas. Tudo o que nasceu a elas vem morrer. Horrível cegueira, trevas assustadoras! S (3-5-46)

Eu creio, eu creio que sois o meu Jesus, creio mesmo em trevas e em dor: não permitais que eu duvide! Não quero desagradar-Vos. S (22-7-49)

Quantas dores, quantos suspiros escondidos e abafados!
Estou sob o mundo e é este mesmo mundo que abafa os meus suspiros e esconde as minhas dores.
Nenhum brado dos meus chega ao Céu: não se escuta lá nenhum gemido, não se vê uma só lágrima.
Que abandono, meu Jesus, que abandono! S (27-7-51)

Parece-me que tenho tentações e desesperos contra mim mesma. Minto a todos e minto a mim.
Tenho tentações contra a fé: parece que me quero convencer que depois deste exílio tudo acaba, que nada adianta o sofrer.
Sinto sobre mim a raiva do demónio: está furioso contra mim. Parece que tenho fortes grades de ferro a separar-me dele (de facto Jesus não permite que a toque, desde o fim de 37). Mas a minha alma vê e sente que a sua forte dentadura morde nesses ferros como se fosse em mim. Crava-me os seus olhares desesperadores e raivosos. Ouço os seus uivos e desesperos. S (14-9-51)

Nesta imensidade tempestuosa em que só prevalece a inutilidade, minha alma conserva-se em paz, a não ser de longe a longe, uns momentos de agitação, dúvidas de toda a minha vida, tentações contra a fé que me levam quase que a cair no desespero.
Para que vim ao mundo? Para que serve tanto sofrer e uma vida pregada na cama?
Isto é sem que eu o queira. Sinto mesmo serem tentações do demónio, ser ele a querer roubar-me a paz. S (20-6-52)

Estou num mar tempestuoso. Não cesso de lutar com as ondas. Sinto-me cansada, sinto-me desfalecida com tanto lutar.
Quero apanhar a areia, ou qualquer coisa que me segure deveras e não encontro: tudo me falha.
Deixo-me ficar à mercê das ondas. S (15-1-54)

Continua a luta entre a vontade de crer e a tentação de não crer. É um sofrimento tremendo!
Creio, na dor ou na alegria, no abandono ou no conforto. Creio, na vida e na morte.
Sou vossa, Jesus, sou a vossa vítima! S (16-7-54)

Sinto que nada estou a fazer no mundo, depois de perder Jesus e a Mãezinha.
Desde que a eternidade não existe, uma tentação (do demónio) tenta persuadir-me: que estou eu a fazer aqui, sem gozar, sempre a sofrer? Para quê, para quê?
“Creio, Jesus, creio! Creio que existis.
Que me importa o sentimento da mentira (dizendo “creio”), se a verdade sois Vós, ó Senhor, sois Vós, e a eternidade sois Vós?”
Nesta luta desprezei todo o Horto (ao reviver a Paixão). Nada existe. Nada houve, nada há!
Assim subi para o Calvário, sem fé, sem acreditar na eternidade. E em tal tentação a querer suicidar-me a mim mesma!
Parecia-me que quereria liquidar a vida sem vida, fosse qual fosse o processo (também Jesus sofreu ataques demoníacos, não só no início, no deserto, mas mesmo no fim, no Horto).
Com que custo eu chamava por Jesus e a Mãezinha e Lhes repetia o meu “creio”!
Nas trevas da agonia e da morte, quis repeti-lo, e não pude.
Veio Jesus. Bradou-me alto e com doçura:
Minha filha, ó minha filha, a tua reparação é pelos sem fé, pelos sem Deus, pelos incrédulos. S (15-10-54)

Um mês depois Jesus reafirma-lhe que quer esta forma de reparação, com a tenaz profissão de fé. Mas dá-lhe também a sua ajuda.
Repete o teu “creio!”. Tens de viver da fé sem fé, do amor sem nenhum sentimento de amor.
Só quero de ti o teu “creio!”, a tua firmeza na cruz, a tua generosidade heróica, sempre heróica.
Vem repousar sobre o meu divino Coração. É repouso divino, é repouso confortante, é repouso de vida. S (19-11-54)

Mesmo enquanto revive a Paixão continua a luta. Eis uma descrição com um poder poético maravilhoso.
Creio, creio firmemente, repeti tantas vezes no cimo da montanha, espetada numa lança, mas tão em prumo que não pendia mais nem para um lado nem para o outro: ou Deus ou o demónio; ou a eternidade ou o nada.
Assim ferida, toda em sangue, caí da parte em que fui repetindo o meu “creio, creio firmemente!”
Creio, embora o meu sentimento seja todo mentiroso.
Veio Jesus, disse-me:
- Crê, minha filha, crê, minha esposa amada, crê, flor mimosa do Paraíso!
Crê que Eu existo, crê que estás na verdade, crê que toda a tua vida é a minha vida. Coragem, coragem! S (17-12-54)

