segunda-feira, 30 de julho de 2012

Como o Senhor é grande!


Fragmento da entrevista dada pelo P.e Humberto ao P.e Ismael de Matos, em 1968, quando em Braga decorria o Processo Diocesano da Alexandrina. Foi publicada no livro O que dizem de Alexandrina.

Repetidas vezes o Senhor dissera à Alexandrina:
- Depois da tua morte, farei com que o teu nome e a tua vida, cheia de amor e de heroísmo, cheguem até aos últimos confins da terra.
Ora só com o afastamento de Portugal dos dois directores isto se pôde realizar lite­ralmente. O Rev. Padre Mariano Pinho, sem ter que enfrentar os obstáculos que se lhe teriam deparado na sua pátria, conseguiu publicar dois livros acerca da Ale­xandrina, um dos quais foi logo traduzido para francês e alemão.
Eu, através do “Boletim Salesiano”, redigido em língua italiana, com uma tiragem de mais de 300.000 exemplares que são enviados para todos os recantos da terra — pude divulgar a notícia da morte da Alexan­drina logo que a recebi e também umas breves palavras acerca da sua vida edificante. No ano seguinte, publi­quei, em italiano, uma biografia que, posteriormente, foi traduzida para português. E os boletins salesianos das várias nações espalharam pelo mundo a fama da Serva de Deus.
Uma religiosa da Congregação das Filhas de Maria Auxiliadora, que vive para lá da Cortina de Ferro — onde a imprensa católica é proibida, teve a paciência de traduzir e dactilografar a biografia para a fazer cir­cular em algumas das regiões submetidas ao domínio comunista.
Há meses chegou-me às mãos, vinda da Tailândia, uma versão da biografia na língua daquele país, ela­borada por um salesiano (P.e Rebesco). E sei que no Japão se procede a um trabalho idêntico.
Como o Senhor é grande! Não há forças humanas capazes de travar os Seus divinos desígnios.

domingo, 29 de julho de 2012

Quem estudou a Beata Alexandrina?

Quem primeiro estudou a Beata Alexandrina foi o P.e Mariano Pinho. Estudou-a para a poder dirigir, para saber que não trilhava caminho errado, para perceber o sentido de certos pedidos que Jesus fazia à Alexandrina e finalmente para sobre ela escrever Uma Vítima da Eucaristia e No Calvário de Balasar. São dois livros que resultam de uma demoradíssima reflexão e de grande sofrimento, nascido de incompreensões que levaram até ao seu exílio.
Que ele desde o princípio teve a percepção de que estava perante um caso singularíssimo deduz-se de ter guardado as cartas que a Alexandrina lhe dirigia e que se conservam. Também ela guardou as que dele recebeu, que foram oferecidas à causa, mas que se extraviaram. Se um dia aparecerem, serão uma grande ajuda para a “causa” do próprio P.e Mariano Pinho.
Estudou também a Alexandrina e entendeu-a esse sábio que foi o Mons. Vilar, como se constata pelas cartas que lhe enviou.
O P.e Humberto é outro grande estudioso dela. O sofrimento nascido da dedicação que lhe votou também lhe bateu rapidamente à porta, por exemplo, quando a defendeu das conclusões infundadas da comissão examinadora, quando foi obrigado a regressar a Itália, etc.
Mas há um momento importante, entre outros, em que este salesiano aprofundou aspectos do seu estudo: foi quando o chamaram para preparar o Processo Informativo Salesiano. Mergulhou então pela primeira vez na totalidade dos escritos da sua antiga dirigida e pôde conhecer as muitas testemunhas do processo e os seus testemunhos. Eis a Alexandrina reflecte isso.
O livro mais valioso do P.e Humberto sobre a Beata Alexandrina é Cristo Gesù in Alexandrina.
Como o P.e Pinho, também o P.e Humberto teve de aprofundar os conhecimentos sobre mística.
O Dr. Azevedo é às vezes esquecido como estudioso da Alexandrina, mas ele publicou muito sobre ela no Boletim de Graças e já antes tinha publicado em jornais, bem como enviado correspondência para muitos destinatários.
Também o P.e Leopoldino publicou vários artigos sobre ela na imprensa poveira.
Entre os Salesianos, houve mais três sacerdotes que dedicaram muitas atenções à Beata, o italiano e sábio P.e Calovi, que participou no Processo Informativo Diocesano e cumpriu a penosa tarefa de bater à máquina por quatro vezes os milhares de páginas dos escritos, o também italiano P.e Luigi Fiora e o P.e Gabriel Bosco (pseudónimo de Ismael de Matos).
Estudaram a Alexandrina, a pedido do P.e Humberto, os professores de Física e Matemática Chiaffredo Signorile e a sua esposa Eugénia. Aprenderam primeiro português, traduziram para italiano os Sentimentos da Alma e depois escreveram sobre ela. Figlia del Dolore Madre di Amore é um monumento à sua dedicação. Após a morte do Sr. Chiaffredo, a D. Eugénia continuou a escrever até hoje (apesar de se aproximar dos 100 anos), publicando, entre muitas outras, obras como Solo per Amore! e o volumoso La Gloria dell’Uomo dei dolori nel sorriso di Alexandrina.
Quem vem depois destes esforçados autores tem de começar por eles. Há muita coisa na biografia da Beata Alexandrina que obrigatoriamente esclarece o sentido dos seus escritos e o conhecimento disso só se alcança estudando.
Mas mais, há aspectos que nem estão acessíveis ao estudioso comum. Estamos a pensar numas “Notas” que o P.e Humberto possuía e de que não há cópia em Balasar (não havia pelo menos até há pouco tempo). Mas está também por escrever uma síntese sobre as doenças da Alexandrina, que permitiria perceber melhor o alcance, o percurso do sofrimento desta alma-vítima. Pela nossa parte temos vido a estudar a história de Balasar e em concreto a do tempo da Beata. A nada disto se chega pelo conhecimento geral da teologia, mas por uma morosa investigação.
Sabemos todos que houve muitas outras pessoas que estudaram a Beata de Balasar, mas as mais delas trouxeram pouco de novo, como é normal. O seu objectivo era mais a divulgação.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O antigo Sítio Oficial da Beata Alexandrina

