terça-feira, 29 de maio de 2012

O Salto (3)

Jovem Alexandrina


A sua segunda filha de D. Ana há-de ter sido uma adolescente e uma jovem atraente. Os Signoriles descrevem-na assim ao tempo da cura na Póvoa, uns dois anos após o Salto:

A Alexandrina não era mais a menina de 7-8 anos, mas uma bela jovem, com fartos e longos cabelos negros que emolduram um vulto expressivo, avivado por dois olhos negros, vivos, luminosos e que às vezes o sorriso ilumina com uma bela fila de dentes branquíssimos.

Era alta e bem proporcionada, vigorosa e determinada, briosa e inteligente quanto baste, folgazã e sensível (na verdade, dotada de veia lírica), apaixonada pelo trabalho.
O facto de ter na irmã uma boa costureira também ajudaria ao seu visual.
Com razão concluem os mesmos Signoriles:

É por isso compreensível que fosse objecto de atenções da parte de jovens, mesmo sérios.

Na Autobiografia, ela mesma dá notícia de vários pretendentes que a cortejaram.
Uma vez conta esta brincadeira:

Com os meus dezasseis anos, e já doente, fui à casa de uma vizinha onde minha irmã estava a trabalhar de costura. Ao deparar com um fato de rapaz, vesti-o e apareci junto da minha irmã e da dona da casa. Riram-se a escangalhar. Depois disse-me a dona da casa:
- Olha, vai pela estrada fora, que os meus filhos e o meu marido andam a podar as videiras por cima da estrada.
Eu pensei que me conheceriam, mas resolvi e fui. Os senhores não me reconheceram e, muito admirados, pararam de trabalhar, para ver se conheciam o cavalheiro. Da janela da casa, minha irmã e a dona da casa encheram-se de rir.

Entre outras histórias, conta também este jogo de força:

Quando tinha doze ou treze anos, tinha muita força. Um homem começou a fazer-se muito forte com outras raparigas. Ele estava sentado. Eu dirigi-me a ele e voltei-o. Ele pôs-se a gritar: “Deixa-me! Deixa-me!” Mas deixei-o só quando quis. O meu fim era só: como ele era homem, que mostrasse a sua força.

Para o caso do Salto, convém ter presente que, em termos práticos, a Alexandrina era órfã de pai. Isto dá um carácter ainda mais sabujo ao acto dos três energúmenos. Se o pai por lá estivesse, o Lino Ferreira não chegaria ao atrevimento de rebentar o alçapão à martelada.
A mãe da Alexandrina era uma mãe solteira, mas o seu porte irrepreensível garantia-lhe o direito a ser respeitada. E não era propriamente pobre: possuía uma pequena casa e alguns terrenos para cultivo.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Salto (2)


A narrativa do Salto contada pela Beata Alexandrina

Uma ocasião, estando eu, minha irmã e uma pequena mais velha que nós a trabalhar na costura, avistámos três homens: o que tinha sido meu patrão, outro casado e um terceiro solteiro. Minha irmã, percebendo alguma coisa e vendo-os seguir o nosso caminho, mandou-me fechar a porta da sala.
Instantes depois, sentimos que eles subiam as escadas que davam para a sala e bateram à porta. Falou-lhes minha irmã. O que tinha sido meu patrão mandou abrir, mas, como não tivessem lá obra, não lhes abrimos a porta. O meu antigo patrão conhecia bem a casa e subiu por umas escadas pelo interior da habitação e os outros ficaram à porta onde tinham batido. Ele, não podendo entrar pelo interior por um alçapão que estava fechado e resguardado por uma máquina de costura, pegou num maço e deu fortes pancadas nas tábuas até rebentar o alçapão, tentando passar por aí.
Minha irmã, ao ver isto, abriu a porta da sala para fugir, mas essa ficou presa, e eu, ao ver tudo isto, saltei pela janela que estava aberta e que deitava para o quintal. Sofri um grande abalo porque a janela distava do chão quatro metros. Quis levantar-me logo, mas não pude, porque me deu uma forte dor na barriga. Com o salto caiu-me o anel que usava, sem dar por ela.
Cheia de coragem, peguei num pau e entrei pela porta do quintal para o eirado onde estava a minha irmã a discutir com os dois casados. A outra pequena estava na sala com o solteiro. Eu aproximei-me deles e chamei-lhes cães e disse que ou deixavam vir a pequena ou então gritava contra eles. Aceitaram a proposta e deixaram-na ir.
Foi nesta altura que dei pela falta do anel e disse-lhes de novo:
- Seus cães, por vossa causa perdi o meu anel.
Um deles, que trazia os dedos cheios de anéis, disse-me:
- Escolhe daqui um.
Mas eu, toda zangada, respondi:
- Não quero.
Não lhes demos mais confiança; eles retiraram-se e nós continuámos a trabalhar.
De tudo isto não contámos a ninguém, mas minha mãe veio a saber tudo.
Pouco depois, comecei a sofrer mais e toda a gente dizia que foi do salto que dei. Os médicos também afirmaram que muito concorrera para a minha doença.

