sábado, 14 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (12)


Regresso a Balasar

A Alexandrina confessa que aprendeu pouco na escola: “Fiquei a saber pouco”. Mas o que aprendeu permitiu-lhe mais tarde aplicar-se e escrever razoavelmente.

Passados dezoito meses, como minha irmã fizesse exame, viemos embora. Minha mãe queria que eu continuasse a estudar, mas, sozinha, não quis ficar. Fiquei a saber pouco.
Voltámos ao lugar onde nascemos e aí estivemos quatro meses; depois fomos morar para perto da Igreja, numa casinha de minha mãe.

Curioso: ela nunca menciona a professora. 
Mas aprendeu muitas coisas que a escola não ensinava e que lhe iam ser de grande utilidade. 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (11)


O Crisma

D. António Barbosa Leão, que crismou a Alexandrina, era ao tempo bispo do Algarve, donde fora expulso em 6 de Janeiro. Mais tarde, seria bispo de Porto. Como ele, muitos bispos residiam fora das suas dioceses, como castigo de não aceitarem a imposição governamental das Cultuais.

Foi em Vila do Conde onde recebi o Sacramento da Confir­mação, ministrada pelo Exmo. Rev. Sr. Bispo do Porto. Lembro-me muito bem desta cerimónia e recebi-a com toda a consolação.
No momento em que fui crismada, não sei o que senti em mim; pareceu-me ser uma graça sobrenatural, que me transformou e me uniu cada vez mais a Nosso Senhor. Sobre isto, queria exprimir-me melhor, mas não sei[1].

Na imagem, D. António Barbosa Leão.

[1] É comum a Alexandrina reconhecer as limitações da sua expressão, mesmo sabendo dizer tantas coisas.
O arcebispo de Braga, D. Manuel Ba­ptista da Cunha, viveu parte do seu exílio em Vila do Conde (19 de Dezem­bro de 1912 a 13 de Maio de 1913), onde faleceu de morte natural.
Era então pároco da Vila o ilustradíssimo Monsenhor José Augusto Ferreira.
Não é impossível que na mesma ocasião em que a Alexandrina foi crismada o fosse também o futuro José Régio.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (10)


Perseguição dos guardas-republicanos 

Nos primeiros anos da República ocorreram na Póvoa dois atentados, o primeiro, a que já nos referimos, contra a residência do administrador Sebastião Tomás dos Santos, com vários disparos[1], e um segundo, no começo de 1919, que destruiu a redacção d’A Estrela Povoense e por pouco não vitimou o seu director.
Não pareça por isso exagerado o temor que a Alexandrina vai mostrar frente aos guardas, pois a GNR, criação do regime republicano, deveria simbolizar todas as prepotências que vinham a ser cometidas contra a Igreja: casas religiosas fechadas, bispos exilados, padres perseguidos, edifícios religiosos nacionalizados... Na Póvoa o colégio das Doroteias foi adaptado a quartel, as obras da Basílica do Sagrado Coração de Jesus foram suspensas, religiosos foram humilhados…[2]
Depois de umas férias, íamos para a Póvoa de Varzim, eu e a minha irmã; tínhamos quem nos acompanhasse, mas só depois de atravessarmos a freguesia. Íamos pelo caminho-de-ferro e avistámos, ao longe, dois guardas-republicanos. Tivemos medo deles, e refugiámo-nos na volta de um caminho. Como minha irmã levasse um cestinho com linho, eles imaginaram que ela levava fósforos, proibidos naquele tempo (espera-galegos), e perseguiram-nos.Não fugimos e gritámos muito. Aos nossos gritos acudiram várias pessoas. Já estavam para fazer fogo, quando compreenderam que não éramos portadoras de tal contrabando. Felizmente que, desta vez, escapámos à morte.

