terça-feira, 16 de agosto de 2011

Uma página do Boletim de Graças


O Dr. Azevedo, no nº 8 do Boletim de Graças (Março de 1058), aborda a questão da veracidade dos factos extraordinários que aconteceram com a Alexandrina e a esse propósito lembra Lurdes e singulares casos lá ocorridos. Escreve ele:

Ao serem constatadas várias curas em Lurdes, o romancista ateu Emílio Zola convidava os Mestres da Medicina a saírem da sua indiferença e do seu mutismo, gritando-lhes, querendo abafar a verdade: “se os factos são verdadeiros, estudai-os; se são falsos, desmascarai-os” (Moraldi, A Ciência Moderna e os Milagres). E um dos então incrédulos, Alexis Carrel – pouco depois Prémio Nobel da Medicina – ao verificar, admiradíssimo, a cura de Maria Bailly, rendendo-se à evidência, disse que “não podia duvidar. Estamos em presença dum milagre” (Alexis Carrel, Milagres de Lourdes). Pouco antes, tinha afirmado: “se aquela rapariga (Maria Bailly, que estava já moribunda devido a uma peritonite tuberculosa) se cura, seria evidentemente um milagre. Acreditarei em tudo, e faço-me frade”. Não se fez frade, mas converteu-se ao Catolicismo, vindo a ser uma das maiores glórias da Ciência.
Ao ver o registo das curas de Lurdes, dizia o Santo Padre Pio X ao Dr. Boissarie: “o Secretariado das verificações médicas vale uma Basílica”. E o grande Pio XI também afirmou ao Dr. Vallet, em Dezembro de 1933: “Os médicos necessitam muito da Virgem santíssima, mas a Virgem Santíssima necessita também dos médicos, para que se reconheçam os seus milagres” (Dr. Henri Bom, Compêndio da Medicina Católica).
É certo que nos fenómenos médico-religiosos pertence à Igreja Hierárquica pronunciar a última palavra, mas também é verdade que a mesma Igreja quer saber qual o parecer dos médicos na classificação dos fenómenos biológicos extraordinários que têm relação com a vida religiosa dos seus filhos. Na verdade, a Medicina recebeu, como disse o Dr. Henri Bon, “o magnífico privilégio de ser a Ciência que com mais frequência é chamada a ser testemunha de Deus”.
No caso de Balasar, ao considerarmos os fenómenos ou os factos de que era protagonista a Alexandrina, sentiríamos o desejo de dizer aos seus contraditores, se os houvesse: se os factos são verdadeiros, estudai-os; se são falsos, desmascarai-os, se podeis, mas não os difameis sem estudo e de opinião antecipada, porque será grande a vossa responsabilidade e grande o ridículo em que caireis.

O Emílio Zola, de que começa por falar a citação, é um dos inspiradores de Eça de Queirós, mesmo d’O Crime do Padre Amaro. Esse romance foi escrito em obediência “a uma espécie de instinto”. Para se avaliar esse instinto (esse mau instinto), veja-se aqui.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

DISCURSO DE MONS. HORACIO DE ARAÚJO

na abertura do Processo Informativo Diocesano

Se os primeiros responsáveis do Processo Informativo Diocesano da Beata Alexandrina foram os italianos P.e Humberto Pasquale e P.e Heitor Calovi, o Mons. Horácio de Araújo, da Arquidiocese de Braga, teve na abertura esta brilhante intervenção.
O sentido das latinas citadas pode-se descobrir através duma rápida pesquisa no Google.

