quarta-feira, 11 de maio de 2011

Coincidências

O artigo que se segue foi escrito por um balasarense que conheceu a Beata Alexandrina, mas mal, pois faleceu em 1940, o Arcipreste António Gomes Ferreira. Devia falar do P.e Álvaro Matos, o sacerdote, depois pároco da Póvoa de Varzim, que deu a Primeira Comunhão à mesma Alexandrina, mas fala de coisas variadas, como dum P.e Doutor, natural de Balasar, que se fez jesuíta, diz que o P.e Álvaro Matos foi dono duma importante casa nesta freguesia, etc. Assim já se percebe como a Alexandrina fala do P.e Álvaro Matos na Autobiografia: todos o conheciam na sua terra. Muita informação interessante.
Convém abrir a ligação associada ao livro Proscritos.

Era aí por 1885 ou 1886. Eu era estudante de Teologia e estava a passar as minhas férias em Balasar. O Dr. Manuel Campos, ao tempo professor de Filosofia no Seminário de Santarém, veio, como costumava também, passar as suas férias ao seu solar o “Campo”, na mesma freguesia.
Era um madrugador; e todos os dias quando ia para a Igreja da freguesia (ainda era a do Matinho) celebrar a Santa Missa passava pela minha casa, abria a porta e chamava naquela voz de tenor, tão sua: “O estudante está na cama? Cá fora já, para me vir ajudar à Missa…” E eu, às vezes bem arreliado, porque queria mais um bocadinho de cama, lá me mexia e lá ia ajudar o Sr. Doutor à Missa.
Um dia apareceu-me com um rapazinho pela mão, criança muito viva, perna mexida a sair do seu calção irrepreensível, que chamou a minha atenção pela novidade. O Sr. Doutor satisfez logo a minha curiosidade, dizendo-me: “É o Alvarinho, meu sobrinho, filho da minha irmã Rita, que veio passar uns dias connosco”.
Pouco tempo passado, eu ordenei-me sacerdote e segui a vida paroquial e aí me tenho mantido até agora. O Dr. Campos, alma de escol e coração esbraseado de zelo pela salvação das almas, seguia a sua vocação e fez-se religioso na benemérita “Companhia de Jesus”.
O Alvarinho cresceu, fez-se estudante e ordenou-se sacerdote.
Seu tio, o Dr. Campos, antes da sua profissão religiosa e em reconhecimento da muita simpatia que por ele nutria, legou-lhe o seu solar de Balasar, onde ele com a família costumava passar alguns momentos de repouso (algumas palavras ilegíveis).
Os tempos foram passando e um dia rebentou a revolução de 5 de Outubro.
Os revolucionários por toda a aparte perseguiam tudo o quer cheirasse a religião, espatifando tudo, arrastando tudo com uma fúria que dava a ideia que foram muitos manicómios que vomitaram para a rua os seus moradores. Tudo foi perseguido, mas nomeadamente os Jesuítas… Esses foram monteados como feras da pior espécie e passarem os trabalhos e as inclemências que se lêem com lágrimas nos Proscritos.