[1] A casa de Sebastião Tomás dos Santos ficava em Regufe, com certeza face à rua da Escola Mónica Cardia, pelo que a Alexandrina, que devia o conhecer de vista o administrador, também terá ido ver o resultado dos disparos contra a sua casa.
[2] Sobre a expulsão dos Jesuítas poveiros, veja-se Manuel Amorim, «A Companhia de Jesus na Póvoa de Varzim», no Boletim Cultural da Póvoa de Varzim, n.º XXXIII, 1996-1997, pp. 129 e seguintes; sobre as Doroteias, consulte-se o opúsculo de António Freire, S.J., A Madre Sá, Glória da Póvoa de Varzim, Braga, 1982.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (9)

“Chamei-lhe poveira
Na Autobiografia, a Alexandrina tem o cuidado de pôr bem a claro os seus defeitos; mas nunca são grandes. Veja-se o seguinte, que se manifestou na Póvoa:
Uma ocasião, a minha irmã pediu-lhe (patroa em cuja casa vivia na Rua da Junqueira) licença para ir estudar a casa de uma colega que morava perto, e eu também queria ir. Como não me deixasse, chorei e chamei-lhe poveira; estava zangada.
Bem caro lhe ficou o pouco ofensivo insulto:
Não me castigou, mas disse-me que não podia confessar-me sem lhe pedir perdão. A minha irmã disse-me o mesmo. Isto fez-me muita repugnância e, como quisesse confessar-me e comungar, venci o meu orgulho. Pus-me de joelhos e, de mãos erguidas, pedi-lhe perdão.
Ela comoveu-se até às lágrimas e perdoou-me. Senti grande alegria por já poder, no dia seguinte, confessar-me e receber a Jesus.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (8)

Respeito pelos sacerdotes

Não é possível, para a maior parte dos pequenos episódios ou anotações que a Alexandrina registou acerca do tempo passado na Póvoa, estabelecer datas precisas. Mas conhece-se muita coisa do momento político que então se vivia lá. 
O administrador Sebastião Tomás dos Santos foi afastado do cargo em finais de Junho na sequência dum atentado contra a sua residência cujos autores não foi possível identificar, mas que deveriam ser caceteiros carbonários. É claro que se fez um esforço enorme para culpar a paróquia, mas isso revelou-se sem fundamento. 
A Sebastião Tomás dos Santos, a quem chamavam o Zefinha (que não era poveiro e que manobrava um pouco na sombra através duma rede de espionagem que instituiu) sucedeu Santos Graça. Este actuou de modo diferente, mas com os mesmos objectivos. Coube-lhe o odiosíssimo papel de nacionalizar as igrejas e demais bens paroquiais do  concelho naquele ano de 1911. Depois apontou as suas armas contra o jornal que o Prior apoiava, O Poveiro. Censurou-o pidescamente, levou-o a tribunal e por fim, já em 1912, promoveu o seu silenciamento definitivo. Este jornal devia incomodar muito o administrador e os seus amigos maçónicos pois que aos poucos se afirmava como de projecção nacional.
No seu parcialismo, não se voltou para os jornais radicais, A Propaganda e O Intransigente, que não poupavam ninguém, que insinuavam torpezas quando as não podia garantir. O então jovem P.e Leopoldino, por exemplo, foi vítima dessas insinuações. A casa onde vivia a Alexandrina poderia ficar a uns 100 metros da redacção d’A Propaganda.
Em 1912, o Prior da Póvoa foi enviado para o exílio, como então acontecia com todos os Bispos portugueses.
Neste contexto fazem muito mais sentido as frases em que ela manifesta o seu respeito pelos sacerdotes: 
Lembro-me que tinha muito respeito pelos sacerdotes e, quando estava sentada à porta da rua, só ou com minha irmã e primos, levantava-me sempre à sua passagem e eles correspondiam, tirando o chapéu, se era de longe, ou dando-me a bênção, se passavam junto de mim.
Observei, algumas vezes, que várias pessoas reparavam nisto, e eu gostava e até chegava a sentar-me propositadamente para ter ocasião de me levantar, no momento em que passavam por mim, só para ter o gosto de mostrar a minha dedicação e respeito pelos ministros do Senhor.
Imagens: ao cimo, princípio do arrolamento dos bens paroquiais da freguesia poveira de Terroso (não se conservam os das outras freguesias); como lá se escreve, foi Santos Graça que presidiu ao acto. 
Em baixo, jornal O Poveiro com as colunas centrais em branco, censura do mesmo administrador.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (7)