Em 13 de Outubro de 1955, na freguesia de Balasar, adormeceu santamente, nos braços do Pai, Alexandrina da Costa, vulgarmente conhecida por "Alexandrina de Balasar”.
A notícia da sua morte na sua casa do Calvário – assim se intitulava o lugar onde vivia – para o esplendor da Glória da imortalidade, correu célere por todo o País, trazendo para junto do seu cadáver, alguns milhares de pessoas desejosas de prestar as últimas homenagens a quem, durante a vida terrena, só teve a preocupação de fazer a vontade do Senhor. Eu tive conhecimento dessa notícia, na freguesia de Arcos – Vila do Conde – onde então me encontrava no ministério da pregação. Manhãzinha cedo, quando me dirigia para a Igreja Paroquial, ouvia, aqui e além, grupos de pessoas comentando o acontecimento com estas simples, mas significativas palavras: “Morreu a santa de Balasar”. Quis a bondade do Senhor que participasse no seu funeral. E do que observei pude concluir que o funeral da Alexandrina foi o primeiro dia da exaltação das suas virtudes. Na verdade, a Igreja de Balasar, embora ampla e espaçosa, tornou-se bem pequena para comportar o número de pessoas que ali acorriam de perto e de longe, a fim de venerar um corpo que foi instrumento dócil duma alma que sempre o dominou e venceu. E não era apenas a gente humilde do campo ou da fábrica, eram pessoas de todas as classes sociais. Enquanto se celebravam os ofícios fúnebres, vi homens da indústria, do comércio, militares graduados a desfilarem ininterruptamente diante do seu cadáver, e beijavam aqueles pés que jamais vacilaram no cumprimento do dever. Talvez, minhas Senhoras e meus Senhores, pareça estranho que eu comece a falar da sua morte… é que a morte, bem sabem, é o reflexo da vida, e preferi começar a falar sobre a sua morte para, agora, algo dizer sobre a vida da Alexandrina de Balasar.
Será essa dissertação um humilde depoimento do que eu vi, do que observei e do juízo que faço sobre os factos que observei e de que fui testemunha ocular na sua vida. Devo até dizer que evitei qualquer leitura ao preparar este modesto trabalho, para não me deixar influenciar por essa mesma leitura. Vou sintetizar este meu depoimento, este testemunho sobre a Alexandrina, nestes dois pontos: como conheci a Alexandrina? qual a minha opinião pessoal sobre a sua vida?