Por essa ocasião estava eu em minha casa de Balasar a tratar das vindimas e fui muito cedo para a igreja a fim de celebrar a Santa Missa (agora já na actual igreja) e vir presidir aos trabalhos da minha casa.
E quando, depois de fazer a minha preparação, me dirigi à sacristia da Igreja para me paramentar, vi através dos vidros da janela um vulto que espreitava, cauteloso e com manifesto receio de ser descoberto.
Aproximei-me e reconheci o amigo de tantos anos, o Dr. Campos!
Corri logo à porta para lhe dar o abraço de saudade e certificá-lo de que ali, naquele remanso pacífico da nossa aldeia, ainda não tinha chegado a república, que estivesse sossegado.
O Dr. Campos contou os trabalhos que tinha tido para chegar ali da residência de Guimarães, onde se encontrava, sempre perseguido, na sua própria terra e pelos irmãos e patriotas.
Na sua freguesia, que tantas vezes lhe serviu de remanso, de paz e de conforto, ele encontrava sossego.
- Já dei parte ao Álvaro, diz-me ele assustado (algumas palavras ilegíveis), e quero ver se consegue passar-me para Espanha.
Que pena me causou esta cena e como eu desejei naquela ocasião ter uma eloquência de Demóstenes para mover os perseguidores a sentimentos humanos! E o Álvaro lá se mexeu, tomou as suas medidas, tudo preparou e seu caro tio, que nunca na vida fez mal a uma mosca, porque era a bondade em pessoa, lá passou a fronteira, onde, para vergonha nossa, foi encontrar repouso, segurança, estima e apreço que a pátria lhe negou. Vive ainda, para honra da família e da sua ordem, em terras do Brasil a espalhar os benefícios do seu ministério que a pátria não quis aproveitar escorraçando-o… como elemento perigoso.
O sobrinho, o P.e Álvaro Matos – herdeiro da sua casa e das suas virtudes foi, por causa delas, nomeado pároco da Póvoa. O que foi a sua passagem por esta paróquia (da Póvoa de Varzim onde saía o jornal) está gravado ainda bem fresco na consciência de todos os moradores da formosa vila; na Igreja paroquial, na Conferência de S. Vicente de Paulo, no Pão de Santo António, na Beneficente, na Confraria do S. S. Sacramento e sobretudo na revolução moral da sua paróquia.
A sua construção franzina, servida por uma alma de apóstolo e da lúcida compreensão das coisas, gastou-se em poucos anos.
Voou para a eternidade, podendo dizer como S. Paulo ao terminar a sua brilhante carreira de apostolado: fidem servavi, cursum consumavi. 
Amigo íntimo do finado, só me resta pedir-lhe para que no seio de Deus, onde piamente creio que reside, peça ao Pai da Misericórdia que me leve a vê-lo de novo um dia, que não virá longe, para nunca mais me apartar dele.
Arcipreste António Gomes Ferreira, O Liberal, 20/5/1923