Alçapão – portinhola horizontal que permite a comunicação entre dois pavimentos.
Eirado – espaço aberto das casas de lavoura para onde davam as portas das cortes do gado. Tradicionalmente, cobria-se de mato que, apodrecendo aí, era depois utilizado como estrume.

Ao centro da imagem, a janela do Salto.

domingo, 27 de maio de 2012

O Salto (1)

Fraquezas humanas


Em Sábado Santo de 1918, a Beata Alexandrina, com catorze anos, foi vítima do desregramento de três seus conterrâneos e isso veio a prostrá-la no leito de doente durante três décadas. Que horror!
Mas antes de nascer já fora vítima do desregramento dos pais e, em particular, do pai, que nunca assumiu a tarefa da sua paternidade, antes cobardemente se apressou a casar com outra mulher.
Do estudo que andamos a fazer da freguesia, verificamos que o desrespeito pontual pelas normas cristãs da sexualidade vem de muito longe (noutras terras não seria muito diferente).
No começo do séc. XVIII, nos quase 200 baptismos efectuados em duas décadas, perto de um décimo das crianças baptizadas eram filhas de mães solteiras. E essa chaga, embora viesse a diminuir, manteve-se.
Mas mais, não eram só os comuns fiéis a desrespeitar tais normas. Como se sabe, na origem da casa de D. Benta está a filha dum pároco; e conhecem-se os nomes de mais dois párocos da freguesia que também tiveram filhos.
Estas fraquezas humanas, especialmente entre aqueles que a gente gostava de ver como modelos de vida cristã, nem devem causar-nos um espanto muito grande. Basta recordar o que se passou com os apóstolos: um traiu Jesus, vendendo-O, Pedro negou que O conhecia num momento em que isso lhe podia ser de grave ameaça e os outros, na mesma hora de dificuldade, fugiram (certo é contudo que, à parte Judas, os restantes acabaram perder o receio e foram mártires, isto é, deram a vida na defesa da verdade).
Honra portanto àqueles e àquelas que, como a Alexandrina, saem vencedores das dificuldades e também aos que, se alguma vez fraquejaram, depois se levantaram para não voltar a cair.
A violência que se pretendia cometer contra a Alexandrina e as suas companheiras tem alguma coisa a ver com os tempos da República, que parece ter dado origem a um grupo de notória libertinagem na freguesia, a que creio que chamavam o Grupo da Vermelhinha. Não é por acaso que um homem de uma malvadez tão entranhada como o Lino Ferreira se torna Presidente da Junta logo após a Monarquia do Norte (presidiu de 2 de Fevereiro de 1919 a 26 de Novembro de 1923). António da Costa Faria, outro do grupo dos energúmenos, em meados de Outubro de 1919 foi a Lisboa assistir ao Congresso do Partido Republicano Português, na companhia de Carlos da Costa Reis, de má memória, e desse “pardal” que foi Cândido dos Santos. 