Como a conheci.
Decorria o ano de 1933: era eu aluno do Seminário Conciliar de Braga e, num retiro espiritual preparatório para as Ordenações, o conferente falava de almas que se entregavam ao Senhor numa doação total e sem reservas, oferecendo-se vítimas pela conversão dos pecadores. Recordo-me que ele citava várias dessas almas e acrescentou: mas não é preciso recorrermos ao passado: no presente nós temos destas almas, elas abundam em todo o mundo e temos uma na nossa Diocese. E citou o caso de Balasar. Passados anos, a obediência aos meus superiores hierárquicos levou-me para a freguesia de Ronfe, onde me encontro. Várias vezes me falaram da Alexandrina de Balasar. Confesso que, no princípio, mostrava-me um pouco indiferente. Depois, comecei por dizer: ou isto é obra de Deus ou obra humana. Se for obra de Deus, Deus a começou e Deus a completará. Se for obra humana, por não ter bases, num futuro mais ou menos próximo, ela há-de ruir, porque nada é estável e duradoiro que se baseie simplesmente naquilo que é humano. Passaram-se os anos e os fenómenos místicos iam-se repetindo e a fama das suas virtudes voava de um extremo ao outro do País, ultrapassando até as próprias fronteiras da Pátria, levada talvez por emigrantes que fixavam a sua residência lá longe.
Tive então que conhecer a Alexandrina, e bendigo ao Senhor por me ter proporcionado essa ocasião. Um dia o correio trouxe-me às mãos uma carta da Alexandrina: era um convite para pregar na sua freguesia, depois de prévia autorização do respectivo pároco, convite este a que se seguiram alguns outros. Recordo-me da ocasião, e vale bem a pena citar neste momento - porque vem mesmo a propósito - o porquê desse convite. Creio que foi pelo ano de 1953, época em que várias incursões se repetiam na Índia Portuguesa, numa tentativa de arrebatar aquilo que era nosso, muito nosso. Tentativa essa que se tornou, bem o sabemos, um facto consumado. Mas a Alexandrina era uma alma toda de Deus e amava a sua Pátria (e amar a Pátria também é virtude, não é defeito), e, doente como estava na sua cama, sabendo do que se passava, escreve-me uma carta a pedir-me para pregar uma vigília em que durante a noite inteira a gente boa de Balasar se havia de ajoelhar diante do Rei da paz, a pedir ao Senhor a integridade da nossa Pátria. Fui, conversei com a Alexandrina e, desde então, as minhas visitas repetiram-se, não tantas quanto eu desejava, porque a isso não mo permitiam os meus deveres paroquiais. Só posso dizer, e devo dizer, que, sempre que falava com a Alexandrina, eu vinha mais sacerdote, tinha mais zelo pela salvação das almas. Nunca nos lábios da Alexandrina uma conversa banal: ou falava de Deus ou das coisas que a Deus conduziam. E isto, meus Senhores, não constitui surpresa para ninguém: a palavra transborda do coração, e quando um coração está cheio de Deus, a palavra sabe ao divino. Por isso na boca da Alexandrina ou se falava de Deus ou das coisas que ao Senhor conduzem.
Um dia, durante cerca de meia hora, falava-me a Alexan­drina do mistério da SS. Trindade, da vida íntima de Deus e da graça santificante. Recordo esse dia como se fosse: e não sei que mais admirar nessa conversa que teve comigo, se a elevação, a sublimidade dos conceitos, se a clareza da linguagem. E nós sabemos muito bem que tratando-se destes assuntos não é fácil aliar as duas coisas. Pergunto: donde veio este conhecimento à Alexandrina? Ela tinha uma cultura rudimentar. Ela não leu grandes compêndios de teologia... Donde lhe veio, Senhores, esta ciência? Esta ciência veio do Autor de toda a ciência da, da Ciência incriada, da Ciência infalível, veio-lhe do Senhor. Falava desta ciência, da vida íntima de Deus, como o mais hábil teólogo, como ninguém podia falar de coisas tão altas, tão sublimes. Uma alma que vivia sempre na maior intimidade com Deus! É que o Senhor esconde estas coisas aos sábios e dá-as a conhecer aos humildes: Abscondisti haec a sapientibus.
O Senhor, junto do Mar de Teberíades, prega um dia um grande sermão, que poderemos reduzir em oito capítulos – oito pontos fundamentais - as oito bem-aventuranças. E uma dessas era: Bem-aventurados os puros do coração! É que, meus Senhores, as almas puras vêem a Deus contemplam a Deus, não como eu contemplo os meus ouvintes nem como os meus ouvintes me contemplam a mim, mas para me servir da imagem do Apóstolo, como através de um espelho, assim como o sol quando se reflecte num cristal puríssimo parece condensar-se naquele cristal e quando eu olho o cristal atravessado pelos raios solares tenho a impressão de que ali vejo o próprio sol, sem no entanto o vidro deixar de ser vidro, assim também na alma pura reflecte-se a divindade e ela tem um conhecimento profundo de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Deus e da Sua vida íntima. Porquê encontramos nós criancinhas inocentes e humildes a falarem de Deus com uma elevação que nos espanta? Por causa da sua pureza. Assim a Alexandrina. Não admira, pois, que ela mais falasse.
Estive presente em alguns dos seus êxtases, com licença do assistente, Sr. Dr. Azevedo, a quem me confesso muito grato por esta deferência, mas confesso que não foram os êxtases que mais me impressionaram, se bem que ao assistir aos êxtases da Alexandrina concluí que nesses havia a intervenção sobrenatural. Eram êxtases místicos, muito diferentes de fenómenos provenientes de origem mórbida, em que o paciente, após o êxtase – se assim lhe podemos chamar - quando regressa ao seu estado normal, encontra-se abatido, cansado, fatigadíssimo, a ponto de por vezes nem poder articular palavra. Mas eu vi como a Alexandrina - permita-se-me a expressão - despertava do seu êxtase: ela perecia outra, mas sempre a mesma. A limpidez do seu olhar, o equilíbrio dos seus gestos, das suas atitudes, a suavidade das suas palavras, enfim, tudo nela fazia crer que estávamos perante uma criatura normal. Nunca duvidei dos seus êxtases. Mas o que mais me impressionou eram as ­palavras que a Alexandrina dirigia aos circunstantes – e não eram muitos - que tomavam parte nesses êxtases. Estava, belo dia, com cinco sacerdotes da Diocese da Diocese do Porto. A Alexandrina entra em êxtase. No fim do êxtase olhou ­para nós, falou do sacerdócio, da necessidade de padres santos… e confesso que nunca ninguém me falar assim. E um dos presentes, da Diocese do Porto – tenho pena de não recordar o seu nome, para o citar - voltou-se para mim e disse: “Padre, que diz de tudo isto?” E eu disse-lhe: “Colega, gostei mais do após-êxtase do que do êxtase até. Nunca ninguém me soube falar assim da santidade, da necessidade da santidade do sacerdote. Tenho a impressão, acrescentei, que o Espírito Santo falou pela boca da Alexandrina”. Os colegas presentes concordaram todos plenamente comigo. Era assim a Alexandrina, assim a conheci.