O antigo Sítio Oficial da Beata Alexandrina, hoje Sítio dos Amigos da Beata Alexandrina, contém um vastíssimo repositório de informação: biografias da Beata, grande parte da obra dela (segundo o texto oficial, isto é, aquele que foi enviado a Roma para apreciação), estudos variados sobre ela, informação histórica, notícias, etc., etc. Além disso tem a particularidade de usar uma variedade de línguas muito significativa.
Este sítio ascendeu a oficial sob a supervisão do então Pároco de Balasar P.e José Granja, que nele colaborou. Aliás, merece uma olhadela a lista dos colaboradores, onde se conta o Sr. Arcebispo Primaz.
Foi no tempo em que ele era oficial que várias instituições, nomeadamente brasileiras, tomaram a Beata Alexandrina como patrona.
Um salesiano chegou a aventar que todos os outros sítios sobre a Beata Alexandrina deveriam ser apagados, para ficar só ele, o oficial, dada a sua grande abertura. Obra notável!
Ao seu lado, houve - e há - um outro, que poderíamos chamar gémeo, o do P.e Mariano Pinho. Também aí foi colocada informação diversificada.
Sobre a Beata Alexandrina, deve-se conhecer também o lugar que lhe cabe no site salesiano.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Um documento histórico de Balasar

Em 1542, Balasar fez tombo paroquial. Como o pároco era também abade de Gondifelos e (Santa Marinha de) Vicente, o tombo é de Balasar, Gresufes, Gondifelos e Vicente[1].
Na altura de se constituírem as paróquias, os nobres do tempo hão-de ter tido o cuidado de dotarem os párocos de rendimentos que lhes permitissem viver sem dificuldades de maior: as pessoas comuns seriam tão pobres que pouco poderiam contribuir para o seu sustento.
Tombo de Santa Obaya (Eulália) de Balasar e Gundifelos e Sam Salvador de Grisufe, enexa (anexa)