sábado, 26 de maio de 2012

Três fotografias antigas


Há uma fotografia célebre, tirada em Balasar em 1929, a dos fundadores da Feira das Fontainhas; saiu inclusive numa publicação da CP da altura. Ela assinala um momento marcante da história daquele lugar. Talvez até aí ninguém na freguesia tivesse sido fotografado.
A Beata Alexandrina também foi então fotografada. Verdadeiramente, não é certo se o foi nesse ano ou no seguinte, mas inclinamo-nos a crer que foi o mesmo fotógrafo e no mesmo ano. Ela tem nas mãos um ramo de flores, em vez do crucifixo, que vai passar a ser uma sua marca.
Uma terceira fotografia antiga tirada em Balasar foi a da inauguração da Cruzada Eucarística em 1933. O P.e Leopoldino tinha chegado há pouco e, em colaboração com o P.e Pinho e vários balasarenses, pôs em marcha o grupo local da Cruzada.
O mais antigo fotógrafo de que temos conhecimento na freguesia foi Cândido dos Santos ou Cândido Pardal, mas o P.e Pinho também teve máquina fotográfica. A da Cruzada Eucarística pode ter sido tirada por ele. Das outras duas não sabemos quem fosse o fotógrafo, Cândido dos Santos talvez só tenha adquirido a máquina mais tarde.
Luís Joaquim de Oliveira, o Cirurgião da Bicha, foi fotografado em anos bem anteriores, mas tê-lo-á sido acaso em Famalicão, Póvoa ou até Porto.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A Igreja do Matinho


A Beata Alexandrina foi baptizada na Igreja do Matinho, a que precedeu a actual e que ficava na parte nascente do cemitério paroquial. Como os materiais dessa igreja foram aproveitados na nova construção, dela conservam-se apenas imagens e alguma informação escrita.
Nos anos iniciais do século XVIII, a capela-mor da Igreja do Matinho estava arruinada e os balasarenses pressionaram o comendador a restaurá-la, como era sua obrigação. De facto, foi inteiramente refeita.
Em princípios de 1736, “os moradores da freguesia de Santa Eulália de Balasar” requereram a Braga licença para o pároco benzer a nova capela-mor. Não se pode garantir a transcrição fiel da totalidade das palavras do pedido pois a cópia que dele se conserva no arquivo distrital é de leitura muito difícil, mas foi mais ou menos nestes termos que eles se dirigiram à autoridade eclesiástica:

Ilustríssimo Senhor
Dizem os moradores da freguesia de Santa Eulália de Balasar, termo de Barcelos, Arcebispado Primaz, que arruinando-se a capela-mor da sua igreja e freguesia e para haver de se reparar foi necessário erigi-la sendo de novo feita e acabada e juntamente (?), telhada e caiada, com seu altar feito e tribuna benzida, capaz para nela se poder celebrar o Santo Sacrifício da Missa, pelo que pede a Vossa Ilustríssima seja servido conceder-lhe licença para se benzer e dizer nela e celebrar o Santo Sacrifício da Missa.

A licença veio só dois anos depois. E deve ter sido ainda alguns anos mais tarde que a paróquia decidiu refazer também o corpo da igreja, que de três naves passou então a uma só.

A imagem da padroeira ao cimo foi pintada de novo em tempo recente e profundamente desfigurada face ao que aqui se vê. Deve ter vindo da Igreja do Matinho.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A palavra Balasar


Tradicionalmente escreveu-se Balazar, com z, hoje sabe-se que se deve escrever Balasar, com s, pois na remota origem da palavra está o étimo grego Belisarios.
Mas houve alguma vez em Balasar um homem com este nome ou com o nome na sua forma latinizada Belisarius? Com certeza não, o que houve foi um homem chamado Belsar (ler-se-ia Belzar). Se Belsar tivesse alguma vez feito compras ou vendas de propriedades, e é capaz de ter feito, no latim tabeliónico, obrigatório nos documentos, alatinavam-lhe o nome para Belisarius, mas ele continuava a ser o Sr. Belsar. 
Os documentos antigos escreveram o nome da freguesia de muitas formas: a mais próxima da origem foi Belesar, mas ao seu lado ocorria já Balasar. Não sabemos por que caminhos, a forma que vingou foi esta última.
Quando terá vivido Belsar? Com certeza em fins do século XII e princípios do XIII. A igreja de Santa Eulália de Belsar deve ter ficado pronta em 1215 e foi com certeza ele que promoveu a sua construção.
Como se chega a esta data? Há um documento de 1215 que fala duns moinhos em Guardes e que, a terminar, informa que o emprazamento deles foi feito no ano em que a igreja foi concluída – pressupõe-se que era a de Balasar, ou antes, de Belsar.
E onde viveu Belsar? Ignoramos. A igreja construída foi a do Matinho.

Tuitio Fidei


Estivemos hoje na casa da Tuitio Fidei em Vila Pouca, Balasar: há lá obras em curso e sobretudo uma grande vontade de divulgar a Beata Alexandrina.