Imagem - Casa que foi do P.e Dr. Manuel Campos e depois do P.e Álvaro Matos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Igreja de Balasar – preciosa notícia

No jornal poveiro O Liberal de 7 de Novembro de 1909, saiu esta breve informação sobre a Igreja de Balasar então em fase final de construção:

Conquanto ainda não estejam concluídas as obras da nova igreja da freguesia de Balasar, deste concelho, sabemos que elas estão muito adiantadas, principiando já há semanas a celebração da missa.
Ainda não tivemos ocasião de ver o novo templo para podermos falar acerca dele, mas logo que isso nos seja possível diremos das nossas impressões.
No entanto, as informações que temos são de que a construção da igreja satisfaz por completo e que o lugar em que foi construída é um dos melhores da freguesia.

Infelizmente, não encontrámos no jornal o cumprimento da promessa de que voltaria a falar da nova igreja.

sábado, 7 de maio de 2011

O P.e Leopoldino, autor mariano (3)

Nossa Senhora das Dores

um primeiro momento deste artigo, o P.e Leopoldino analisa a situação existencial do homem, sujeito ao sofrimento, à luz da revelação bíblica, depois evoca a Mãe das Dores, cujo sofrimento ilumina a dor humana, e por fim refere-se à Procissão das Dores, que testemunha a fé na revelação cristã e é um exemplo concreto de esperança.
Todos A amam, todos A respeitam, todos A invocam, porque a dor acompanha a criatura desde o nascimento até à morte.
O homem nasce chorando, vive sofrendo, morre suspirando.
Ao princípio, nas delícias do Éden, reinava o amor, desempenhando o papel hoje atribuído à dor e bem mais satisfatoriamente que esta.
Se a dor nos ilumina e purifica, desprendendo-nos do que é efémero e elevando o coração dos mortais, mais rápida e nobremente exerce a mesma acção o amor.
Não houvesse fraquejado o primitivo amor no Paraíso terreal, se dele conservássemos no peito a chama viva em vez da pobre centelha que tão mal nos aquece, nunca teria existido a dor.
Precipitados no abismo da matéria, Deus, por efeito da Sua Infinita Misericórdia, concedeu-nos no próprio instante em que ia começar a queda, umas asas divinas com que nos sustentássemos e evitássemos a ruína irreparável.
O dilema está posto claramente: ou isto é a dor ou constitui uma fatalidade odiosa que inutilmente nos atormenta!
Temos de escolher entre a pesadíssima e gelada mão da fatalidade a triturar-nos, e contra a qual nada podemos, e a dextra carinhosa e paternal de Deus que, beneficente e compassiva, respeitando a nossa dignidade de seres feitos à Sua imagem e semelhança, nos toca apenas para nos melhorar e mo­dificar, a fim de que possamos alcançar uma eternidade feliz.
Entra um Deus infinitamente bom e um tirano modelíssimo (sic) não existe meio-termo.
O homem sem fé, sem temor de Deus vê no sofrimento uma penalidade que atormenta cruelmente a humanidade, mas o crente vê o justo castigo dos seus desvarios e um acto de amor divino para o chamar ao arrependimento e mudança de vida.
Temos, pois, que nos conformar com a sua sorte e com a assistência do Senhor.
Prevaricámos, devemos reparação ao Criador que nos tirou do nada, satisfação ao Redentor que nos resgatou da culpa!
Mas o homem é um ser insignificante que, olhando para a grandeza do Altíssimo a quem ofendeu, reconhece o seu nada, perdendo a esperança do perdão e da misericórdia.
Mas, de repente, uma doce visão lhe esclarece o espírito e alenta o coração, uma mulher, que é mãe, trespassado o coração com sete espadas de dor, lhe inspira confiança e levanta o ânimo triturado pelo sofrimento, dizendo-lhe com voz sentimental – Vê, filho, se há dor semelhante à minha dor!
Esta cena de compassividade e sentimento maternal dá-se todos os dias e milhares de vezes, por isso, não admira que Nossa Senhora das Dores, sempre terna e compassiva para os que sofrem, conte inúmeros devotos que, reconhecidos, acompanham a sua imagem tão encantadora e atraente que prende os corações que a ela recorreram nos momentos da angústia e do desamparo, formando um cortejo de gratidão e amor à Consoladora dos aflitos, à Protectora dos triturados pelo sofrimento.
No próximo domingo, ao passar a procissão em que tudo é alegria, observando as Confrarias acompa­nhando os grupos alegóricos, espera um pouco e, passado o pálio, pensa um instante nesse novo cortejo de agradecidos, revelador do panorama da dor e sofrimento a quem a Vir­gem Dolorosa protegeu e que justifica a grande devoção que os crentes lhe tributam, porque lhes valeu na desdita e no infortúnio.
Perante este quadro da dor e da gratidão, nada de desespero nem de desânimo – quando as tribulações da vida nos visitarem, levantemos os olhos, invoquemos com esperança o patrocínio de Nossa Senhora das Dores, que soube o que é sofrer e amar, e a paz, a alegria, o conforto voltarão ao nosso coração triturado pelo infortúnio.
Ala Arriba, 14/9/1957

Na imagem, altar-mor da Igreja de Nossa Senhora das Dores, na Póvoa de Varzim. Clique sobre a imagem para a ver em tamanho maior.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O P.e Leopoldino, autor mariano (2)