Que penso eu da Alexandrina? Que juízo faço dela através desses contactos pessoais?
De tudo tirei uma 'conclusão: a Alexandrina era uma alma que vivia na intimidade com Deus. Intimidade esta que a levava à contemplação do divino. Só assim se pode explicar a maneira como ela falava de Deus e dos mistérios Fé. Em segundo lugar, a Alexandrina era uma presença de Cristo, presença viva, presença irradiante. Cristo transparecia nela como a luz através do cristal. Transparecia na pureza do seu olhar, na serenidade do seu rosto, nos seus gestos, nas suas atitudes: vê-la era ver a Cristo. Sim, presença viva e irradiante, pois que, meus Senhores, quando Deus está presente puma alma, não está inactivo, e esta presença manifesta-se, revela-se, é um fogo que aquece, e quem está junto de nós tem a noção desta presença. E quantos se aproximavam da Alexandrina, desencontrados com Deus e quando se afastavam do seu quartinho, modesto e simples, já tinham encontrado a Deus! Afastavam-se chorando os seus pecados - há testemunhas - e dali corriam pressurosos para junto de um confessor, a fim de lavar as suas culpas no banho salutar da Penitência. Era assim a Alexandrina: uma presença de Cristo, viva e irradiante. Era apaixonada pelos pecadores; vivia para eles. Por eles oferecera a sua vida ao Senhor, estava em tudo associada à Paixão do Senhor, era uma co-redentora com Cristo. Algumas vezes lhe ouviu estas palavras: “Os pecadores não ouvem, não ouvem os pedidos de Jesus, não acolhem as ­suas súplicas. Que pena eu tenho de Jesus!" - E assim oferecia os seus sofrimentos. Com que resignação e inalterável paciência sofria a Alexandrina de Balasar! Como ela sabia falar aos pecadores! Como ela penetrava no íntimo das suas almas e como ela conseguia transformar os ­corações! Dir-se-ia que o Senhor escolhera no século XX aquela vítima para Lhe dar almas, muitas almas, e ela cumpriu a sua missão.
Porque ele amava tanto a Jesus, com amor ardente e generoso, ela também não podia deixar de amar ardentemente a Mãe de Jesus, a Virgem Imaculada. Algumas vezes, entrando no seu quarto, encontrei-a com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima nas mãos. Olhava para ela com aquela ternura, com aquele carinho com que uma filha olha para a mãe. Chamava-lhe muitas vezes a Mãezinha do Céu, a quem recorria nas duras provas a que o Senhor a submeteu. Não esqueçamos que as almas a quem Deus­ mais ama são as almas a quem o Senhor faz passar as maiores provações; e ela teve-as, porque o Senhor a amava muito.
Pois bem, no meio dessas provações, ela recorreu continuamente à Mãezinha, como ela dizia. - E de Jesus e de Maria ela aprendeu a virtude da humildade. Aprendeu na escola do Mestre: “Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração”, diz o Senhor. E permitam-me que lhes conte como em certo dia eu quis experimentar a sua humildade. Perdoe-me o Senhor esta temeridade. Diz-lhe esta pergunta: Alexandrina consta por aí que recebeu do Céu o dom, o carisma especial do discernimento dos espíritos, isto é, consta que a Alexandrina sabe o que se passa nas consciências. Eu mesmo estava à espera duma res­posta afirmativa ou negativa. Se me respondesse sim, eu não tinha que duvidar, porque a humildade é verdade; no entanto devo dizer que gostei muito mais da resposta que me deu, porque vi mais uma vez que e Alexandrina de Balasar procurava esconder-se - ama nesciri. Era o lema da sua vida; ela gostava de ocultar as suas virtudes aos olhos do mundo. E querem saber a resposta? Vale a pena ouvi-la. “O senhor Padre, disse ela, dedica-se a pregação, e tem-lhe acontecido, certamente, uma vez ou outra, tratar de um assunto determinado nos púlpitos sagrados, e alguém talvez o tenha abordado no fim do sermão para lhe dizer, a propósito ou até a despropósito: - O senhor parece que adivinhou a minha vida, o senhor acertou em cheio o que se passa cá dentro da minha alma. Como é que o senhor soube isto? – Ora, comigo dá-se a mesma coisa. Como sabe, recebo frequentes visitas, diariamente. Olho para as pessoas (pela aragem em se vê quem vem na carruagem), falo para essas pessoas, dou-lhes os meus conselhos, tendo em conta o que ouvi no decorrer da conversa, tendo em conta a idade, as condições da vida, o estado, o ambiente em que vivem, etc. portanto, eu vejo mais ou menos os conselhos que competem a esta ou àquela classe depois e é natural que o chapéu assente multas vezes e perfeitamente nesta ou naquela pessoa. Ora, é a razão por que dizem que adivinho, tal e qual como acontece com V. Rev.cia”. Devo dizer que gostei imenso daquela resposta. Compreendem a razão da minha pergunta...