O Casal da Igreja de Balasar, que teria com certeza essa origem, era constituído por muitas propriedades, mas era só ele a pagar rendas ao pároco, os outros pagavam apenas o dízimo. Mas não era assim em Gresufes: aí, além do Casal da Igreja propriamente dito, de Gresufes, mais três casais que pagavam tais rendas, o de Vila Pouca, o de Além e ainda um terceiro de fora da freguesia, o Casal de Crujes, em Santa Marinha de Vicente. Era muita renda!
Pelo que percebemos, a antiga Igreja de S. Salvador de Gresufes deveria ficar perto donde muito mais tarde ficaria a casa onde nasceu a Alexandrina.
Em 1542, a Igreja de Balasar parece que já estava no Matinho. Aparentemente, o conjunto principal das propriedades da paróquia nunca estivera nem no Lousadelo nem no Casal, onde se havia construído as igrejas anteriores, mas ali no Matinho. Isso teria facilitado a localização da nova igreja, que precisava de ficar próxima de Gresufes.
Um aspecto interessante do Tombo de Balasar de 1542 é o registo dos limites da freguesia. É muito diferente do dos dois tombos da Comenda: começa no sítio certo, na delimitação de Balasar com Gondifelos. Fora ali que noutros tempos a freguesia mais estreitamente contactara com o exterior. Depois passa a S. Marinha de Vicente, hoje Gondifelos, a S. Veríssimo de Pedrafita, hoje lugar de Cavalões, a Vilarinho, Fradelos, S. Martinho do Outeiro, Bagunte, Arcos, Rates, Macieira e finalmente Negreiros. Balasar é uma freguesia muito grande.
Esta delimitação identifica dois monumentos megalíticos, duas mamoas: uma nos limites de Balasar com S. Marinha de Vicente, próxima portanto do Castro de Penices, e outra que ficava próxima do ponto onde se encontram Balasar, Rates e Macieira. Tais monumentos vinham no mínimo de 2000 a.C.
Veja-se como era constituída parte habitada do Casal da Igreja de Santa Obaya de Balasar:
“Primeiramente, uma casa sobradada, que tem uma sala e duas câmaras (quartos) e uma cozinha, todas telhadas. Outra casa telhada que serve de câmara. Pegado com o cabido (alpendre) da dita igreja, quatro casas térreas telhadas e uma delas colmaça (casas telhadas deveriam ser a residência e celeiros do pároco, a colmaça podia ser estábulo).
Uma casa colmaça (coberta a colmo) em que vive o caseiro. Um eido com duas cortes. Mais duas cortes de gado colmaças. Um pombal pegado com as casas. Um tapado que levará um quarto de semeadura, que serve de colmeias. Uma eira pegada com o adro e abaixo da eira um cortelho tapado sobre si que levará de semeadura um alqueire e meio”.
Este é um documento do tempo da juventude de Camões.

[1] A família da mãe da Alexandrina eram os Vicentes. Este apelido deriva certamente do nome desta antiga paróquia.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O Caso de Balasar (1903-1904)


O caso de Balasar que se vai historiar não é o dos amores dos pais da Alexandrina e o nascimento desta, apesar de ser contemporâneo. É bem outro: é o da morte dum ex-regedor de Balasar por ocasião duma festa da Santa Cruz, a que já nos referimos. O julgamento deste assassínio fez correr muita tinta na imprensa poveira.
O Estrela Povoense foi o que mais espaço lhe dedicou. Da primeira vez, em 15 de Maio de 1904, foi quase uma página completa, em letra miudinha, sob o título: “Audiências Gerais, Julgamento importante, o Caso de Balasar”. Registam-se as conversas trocadas em duas sessões do julgamento entre o juiz e os advogados, por um lado, e as testemunhas, por outro. Na edição de 22, faz-se o mesmo para a sessão com que terminou o julgamento. Quase meia página com o título de “Ainda o Caso de Balasar”.
O julgamento pareceu uma completa farsa: as testemunhas, que antes acusavam o réu - Florentino Ferreira de Macedo Faria Gajo, de Gueral, de 22 anos -, em tribunal, ilibaram-no. O juiz bem tentou mostrar-lhe a incongruência em que se envolviam, mas elas, que aparentemente tinham sido bem preparadas, mantiveram-se firmes. E o réu foi absolvido.
“E assim terminou essa tragédia em que se vê morrer assassinado um homem em pleno dia, cercado de centenas de pessoas, sem que alguém pudesse descobrir o assassino!”, lamenta o jornal. E mais adiante: “Infelizmente parece que uma freguesia inteira era cúmplice nessa morte, tais foram os meios que se empregaram para escurecer a verdade”.
O Liberal, no dia 15 de Maio, também dedicou mais de meia página ao caso, intitulando-a “Julgamento importante (o crime de Balasar)”, mostrando-se mais favorável ao réu. No dia 29, insurgiu-se contra o Estrela Povoense: se levantava suspeitas sobre o comportamento das testemunhas, devia prová-las. O Estrela lembrou então o que se tinha passado noutros julgamentos em que o réu era pobre e foi condenado.
O Comércio da Póvoa de Varzim dedicou  este julgamento, de uma vez só, quase uma página com o título de "Crime de Balasar".
A injustiça era muito evidente. Por trás das duas atitudes opostas do Estrela e do Liberal face ao julgamento deviam estar interesses políticos, eleiçoeiros.
No decorrer do julgamento é assinalada, pela sua respeitabilidade, uma testemunha de defesa do réu de nome Manuel Gonçalves Xavier, de Vila Pouca. Deve tratar-se de um tio, pelo pai, da Beata Alexandrina.