Chegada ao último ano de exílio, intensifica-se ainda aquela luta tremenda.
- Ó Jesus, perdoai-me! Eu não tenho fé nem acredito em Vós. Ai de mim, quem poderá valer-me?
- Valho-te Eu, minha filha! Tu tens fé inflexível, mais firme que a rocha.
Repara pelos a que não têm, pelos que vivem sem Deus.
Confia, confia! As almas são salvas aos milhões, aos milhões. Sim, minha filha! S (25-3-55)

E assim vou caminhando sem mar nem terra, apenas com um sopro falso, que sempre me deixa precipitar nos abismos.
Valei-me, Jesus! Valei-me, Mãezinha! Confortai-me neste mundo de incertezas e dúvidas. Oh dor, oh dor, oh agonia e morte!...
Nesta luta dolorosa e, por assim dizer contínua, veio Jesus até a mim e falou-me:
- (...) Coragem, coragem! Tens fé, tens amor e dás-me tudo. (...)
Vai, vive da fé, repete o teu “creio!”. Sofre e ama, sofre e ama! S (1-4-55)

A minha alma sangra, toda sangra, está nas trevas.
Ai, meu Deus, falar da alma, falar do que tantas vezes me parece não ter! Quantas vezes uma voz me grita – é ela e o corpo também: “Agarra-te, agarra-te!” – mas nem um nem outro encontram a que se agarrar.
Agarra-te, agarra-te às trevas, à ignorância, à inutilidade, à morte!
É o que eu tenho, é o que eu encontro em mim.
Gritar, gritar bem forte ao Céu, ao Céu que não há, à eternidade que não existe! Ó meu Deus, é inútil todo o meu bradar. Estounuma grande agonia.
Eu quero, se Jesus o quer, estar aqui para a sua glória e para a salvação das almas. S (13-5-55)

Jesus a adverte-a de um ulterior aumento do martírio.
- Minha filha, não são os sentimentso de fé e consolação que me consolam, mas sim essa luta constante no auge da dor.
É a ultima fase, tremenda fase: o auge do sofrimento a enfrontar com o auge do pecado e do crime. O mundo peca, o mundo peca!
Tem coragem, tu que és luz e farol do mundo. Repara e faz que seja amado o meu divino Coração. Sustenta o braço da justiça de meu Pai, que teima cair sobre a terra. S (10-6-55)

Minha filha, sobe, sobe, coragem! (...) A tua fase, a última fase da tua vida não pode ser mais dolorosa. Mas assim é quando escolho uma alma para o mais alto grau de perfeição, de amor e de união comigo.
Confia: tu amas-Me e fazes-Me amado.
O teu Céu é perto! S (8-7-55)

Com uma firmeza heróica repete o seu “creio!”
Custe o que custar, sangre o que sangrar! Mesmo mentindo a mim mesma, hei-de repetir sempre: Creio em Deus, creio em todas as verdade eternas, creio que tenho uma alma filha do sangue de Deus! S (5-8-55)

Sempre a lutar, sempre a agarrr-me, a agarar-me sem ter a quê, cá vou eu de queda em queda, de abismo em abismo para abismos sem fim de trevas, de morte, de inutilidade.
E sem fé, meu Deus, sem fé!
Sempre vou repetindo no meu íntimo: Tudo por vosso amor, Jesus, e pelas almas! S (19-8-55)

E, por fim, no último diário, dita:
Numa angústia lancinante repeti os meus actos de fé:
Creio, Jesus, creio que foi para mim o vosso nascimento, a vossa morte, o vosso calvário.
Creio, Jesus, creio!
Os meus abismos são tão negros e profundos que só um Deus podia penetrar neles.
Foi assim que Jesus fez.
Desceu à minha profundeza, trouxe à superfície e iluminou o meu pobre ser com uns raiozinhos da sua luz:
- Vem cá, minha filha, luz e farol do mundo!
Tu que és treva inigualável, és luz que brilha, farol que tudo ilumina.
A treva é para ti, a luz é para as almas.
Vem cá, luz de quem Eu sou luz, farol de quem Eu sou farol!
Não posso Eu fazer-te brilhar com o Meu brilho?
Não posso Eu fazer que sejas farol como Eu sou farol?

No mesmo diário lê-se um último apelo aflito de Jesus:
- Deixa, minha filha, que Jesus grite pelos teus lábios:
“Ó Igreja, ó Igreja, aceita a voz do Senhor! Vigilância, vigilância!
Ó Igreja, minha querida Igreja, vela, vela, não durmas, não descanses!
Nunca o mundo pecou tanto. Nunca foi assim urgente tanta reparação.» (...)
Não Me disseste tantas vezes que no meu amor te querias consumir e desaparecer? Coragem, coragem! Tomei à letra tudo, tudo quanto Me disseste.
- Ó Jesus, olhai para a minha alma! Só Vós sabeis olhar para ela.
Atendei aos meus pedidos!
E o mundo, o mundo! Jesus, perdoai-lhe, que ele é vosso! S (2-9-55)

Com tão angustiada súplica, que explode dum coração a sangrar de dor e a arder de amor, se fecha o diário da nossa santa mártir.