Não queria abusar mais da vossa paciência e, portanto, vou sintetizar num minuto tudo o que disse em todo este tempo:
Primeiro: a Alexandrina foi uma apaixonada de Deus e uma apaixonada dos pecadores.
Segundo: a Alexandrina adoptou por lema da sua vida o do Apóstolo: Mihi vivere Christus est, o meu viver é Cristo.
Terceiro: os caminhos que levaram a Alexandrina à santidade, melhor direi, ao encontro de Cristo foram os da pureza e de humildade. Evidentemente isto supõe uma fé viva e ao mesmo tempo um esperança, uma confiança ilimitada.
Quarto: a Alexandrina ­ofereceu-se como vítima ao Senhor, e o Senhor aceitou esta oferta.
E um dia, numa casa de Balasar, modesta e pobre, onde ela vivera o seu-martírio prolongado, um dia, um quarto transformou-se em autêntico calvário, uma cama transformou-se numa cruz, pregada nessa cruz uma vítima, essa vítima é a Serva de Deus Alexandrina Maria da Costa.
E Deus, que se compraz em premiar aqueles que Lhe são fiéis, cumprirá ou cumpre a Sua palavra; e a palavra do Senhor é esta, que todos conhecemos muito bem: Aquele que se humilha será exaltado, será glorificado. Per crucem ad lucem. Pela cruz à luz imarcescível da glória.
E, para finalizar, permitam-me os de Balasar: sê digno do grande tesouro que a tua freguesia encerra, dá graças ao Senhor!
Tenho dito.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

À atenção dos genealogistas


Em comentário à mensagem “O Assento de Baptismo de Custódio José da Costa”, de 7/1/11, escreveu há dias Mário Joaquim Nogueira de Azevedo da Costa Carneiro, do Recife, Pernambuco, Brasil, o que se segue:

O parentesco entre a Alexandrina e o Custódio José é que ambos eram descendentes do casal Custódio da Costa e Catarina Fernandes (casamento em Balasar a 31.01.1701); o filho deste casal, outro Custódio da Costa que foi antepassado da Alexandrina, casou com Tereza da Costa Carneira, descendente de Pedro Carneiro da Gram.

