sexta-feira, 13 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (11)


O Crisma

D. António Barbosa Leão, que crismou a Alexandrina, era ao tempo bispo do Algarve, donde fora expulso em 6 de Janeiro. Mais tarde, seria bispo de Porto. Como ele, muitos bispos residiam fora das suas dioceses, como castigo de não aceitarem a imposição governamental das Cultuais.

Foi em Vila do Conde onde recebi o Sacramento da Confir­mação, ministrada pelo Exmo. Rev. Sr. Bispo do Porto. Lembro-me muito bem desta cerimónia e recebi-a com toda a consolação.
No momento em que fui crismada, não sei o que senti em mim; pareceu-me ser uma graça sobrenatural, que me transformou e me uniu cada vez mais a Nosso Senhor. Sobre isto, queria exprimir-me melhor, mas não sei[1].

Na imagem, D. António Barbosa Leão.

[1] É comum a Alexandrina reconhecer as limitações da sua expressão, mesmo sabendo dizer tantas coisas.
O arcebispo de Braga, D. Manuel Ba­ptista da Cunha, viveu parte do seu exílio em Vila do Conde (19 de Dezem­bro de 1912 a 13 de Maio de 1913), onde faleceu de morte natural.
Era então pároco da Vila o ilustradíssimo Monsenhor José Augusto Ferreira.
Não é impossível que na mesma ocasião em que a Alexandrina foi crismada o fosse também o futuro José Régio.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (10)


Perseguição dos guardas-republicanos 

Nos primeiros anos da República ocorreram na Póvoa dois atentados, o primeiro, a que já nos referimos, contra a residência do administrador Sebastião Tomás dos Santos, com vários disparos[1], e um segundo, no começo de 1919, que destruiu a redacção d’A Estrela Povoense e por pouco não vitimou o seu director.
Não pareça por isso exagerado o temor que a Alexandrina vai mostrar frente aos guardas, pois a GNR, criação do regime republicano, deveria simbolizar todas as prepotências que vinham a ser cometidas contra a Igreja: casas religiosas fechadas, bispos exilados, padres perseguidos, edifícios religiosos nacionalizados... Na Póvoa o colégio das Doroteias foi adaptado a quartel, as obras da Basílica do Sagrado Coração de Jesus foram suspensas, religiosos foram humilhados…[2]
Depois de umas férias, íamos para a Póvoa de Varzim, eu e a minha irmã; tínhamos quem nos acompanhasse, mas só depois de atravessarmos a freguesia. Íamos pelo caminho-de-ferro e avistámos, ao longe, dois guardas-republicanos. Tivemos medo deles, e refugiámo-nos na volta de um caminho. Como minha irmã levasse um cestinho com linho, eles imaginaram que ela levava fósforos, proibidos naquele tempo (espera-galegos), e perseguiram-nos.Não fugimos e gritámos muito. Aos nossos gritos acudiram várias pessoas. Já estavam para fazer fogo, quando compreenderam que não éramos portadoras de tal contrabando. Felizmente que, desta vez, escapámos à morte.

[1] A casa de Sebastião Tomás dos Santos ficava em Regufe, com certeza face à rua da Escola Mónica Cardia, pelo que a Alexandrina, que devia o conhecer de vista o administrador, também terá ido ver o resultado dos disparos contra a sua casa.
[2] Sobre a expulsão dos Jesuítas poveiros, veja-se Manuel Amorim, «A Companhia de Jesus na Póvoa de Varzim», no Boletim Cultural da Póvoa de Varzim, n.º XXXIII, 1996-1997, pp. 129 e seguintes; sobre as Doroteias, consulte-se o opúsculo de António Freire, S.J., A Madre Sá, Glória da Póvoa de Varzim, Braga, 1982.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (9)