Senhora de Portugal

As gerações vão-se sucedendo, as nações por fortes e valo­rosas que sejam vão derruindo, os grandes do mundo vão desparecendo, e com eles os seus domínios; só Portugal, este jardim à beira mar plantado, vai resistindo às guerras e aos terra­motos, às invasões e às cobiças e ameaças dos imperantes. Porquê? Porque esta Nação, que o povo português denominou Terra de Santa Maria, é feudo da SS. Virgem, que a tomou à sua guar­da e que, assim como triunfou e triunfa das iras satânicas, assim vai defendendo a sua Terra das ambições dos seus adversários – e tantas foram elas.
Portugal vive há oito séculos e cada século da sua existência é um rosário de benemerências da sua Rainha e Senhora. Ele nasce, vive, desenvolve-se e sal­va-se à sombra da Cruz e sob a protecção incontestável de Nos­sa Senhora da Conceição.
Logo desde a Fundação, os monarcas lusitanos prestaram honrosas homenagens a Santa Maria: o Conde D. Henrique, transformando em capela sua a Igreja de N. Senhora, em Gui­marães, e D. Teresa, venerando na Sé de Braga uma das mais an­tigas imagens da Virgem; Santa Maria de Carquére, em Lamego, perpetua através dos séculos a cura miraculosa de Afonso Hen­riques. Acompanhando os Sobe­ranos, em todo o reino cristão se levantam capelas, ermidas e mosteiros para louvar a sua Se­nhora Celestial.
Após a difícil conquista, cum­pre-se o voto do primeiro Rei por português e o sumptuoso Mosteiro de Alcobaça surge em honra da Mãe do Céu. O Porto, conquistado aos mouros, é denominado "Ci­dade da Virgem" e numa das suas portas é colocada a imagem de N. Senhora da Vandoma.
Segue se o Rei-Trovador a poetar um cancioneiro em louvor de N. Senhora e a fundar e assis­tir todos os anos, no dia 8 de Dezembro, à festa da Conceição. D. Afonso III dá a sua filha o nome de Maria e D. Sancho II funda o Convento de S. Domin­gos onde se inicia a devoção do Rosário. D. João I, D. Afonso V, D. João II, levam à África, a maior glória de Portugal, o amor de Deus e a devoção a Maria. D. Duarte defende a Imaculada Conceição de Maria; D. João I compõe o seu livro Horas de Santa Maria; D. João III, o Rei­-Piedoso, reconstrói o belo tem­plo da Santa Madre de Deus em Xabregas, podendo-se dizer que o período áureo da veneração a Maria SS. em Portugal foi desde João III a D. Sebastião.
Em Março de 1646, as Cortes votaram a proclamação de N. Senhora como Padroeira de Portugal e o próprio D. João IV, Rei Libertador, de joelhos, na capela da Praça da Ribeira, as­sim a exaltou. D. João V mandou erigir, no Convento de Mafra, a capela da Conceição ao lado da capela-mor. D. João VI cria a Ordem Militar de N. Senhora da Conceição em Vila Viçosa, em 1818.
E assim foi continuando a devoção dos portugueses, dia a dia, até que Maria SS. visitou a Cova da Iria, aparecendo a três pastorinhos e santificou o Con­dado de Ourém, onde seis sécu­los antes o Santo Condestável tinha cumprido o seu voto. Nes­se mesmo lugar, em 13 de Maio de 1946, foi coroada a sua Imagem como Rainha do Céu e da Terra, como Senhora de Portu­gal.
Foi então que o próprio Pon­tífice disse: “… Vós, Portugue­ses, coroando a Imagem da Vir­gem Nossa Senhora, assinastes um atestado de Fé na sua Rea­leza, de uma submissão leal à sua autoridade, de uma corres­pondência filial e constante ao seu Amor. Fizestes mais ainda – alistastes-vos cruzados para a conquista e reconquista do seu Reino – que é o Reino de Deus; quer dizer, obrigastes-vos à face da Terra, a amá-La, a servi-La, a imitá-La – para com o seu favor servirdes melhor o Rei Divino".
Eis a Voz do Alto que deve ressoar constantemente nos nos­sos ouvidos, e essa Voz, presen­te ao nosso espírito, anima-nos a ser fiéis a Deus e a prestar con­tínuos actos de louvor e piedade filial a Nossa Senhora da Con­ceição, Senhora de Portugal e Padroeira da Póvoa de Varzim. Ideia Nova, 3/12/1949.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O P.e Leopoldino, autor mariano (1)

O P.e Leopoldino deve ter escrito para jornais durante mais de 50 anos, talvez 55 ou até 60; durante esse período, pregou também muito e em muitas igrejas. É possível reunir uma pequena antologia dos seus escritos, mas será sempre pouco representativa, pois muito do que publicou saiu anónimo. Aqui, vamos colocar três ou quatro artigos seus de tema mariano. Porventura este será o mais interessante de todos.
Ao tempo da publicação do artigo a Póvoa de Varzim ainda era apenas vila...