Sendo assim, a Beata Alexandrina ainda é muito remotamente aparentada com D. Benta...
Obrigado, Mário.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Juventude à procura de Deus

No enorme Brasil acontecem coisas de que a gente nem suspeita. Coisas boas.
Navegue no site do Instituto Hesed. O nome da nossa Beata não é lá estranho.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A primeira visita do P.e Humberto à Alexandrina

O que me determinou a ir a Balasar foi uma série de comentários desfavoráveis da parte de alguns sacerdotes a respeito da doente, e os factos fora do comum que lhe diziam respeito. As opiniões formuladas levaram-me a este raciocínio: - Está em causa uma alma. É preciso ajudá-la. Se é uma alma iludida ou culpada de mistificações, é preciso iluminá-la quanto antes, para que não se perca. Se, ao contrário, é uma alma recta ou mesmo santa, é preciso confortá-la e defendê-la, custe o que custar.
Quebrou as minhas últimas indecisões a Rev. Madre Chantal, superiora da Visitação em S. Miguel das Aves. Assim satisfazia os pedidos da menina Mariana Inês de Mello Sampaio, a qual se me tinha dirigido, por ocasião duma peregrinação aos Valinhos, em nome do primeiro director da Alexandrina e um outro padre da Companhia, o P.e Abel Guerra, superior do Colégio de Macieira de Cambra.
Satisfazia também os pedidos de D. Maria Joaquina, de Pardilhó, irmã do Arcebispo de Curza, que tinha encarregado o P.e Ismael de Matos, salesiano, de me pedir que fizesse ao menos uma visitazinha à Alexandrina.
Antes de ir a Balasar, pedi licença ao médico assistente, Dr. Manuel Augusto Dias de Azevedo, conforme resulta de uma carta dele que conservo.
Entrei pela primeira vez no quartinho da doente no dia 22 de Junho de 1944 e hospedei-me em casa dos Costas até ao dia 25.
A minha atitude foi de quem observa, de quem tudo escuta.
Confesso que me atormentavam dúvidas acerca de tudo e um certo cepticismo que me esforcei por ocultar, para não agravar a situação dolorosa daquela família, alvo de falatórios e de suspeitas da parte da Autoridade eclesiástica.
Os colóquios demorados com a Alexandrina e com a Deolinda deram-me imediatamente mais do que a sensação, a certeza de me encontrar perante uma alma virtuosíssima e toda de Deus.
Depois deste meu encontro, a pedido da menina Mariana Inês Mello Sampaio, enviei à mesma umas ligeiras impressões que ela queria entregar ao Superior dos Jesuítas de Macieira de Cambra. Ei-las:

“Visitei a Alexandrina em 22 do mês de Junho de 1944 e fiquei em sua casa até 24 – tendo ocasião de falar com ela longas horas e assistir ao êxtase de sexta-feira, dia 23.
Impressionou-me a sua simplicidade rara, o seu equilíbrio, a sua união com Deus, a sua serenidade no sofrimento.
Não sei como, mas desprende-se dela uma irradiação tão grande de bondade que infundiu em mim duas coisas: um conceito mais claro e firme da misericórdia e do amor de Jesus, e uma vontade mais viva de corresponder a Deus Nosso Senhor.
Os mesmos sentimentos consta-me ter deixado em outras pessoas, até em pessoas afastadas do bom caminho.
Interrogada por mim acerca de umas provações que muito a devem ter feito sofrer, respondeu com a maior naturalidade, sem tomar atitude de vítima, com sorriso até, e sem a mais pequena recriminação contra ninguém, declarando só, e com expressões breves, que a magoava o pensamento de que estas coisas entristecem muito o Coração de Jesus.
As conversas dela, mesmo sobre mistérios e coisas espirituais, são todas de uma ortodoxia clara, impecável… superior à instrução duma rapariga do povo que não leu tratados nem vidas de santos, a não ser uns opúsculos ou uns artigozitos de alguma revista popular.
É de uma lucidez admirável, quando se pensa que ela sofre de uma doença tão grave e tão antiga. O jejum completo de dois anos é coisa que observações cuidadas dos médicos comprovam e não souberam explicar.
Tem uma linguagem simples, mas elevada, como pessoa culta… e grande propriedade de expressões para retratar certos estados de espírito, que manifestam uma vida interior excepcional.
Ao pé da sua cama não há a atmosfera duma enfermaria, mas respira-se a alegria mais suave e santa, como numa capela.
É uma rapariga acolhedora, de uma caridade finíssima, previdente, providente… faz-nos lembrar a bondade de um São Francisco de Sales.
Vive de amor de Deus, vive de amor pelo próximo; esquecida de si, só deseja o bem e a salvação das almas.
Se eu quisesse dizer tudo, seria um nunca mais acabar. E tudo o que eu disse encontra-se nela sem pretensões, sem atitudes forçadas ou estudadas. O extraordinário que nela se passa é como que uma coisa só com a simplicidade e a prudência singela que, a meu ver, são as qualidades mais precisos numa alma daquelas.
Não sou eu quem deva julgar a Alexandrina; mas, no entanto, pelos elementos que tenho, ninguém me convence de que não se trata duma pessoa fidedigna e que, em vez de ser abandonada e posta de lado, devia ser acompanhada na sua vida espiritual, para que Nosso Senhor, embora não precise dos homens, possa, pela direcção de um sacerdote culto, prudente e santo, levá-la pelos caminhos por que a chama. E sabemos como Nosso Senhor, infinitamente sábio, não dispensa a obra do sacerdote.
Estará próxima também a hora em que o seu director virá dirigi-la? Oxalá que sim! Creia que o desejo vivamente, peço-o a Deus, e quem me dera poder fazer alguma coisa para isso.
Aqui vão as impressões que me pediu. Faça destas regras o uso que quiser. Oxalá que elas sirvam para o bem…”