“Chamei-lhe poveira
Na Autobiografia, a Alexandrina tem o cuidado de pôr bem a claro os seus defeitos; mas nunca são grandes. Veja-se o seguinte, que se manifestou na Póvoa:
Uma ocasião, a minha irmã pediu-lhe (patroa em cuja casa vivia na Rua da Junqueira) licença para ir estudar a casa de uma colega que morava perto, e eu também queria ir. Como não me deixasse, chorei e chamei-lhe poveira; estava zangada.
Bem caro lhe ficou o pouco ofensivo insulto:
Não me castigou, mas disse-me que não podia confessar-me sem lhe pedir perdão. A minha irmã disse-me o mesmo. Isto fez-me muita repugnância e, como quisesse confessar-me e comungar, venci o meu orgulho. Pus-me de joelhos e, de mãos erguidas, pedi-lhe perdão.
Ela comoveu-se até às lágrimas e perdoou-me. Senti grande alegria por já poder, no dia seguinte, confessar-me e receber a Jesus.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (8)

Respeito pelos sacerdotes

Não é possível, para a maior parte dos pequenos episódios ou anotações que a Alexandrina registou acerca do tempo passado na Póvoa, estabelecer datas precisas. Mas conhece-se muita coisa do momento político que então se vivia lá. 
O administrador Sebastião Tomás dos Santos foi afastado do cargo em finais de Junho na sequência dum atentado contra a sua residência cujos autores não foi possível identificar, mas que deveriam ser caceteiros carbonários. É claro que se fez um esforço enorme para culpar a paróquia, mas isso revelou-se sem fundamento. 
A Sebastião Tomás dos Santos, a quem chamavam o Zefinha (que não era poveiro e que manobrava um pouco na sombra através duma rede de espionagem que instituiu) sucedeu Santos Graça. Este actuou de modo diferente, mas com os mesmos objectivos. Coube-lhe o odiosíssimo papel de nacionalizar as igrejas e demais bens paroquiais do  concelho naquele ano de 1911. Depois apontou as suas armas contra o jornal que o Prior apoiava, O Poveiro. Censurou-o pidescamente, levou-o a tribunal e por fim, já em 1912, promoveu o seu silenciamento definitivo. Este jornal devia incomodar muito o administrador e os seus amigos maçónicos pois que aos poucos se afirmava como de projecção nacional.
No seu parcialismo, não se voltou para os jornais radicais, A Propaganda e O Intransigente, que não poupavam ninguém, que insinuavam torpezas quando as não podia garantir. O então jovem P.e Leopoldino, por exemplo, foi vítima dessas insinuações. A casa onde vivia a Alexandrina poderia ficar a uns 100 metros da redacção d’A Propaganda.
Em 1912, o Prior da Póvoa foi enviado para o exílio, como então acontecia com todos os Bispos portugueses.
Neste contexto fazem muito mais sentido as frases em que ela manifesta o seu respeito pelos sacerdotes: 
Lembro-me que tinha muito respeito pelos sacerdotes e, quando estava sentada à porta da rua, só ou com minha irmã e primos, levantava-me sempre à sua passagem e eles correspondiam, tirando o chapéu, se era de longe, ou dando-me a bênção, se passavam junto de mim.
Observei, algumas vezes, que várias pessoas reparavam nisto, e eu gostava e até chegava a sentar-me propositadamente para ter ocasião de me levantar, no momento em que passavam por mim, só para ter o gosto de mostrar a minha dedicação e respeito pelos ministros do Senhor.
Imagens: ao cimo, princípio do arrolamento dos bens paroquiais da freguesia poveira de Terroso (não se conservam os das outras freguesias); como lá se escreve, foi Santos Graça que presidiu ao acto. 
Em baixo, jornal O Poveiro com as colunas centrais em branco, censura do mesmo administrador.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (7)