Ida a Laundos

Mais um templo mariano na vida da Alexandrina – que há-de ir ao Sameiro pouco antes de acamar, por ocasião do Congresso Eucarístico Nacional de 1924, no qual participaram três actuais candidatos à beatificação: Fr. Bernardo de Vasconcelos (que passou algum tempo na Póvoa), o P.e Abílio Correia (que leu um trabalho no Congresso Eucarístico Diocesano que teve lugar na Póvoa, em 1925, e que tinha estado na Lapa) e o arcebispo de Évora de então, D. Manuel Mendes da Conceição Santos. Importante a experiência que aqui teve do monte, o monte de S. Félix. Nos seus escritos fala-se repetidamente da montanha, principalmente da do Calvário.
Lembro-me de ir acompanhar a minha patroa a Laundos, cumprir uma promessa a Nossa Senhora da Saúde. Connosco foi uma filha dela e a minha irmã. Esta ajudava-a, pegando-lhe na mão, porque ia de joelhos, e eu ia à frente dela, arrumando-lhe todas as pedrinhas, que encontrava no caminho. A filha, que era mais velha do que nós, foi para a brincadeira.Era muito dedicada à mulherzinha e quando me davam qualquer coisa boa, frutos, doces, etc., repartia com ela, que ficava toda satisfeita.Procedia assim, porque o meu coração assim o queria, apesar de ser muito má.
Este episódio decorreu já após o atentado anónimo à casa do administrador Sebastião Tomás dos Santos.

Na imagem, santuário de Nossa Senhora da Saúde em Laundos.

domingo, 8 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (6)


Na Aguçadoura

Um dia a pequena Alexandrina foi enviada à Aguçadoura a pedir para o culto de Nossa Senhora das Dores. O capelão desta capela era então o dinâmico e culto P.e José Cascão, cuja rica biblioteca – “talvez a primeira biblioteca particular da Póvoa”, no dizer do seu condiscípulo P.e Leopoldino Mateus – se encontra actualmente no Centro Paroquial Monsenhor Pires Quesado[1].
Veja-se a "má ideia" que a Alexandrina teve - e a determinação que ela tinha:

O capelão de Nossa Senhora das Dores lembrou-se de organizar várias comissões de meninas, para arranjar meios para o culto da mesma capela. Essas comissões espalharam-se pelas freguesias vizinhas da Póvoa de Varzim. Eu fui para a Aguçadoura. Aceitávamos tudo o que nos dessem, como batatas, cebolas, etc... Por mais que pedís­semos, pouco arranjámos e tivemos a má ideia de saltar a um campo e tirar batatas, cerca 2 kg. Fui eu uma das que fiz tal acção, enquanto as outras vigiavam. Entregámos as ofertas, não contando nada do que se tinha passado.

Na altura a actual Vila da Aguçadoura ainda não era paróquia (pertencia a Nabais).

Imagem: Igreja da Aguçadora.


[1] A Alexandrina pertenceu às Filhas de Maria; esta associação tinha um núcleo na Senhora das Dores, que o mesmo P.e José Cascão aí estabeleceu e dirigiu durante largo período. Mas ela inscreveu-se por Cavalões.
Pertenceu também ao Apostolado dos Doentes, que nascera da iniciativa do médico Abílio Garcia de Carvalho (que lhe prestou alguma assistência) e cuja sede era em S. José de Ribamar. O padre Manuel da Costa Gomes, que esteve à frente da paróquia de S. José de Ribamar e que dinamizou a construção da igreja paroquial, teve uma vez, ao tempo em que era arcipreste, uma intervenção muito positiva a favor da Alexandrina.