A Padroeira da Vila da Póvoa de Varzim

8 de Dezembro de 1904... Dia célebre, dia solene, dia memorável, em que a Celestial Patrona da terra dos poveiros foi coroada no Largo das Dores, re­cebendo das mãos trémulas do venerando Arcipreste António Martins de faria, Ilustre Abade de Beiriz, essa coroa de oiro, que ainda hoje ostenta no dia da sua festa, a atestar a religiosida­de e devoção dos seus queridos e amados filhos desta linda po­voação à beira- mar nascida e de­senvolvida,
Nesse dia magnifico e ines­quecível, ao som festivo dos si­nos das igrejas, ao esvoaçar das pombas, ao estralejar dos fogue­tes, os lábios ferventes dos cató­licos saudando efusivamente a sua Augusta Protectora, repetiam com fé e entusiasmo:

Ave, ó Delícias do Pai, por quem se estendeu, até aos últi­mos limites da terra, o conhecimento de Deus!
Ave, ó Habita­ção do Filho, donde Ele saiu ves­tido da carne humana!
Ave, ó Santuário inefável do Espírito Santo!
Ave, ó Santidade mais excelsa do que a dos Querubins!
Ave, ó Glória mais refulgente do que a dos Serafins!
Ave, ó Lati­tude mais ampla do que a dos Céus!
Ave, ó Luz mais esplên­dida do que a do Sol!
Ave, ó Resplendor mais fúlgido do que o da Lua!
Ave, ó santa Viração que dissipaste da Terra o espírito maligno!
Ave, ó Rainha con­ciliadora da Paz!
Ave, ó Esplen­dor imaculado das mães!

Neste dia para nós tão sole­ne, celebramos com reverência, gratidão e santo prazer, a festa da Imaculada Conceição.
Agora, não faltam coroações, nas vilas, cidades e aldeias, das imagens benditas da Mãe de Deus e dos homens; mas, há 44 anos, os católicos poveiros deram testemunho eloquente de gratidão à sua Padroeira, conse­guindo, com donativos de ricos e pobres, uma artística e valiosa coroa de ouro, e promovendo uma solenidade que marcou nos anais religiosos da sua terra natal.
É que, nos seus corações de filhos, palpitava ardente aquele amor respeitoso e filial, que lhes fazia repetir corno S. Tarcísio:

De que louvores te cumula­remos, ó Maria?
Ó donzela ima­culada, ó virgem impoluta, ó ornamento das mulheres, ó glória das virgens, ó Santa Mãe de Je­sus!
Tu és bendita entre todas as mulheres, celebrada pela tua inocência, assinalada pela tua vir­gindade.
Tu és a expiação da maldição de Adão, tu és a solu­ção da dívida de Eva.
Tu és a puríssima oblação de Abel, tu és a selecção dos primogénitos, tu és o sacrifício imaculado.
Tu és a esperança de Enós (sic) em Deus que o receio não pode destruir, tu és o início da graça em Enoeh (sic) e a emigração para uma vida se­gura.
Tu és a arca de Noé e a con­ciliação da segunda regeneração com Deus; tu, o fulgentíssimo esplendor do sacerdócio de Melquisedeque; tu, a firme confiança de Abraão e a fé submissa na promissão da futura posteridade.
Tu és o novo sacrifício e o racional holocausto de Isaac. Tu, a causa da ascensão pela escada de Jacob e a nobilíssima expressão da fecundidade permanente das 12 tribos.
Tu apareceste como a filha de Judá segundo a geração: tu, a pudicícia de José e a ruína do velho Egipto, da sinagoga dos Judeus, ó Imaculada.
Tu és de Moisés o livro divinamente formado em que se acha escrito o Sacramento da regeneração e insculpida em tábuas, pelos dedos de Deus, a Lei, como no Monte Sinai, onde o novo será vingado da escravidão dos Egípcios intelectuais (sic): assim como o antigo povo, assim este é sa­ciado na solidão com maná e água da rocha e a rocha é o Cris­to que há-de sair do teu seio co­mo o esposo do tálamo nupcial.
Tu és a Vara florescente de Aarão; tu, a filha de David ador­nada com vestidos orlados de ouro e refulgindo com o brilho de vários adereços.
Tu és o espelho dos Profetas e o êxito dos factos por eles preditos.
Por isso, nós conclamamos com a Igreja católica:

Ave, ó Brilho mais variado do que o brilho dos astros!
Ave, ó Nuvem ligeira que derramas uma chuva celeste!
Ave, ó no­bre pregão dos Profetas, ó som admirável dos Apóstolos ouvido por toda a redondeza ria terra, ó excelente confissão dos Mártires, ó laudabilíssima pregação dos Patriarcas, ó supremo ornamento dos Santos!
Ave, ó Causa da salvação de todos os mortais!
Ave, ó Mediadora de todos os que vivem na terra!
Ave, ó Re­paração de todo o orbe terráqueo!
Ave, ó cheia de Graça, é contigo o Senhor que existe antes de ti, que de ti saiu e connosco está!

Animados dos mesmos senti­mentos, vamos, no próximo dia 8, festejar o glorioso aniversário dá coroação da linda imagem da Nossa Celestial Padroeira, celebrando os seus louvores, cantan­do as suas glórias e agradecendo os seus benefícios.
Com Ela levantemos as mãos para o Céu, orando ao Todo Po­deroso pela paz do mundo, tão ameaçada dos desvairos e ambi­ções dos homens sem fé e sem temor de Deus e respeito pelo próximo.
Que Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal, nos livre mais uma vez do flagelo da guerra, procurando nós afastá-lo com a audição permanente da sua voz em Fátima. A Imaculada protege-nos, abençoa-nos e defende-nos, se cumprirmos a Lei do seu Filho.
Idea Nova, 4/12/48

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Honra e glória ao Senhor nos altos Céus!


Honra e glória ao Senhor nos altos Céus!
Chegou enfim o dia da minha alegria
e de todos os que são verdadeiramente devotos da querida Mãezinha!
Ó Virgem da Assunção, ó Mãezinha Imaculada,
mais que os Anjos pura e bela!
Criou-Vos o Senhor tão pura, tão pura,
com a sua mesma pureza,
criou-Vos para serdes sua Mãe.
Oh, como és bela e imaculada,
em Ti não há mancha de pecado!
Ó Céus, falai de mim,
por mim aclamai à Mãe do Senhor e Mãe nossa,
a Rainha dos Céus e da Terra!
Mãezinha, sou tua, faz-me pura!
Beata Alexandrina

domingo, 1 de maio de 2011

Alexandrina Maria da Costa

A perspectiva do P.e Leopoldino

Passando, hoje, o primeiro aniversário do falecimento da saudosa e sempre chorada Alexandrina Maria da Costa, limito-me a repetir o que disse na despedida dos meus paroquianos de Balasar a respeito dela:

Passei convosco 23 anos e três meses e deixo-vos por motivo de doença e não por ser despedido dos superiores. Durante esse longo pe­ríodo de tempo baptizei a maior parte da freguesia, administrando es­te sacramento a 1.151 pessoas de ambos os sexos, presidi a 270 casa­mentos, não contando com os realizados fora, e acompanhei à sepul­tura 521 pessoas, crianças e adultos, destacando-se entre estes a nossa Alexandrina do Vicente. Esta rapa­riga do campo merece uma referência especial porque foi a minha valiosa cooperadora no múnus paroquial.
Conhecia tamanina quando rece­beu a Primeira Comunhão na Igreja Matriz da Póvoa de Varzim, que lhe foi dada pelo meu saudoso condiscípulo e pároco P.e Álvaro de Campos Matos.
Quando em 8 de Julho de 1933 tomei posse da paroquialidade de Santa Eulália de Balasar, encontrei Alexandrina já presa ao leito da dor e do sofrimento, prémio da sua abnegação e sacrifício na defesa da sua pureza e integridade do seu corpo de criança de 13 para 14 anos.
Sabendo que a Santíssima Eucaristia é a vida das almas santas e puras dominadas pela doença, du­rante anos consecutivos ministrei-lhe a Sagrada Comunhão diariamente, sendo este, no último período da sua existência, o seu único alimento.
Um dia, sentindo que as forças me iam definhando, disse-lhe: Alexandrina, parece-me que vou dei­xar-vos porque me não sinto com alento para o pesado ónus desta longa freguesia.
A doente calou-se mas volvidos dias, antes de lhe dar o Pão da Vida, ao abeirar-me do seu leito, diz-me:
- Senhor Abade, não receie perder o vigor para deixar a fre­guesia, porque pedi a Nosso Senhor que eu morresse antes de V. Rev.cia nos deixar e Ele prometeu-me que sim e a palavra de Deus não falta.
E assim sucedeu.
Nunca recebi dela dádiva alguma para a minha pessoa, mas recebi muitas para os outros.
A meu pedido ela auxiliou eficaz­mente algumas missões religiosas que operaram uma grande reforma espiritual na vida dos habitantes, muitos deles um pouco esquecidos das suas obrigações de católicos.
Obtive grandes melhoramentos para a igreja paroquial em alfaias e objectos do culto, especialmente o rico e artístico cofre-sacrário, tão lindo que não será fácil encontrar igual em aldeias.
O alto-falante, adquiriu-o espontaneamente para serem ouvidas por ela e pelos que estivessem fora do recinto sagrado as homilias e lei­turas como exercícios de piedade, bem como os cânticos religiosos.
Tinha uma dedicação especial pelas classes pobres, valendo-lhes muitas vezes nas suas necessidades e distribuindo anualmente, dos dona­tivos oferecidos pelos visitantes, alguns milhares de escudos em rou­pas pelos nus e pelos esfarrapados.
O Hospital era uma casa da sua preocupação, interessando-se ela e levando pessoas abastadas a oferecer dádivas em géneros e dinheiro à Santa Casa para que esta nunca deixasse de admitir e tratar com carinho os doentinhos de Balasar, como assim tem acontecido.
O falecido arcipreste Rev. Manuel da Costa Gomes tinha por ela grande respeito e consideração como Director das Obras do Apostolado dos Doentes e a Alexandrina, sabendo da feira das oferendas em benefício das obras da Igreja de S. José, arranjou um rico cesto e chamou bastantes conhecidas e amigas para fazerem o mesmo; por isso, Balazar marcou nessa feira.
As Missões do Ultramar foram matéria do seu zelo apostólico, fundando por intermédio dos Padres do Espírito Santo a Liam.
Presidente da Visita Domiciliá­ria da Sagrada Família, quando sa­bia que em alguns lares havia desinteligências entre os casados, chamava-os para os harmonizar e juntar.
Era uma alma de Deus, cheia de zelo apostólico, trabalhando muitíssimo pela oração e pela acção na santa obra da regeneração espiri­tual das famílias.

Por isso, na passagem do primeiro aniversário da sua subida à Glória do Céu, como cremos, não podíamos deixar no olvido a sua memória e pedir-lhe a continuação do seu auxí­lio à freguesia que lhe foi berço, embora já a não pastoreemos.
L.M. Ala Arriba, 13/10/56