Isto lembra-nos aquele caso ocorrido em Lisboa, na década de trinta do século passado: um empregado duma loja tomara-se de amores pela esposa do patrão. Este despejou-lhe seis balas de revólver no corpo, provocando-lhe naturalmente a morte. No julgamento foi ilibado - por não se provar que tivera intenção de matar o empregado. 

sábado, 21 de julho de 2012

Alexandrina de Balasar ou Alexandrina Maria da Costa?


No site da Santa Sé, a Beata Alexandrina é designada como “Alexandrina Maria da Costa, Leiga, da União dos Cooperadores Salesianos”.
No Decreto das Virtudes Heróicas, foi designada como “Alexandrina Maria da Costa, Virgem secular, Membro da Associação dos Cooperadores de S. João Bosco”.
No Summarium do Processo Diocesano, foi chamada em latim “Alexandrina Maria da Costa, sodalis Assoc. Cooperatorum S.D.B”, isto é, Alexandrina Maria da Costa, membro da Associação dos Cooperadores de S.D.B. (Salesianos de D. Bosco).
Os Padres Mariano Pinho e Humberto nunca lhe chamaram “Alexandrina de Balasar”.
O Dr. Azevedo, quando criou o Boletim de Graças, chamou-lhe “Alexandrina Maria da Costa, a Doentinha de Balasar”.
Houve uma vez um pedido para lhe alterar o nome: leia-se aqui
"Poderemos continuar a usar, na pregação e devoção popular, o nome da Beata Alexandrina de Balasar". Oficialmente, não.


Imagens: 
Em cima, página dum semanário poveiro a anunciar a proclamação do Decreto das Virtudes Heróicas e onde, como título, se usa uma frase do Arcebispo de Braga chamando "Alexandrina Maria da Costa" àquela que então passava a ser venerável.
Em baixo, pormenor duma publicação da Santa Sé para o dia da Beatificação onde novamente a Beata Alexandrina é designada como "Alexandrina Maria da Costa, leiga, da União dos Cooperadores Salesianos".

domingo, 15 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (13)


Enriquecimento cultural
A estada da Alexandria na Póvoa proporcionou-lhe um enriquecimento cultural importante.
A sua Gresufes natal era o que popularmente se chama um buraco: embora lá devessem viver umas 30 pessoas, a Gresufes ia-se e regressava-se pois o lugar, entre colinas, não era caminho para lado nenhum.
Na Póvoa ela pôde conhecer um meio urbano, embora pequeno, mas em efervescência política. Ao menos de vista, ela conheceu com certeza todos os protagonistas desse agitado momento.
Lá tomou conhecimento com uma liturgia mais rica, mais variada, com grandes manifestações religiosas que a sua Balasar não oferecia. E isto num momento de perseguição.
Conheceu também a faina marítima das gentes pobres da Póvoa e o mar. Mar, tempestade, barcos, náufragos hão-de ocorrer como imagem na sua obra.
Aos dezasseis anos, ela voltou à sede do concelho por um período mais breve, mas isso permitiu-lhe avivar as recordações de infância.