Ida a Laundos

Mais um templo mariano na vida da Alexandrina – que há-de ir ao Sameiro pouco antes de acamar, por ocasião do Congresso Eucarístico Nacional de 1924, no qual participaram três actuais candidatos à beatificação: Fr. Bernardo de Vasconcelos (que passou algum tempo na Póvoa), o P.e Abílio Correia (que leu um trabalho no Congresso Eucarístico Diocesano que teve lugar na Póvoa, em 1925, e que tinha estado na Lapa) e o arcebispo de Évora de então, D. Manuel Mendes da Conceição Santos. Importante a experiência que aqui teve do monte, o monte de S. Félix. Nos seus escritos fala-se repetidamente da montanha, principalmente da do Calvário.
Lembro-me de ir acompanhar a minha patroa a Laundos, cumprir uma promessa a Nossa Senhora da Saúde. Connosco foi uma filha dela e a minha irmã. Esta ajudava-a, pegando-lhe na mão, porque ia de joelhos, e eu ia à frente dela, arrumando-lhe todas as pedrinhas, que encontrava no caminho. A filha, que era mais velha do que nós, foi para a brincadeira.Era muito dedicada à mulherzinha e quando me davam qualquer coisa boa, frutos, doces, etc., repartia com ela, que ficava toda satisfeita.Procedia assim, porque o meu coração assim o queria, apesar de ser muito má.
Este episódio decorreu já após o atentado anónimo à casa do administrador Sebastião Tomás dos Santos.

Na imagem, santuário de Nossa Senhora da Saúde em Laundos.

domingo, 8 de julho de 2012

Faz agora 100 anos… (6)


Na Aguçadoura

Um dia a pequena Alexandrina foi enviada à Aguçadoura a pedir para o culto de Nossa Senhora das Dores. O capelão desta capela era então o dinâmico e culto P.e José Cascão, cuja rica biblioteca – “talvez a primeira biblioteca particular da Póvoa”, no dizer do seu condiscípulo P.e Leopoldino Mateus – se encontra actualmente no Centro Paroquial Monsenhor Pires Quesado[1].
Veja-se a "má ideia" que a Alexandrina teve - e a determinação que ela tinha:

O capelão de Nossa Senhora das Dores lembrou-se de organizar várias comissões de meninas, para arranjar meios para o culto da mesma capela. Essas comissões espalharam-se pelas freguesias vizinhas da Póvoa de Varzim. Eu fui para a Aguçadoura. Aceitávamos tudo o que nos dessem, como batatas, cebolas, etc... Por mais que pedís­semos, pouco arranjámos e tivemos a má ideia de saltar a um campo e tirar batatas, cerca 2 kg. Fui eu uma das que fiz tal acção, enquanto as outras vigiavam. Entregámos as ofertas, não contando nada do que se tinha passado.

Na altura a actual Vila da Aguçadoura ainda não era paróquia (pertencia a Nabais).

Imagem: Igreja da Aguçadora.


[1] A Alexandrina pertenceu às Filhas de Maria; esta associação tinha um núcleo na Senhora das Dores, que o mesmo P.e José Cascão aí estabeleceu e dirigiu durante largo período. Mas ela inscreveu-se por Cavalões.
Pertenceu também ao Apostolado dos Doentes, que nascera da iniciativa do médico Abílio Garcia de Carvalho (que lhe prestou alguma assistência) e cuja sede era em S. José de Ribamar. O padre Manuel da Costa Gomes, que esteve à frente da paróquia de S. José de Ribamar e que dinamizou a construção da igreja paroquial, teve uma vez, ao tempo em que era arcipreste, uma intervenção muito positiva a favor da Alexandrina.

sábado, 7 de julho de 2012

A Festa do Senhor da Cruz


Chegámos agora de Balasar onde decorriam os preparativos finais para a festa do Senhor da Cruz. Vimos na igreja os andores, vimos o aspecto um pouco estranho do adro, vimos a exposição de arte sacra "O Crucifixo na Devoção Familiar".
Se o resto é mais ou menos o esperado de tais circunstâncias, já a exposição, essa é uma muito agradável surpresa. Vê-se lá um conjunto bem diversificado de oratórios, alguns magníficos, outros mais humildes, e uma colecção de crucifixos. Além disso, estão expostos alguns documentos e livros, relativos principalmente à Santa Cruz, à Beata Alexandrina e à Confraria de S. Antão.
Em relação à Santa Cruz, estão documentos que não conhecíamos – e continuamos a não conhecer, ficámos foi a saber que existem. O mesmo em relação à Confraria de Santo Antão, onde está exposto, entre outros outros, um pequeno livro de 1727, certamente contemporâneo da criação da capela da confraria do santo na igreja do Matinho.
Esta exposição dá alguma ideia do que poderia vir a ser uma grande exposição histórica e etnográfica balasarense.
Colocamos a seguir duas fotografias que tirámos.