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A festa do Sagrado Coração de Jesus de 1936, em Balasar


Em finais de 1935 (23 de Dezembro), o Idea Nova informava que o P.e Mariano Pinho fixava residência em Braga, isto é, abandonando a direcção de Brotéria, vinha para o Norte empenhar-se mais afincadamente na propagação das Cruzada Eucarística e das Congregações Marianas. Isso punha-o em contacto muito mais próximo com Balasar.
Veio a esta freguesia logo em Janeiro e depois no princípio de Maio. Mas voltou em finais de Agosto para um tríduo em honra do Sagrado Coração de Jesus.
Alexandrina fotografada pelo P.e Mariano Pinho em 1935

Na sua correspondência de 25 daquele mês (saída em 29), informa o P.e Leopoldino que “principiam amanhã, na igreja paroquial, umas conferências preparatórias da festa do Sagrado Coração de Jesus, que se realiza com brilho no próximo domingo.
Na quinta-feira, haverá comunhão e prática aos Cruzados, pela paz na Espanha; na sexta-feira, comunhão das mulheres; no sábado, comunhão dos homens; e, no domingo, haverá procissão eucarística, actos de desagravo, alocução e bênção pública, no largo da igreja.
Esta festa é promovida pela Associação do Coração de Jesus, fundada nesta freguesia no dia 2 de Julho de 1893 […]”
Na correspondência de 31 de Agosto, dá conta do êxito da festa, que foi grande:
“Revestiu-se de grande brilhantismo a festa do Sagrado Coração de Jesus ontem realizada. As conferências do Sr. P.e Mariano Pinho foram muito concorridas, principalmente pelos homens, que ocupavam a maior parte do templo. O assunto – o Apostolado da Oração e a Acção Católica - versado com mestria pelo grande orador, foi ouvido com atenção e agrado.
Em três dias houve reunião de confessores, sendo a comunhão geral no domingo numerosíssima, tomando nela parte mais de dois terços da freguesia.
Durante o tríduo, distribuíram-se cerca de 2000 comunhões. A missa da festa, cantada pelo nosso Rev. Abade, acolitado pelo Rev. Abade de Macieira e de S. Martinho do Outeiro, teve grande concorrência, estando encarregado da parte cantada o coro das mulheres, acompanhadas a harmónio pelo Rev. Abade de Rates.
De tarde, houve sermão, acto de consagração, bênção pascal e procissão, em que Jesus-Hóstia foi levado em triunfo por todo o povo da freguesia, entoando cânticos e passando por um tapete de verdura, vendo-se um artístico tapete de flores à porta da Sra. D. Rosa Murado.
No largo da igreja, foi dada a bênção pública depois duma brilhante alocução pelo Rev. Pinho, sendo Jesus Sacramentado muito vitoriado com palmas, vivas e acenar de lenços.
As crianças da Cruzada Eucarística empunhavam uma linda bandeira, com a cruz de Cristo, entusiasmando-se muito ao saudar com ela Jesus-Hóstia.
Enfim, foi uma festa que deixou saudades e que devia agradar ao Sagrado Coração de Jesus, a quem foi dedicada.
Parabéns aos zeladores do Apostolado da Oração”.
Em No Calvário de Balasar, escreveu o P.e Mariano Pinho a respeito deste tríduo por si pregado em Balasar:
“De 26 a 30 de Agosto de 1936, o director prega em Balasar um tríduo e teve então oportunidade de atender a doente a Alexandrina) com mais vagar. Num desses dias, Nosso Senhor interrompeu o longo silêncio de mais de quatro meses e vem confortá-la:

Mi­nha filha, com estes teus sofrimentos tens-me salvado muitas almas. Ora pela minha querida Espanha (grassava então na Espanha a guerra civil comunista). Vês o castigo de que Eu tantas vezes te falei? Estender-se-á a todo o mundo, se não se faz penitência e se não se convertem os pecadores”.

A Alexandrina passava então por um período de “treva cerradíssima e sofrimentos ininterruptos que a têm constantemente entre a vida e a morte. As cartas para o director interrompem-se durante quatro meses e tanto”.
O P.e Leopoldino ignorou isto nas suas notícias, que são preciosas apesar de tudo. Nem terá chegado a saber quase nada do que com ela se passou.
Note-se que o sucesso da festa também se deveu ao “grande orador”.
O Abade de Rates era o músico e compositor P.e Arnaldo Moreira; o de S. Martinho do Outeiro (Outeiro Maior) era o balasarense P.e Celestino Furtado.
O harmónio de que se fala era de Rates e era trazido à cabeça por uma mulher, numa distância de mais de cinco quilómeteros...

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Guerra Civil espanhola e a Beata Alexandrina


Em 7/12/1936, o P.e Leopoldino enviou para o Idea Nova um noticiário que saiu no dia 12 e que começava assim:

Há dias, veio uma comissão de nacionalistas dessa vila (Póvoa de Varzim) angariar nesta freguesia donativos para os nacionalistas espanhóis. A fim de facilitar o serviço, dividiram-se em três zonas, indo para a primeira os Srs. Administrador do Concelho, José do Nascimento Tavares, Adelino Gonçalves Ferreira e José da Silva Oliveira; para a segunda, o nosso Rev. Abade, Junta de Freguesia, ajudante do posto do Registo Civil e Cândido Faria Pinheiro; e para a terceira Presidente da União Nacional da freguesia, Regedor António Santos, António Leite Dourado, José Amorim Sampaio e Manuel Fernandes Lopes.
Todos foram bem recebidos pelo povo que ofereceu mais de cem escudos em dinheiro, algumas garrafas de aguardente, bacalhau e algumas dezenas de alqueires de milho e e batata.
As más condições económicas desta freguesia impediram que fossem mais avultadas as esmolas, porque este povo é generoso.

A Guerra Civil espanhola é mencionada pelo menos duas vezes em palavras de Jesus à Alexandrina. Veja-se em No Calvário de Balasar:

“De 26 a 30 de Agosto de 1936, o director prega em Balasar um tríduo e teve então oportunidade de atender a doente com mais vagar. Num desses dias, Nosso Senhor interrompeu o longo silêncio de mais de quatro meses e vem confortá-la:

Mi­nha filha, com estes teus sofrimentos tens-me salvado muitas almas. Ora pela minha querida Espanha (grassava então na Espanha a guerra civil comunista). Vês o castigo de que Eu tantas vezes te falei? Estender-se-á a todo o mundo, se não se faz penitência e se não se convertem os pecadores”.

E mais adiante:

“Passados uns doze dias, tornava Nosso Senhor a dizer-lhe, referindo-se à revolução comunista em Espanha:

Este flagelo é um castigo; é a ira de Deus. Eu castigo para os chamar; a todos quero salvar. Morri por todos. Eu não quero ser ofendido e sou-o tão horrorosamente na Espanha e em todo o mundo. Corre tanto perigo de se espalharem estas barbaridades!”

A gente podia-se perguntar legitimamente o que é que a Alexandrina saberia da guerra em Espanha, pois ainda não havia rádios na freguesia. Mas de facto os jornais da Póvoa noticiavam-na e o tema devia ser da conversa comum.