terça-feira, 26 de abril de 2011

Sobre a imagem de Nossa Senhora da Conceição da Igreja de Balasar


Em 9 de Outubro de 1950, o P.e Leopoldino noticia a vinda a Balasar do escultor José Ferreira Thedim, de S. Mamede do Coronado. À partida pensar-se-ia que era mais um dos peregrinos que vinham visitar a Alexandrina, mas talvez não, talvez ele viesse colher informações para uma imagem nova de Nossa Senhora da Conceição que se pretendia para a paróquia. Veja-se o que o mesmo jornalista noticiou relativo ao dia da Imaculada Conceição de 1952.
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Na festa da Imaculada Conceição, em que pregou o Sr. Dr. José de Jesus Ribeiro, ilustre prior da freguesia de S. Sebastião, cidade de Guimarães, foi benzida uma nova imagem da Senhora, generosa e devota oferta dos nossos conterrâneos ausentes no Estado do Rio de Janeiro, Brasil. A imagem está um primor, tanto na escultura como na pintura, revelando a perícia do autor, que muito acredita a sua oficina. Todas as pessoas lhe tecem rasgados elogios.

A Mãe de Deus calca a serpente, como é usual em tais representações, e sob os seus pés está o globo terrestre. As quinas enviam para o facto de ser Nossa Senhora da Conceição a padroeira de Portugal.

José Ferreira Thedim (1892-1971) nasceu em S. Mamede do Coronado e aí desenvolveu a sua arte.
O pai era escultor e os irmãos também. As estátuas de Thedim primavam pela exuberância: era o único a moldar, a desenhar e a fazer. Na oficina havia uma educação especial, com um silêncio que parecia de igreja.
Em 1917 foi-lhe solicitado que talhasse a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Thedim foi então levado até à Irmã Lúcia para recolher dados para o seu trabalho, mas terá colhido também ideias num catálogo espanhol.
Acabada a obra, com um metro e três centímetros da peanha ao crânio, a imagem seguiu para Fátima e foi benzida pelo pároco local em 13 de Maio de 1920 e colocada na Capelinha das Aparições em 13 de Junho.
A partir daí o trabalho de Thedim internacionaliza-se, a ponto de em 1931 Pio XI agraciar com o título de comendador.
Em 1947, o escultor cria a imagem da Virgem Peregrina, voltando a contactar Lúcia.
A obra de Thedim está espalhada por galerias, igrejas, mosteiros e conventos de todo o mundo.
As primeiras imagens eram feitas em madeira de cedro vinda do Brasil, dos estados de S. Paulo, Paraná e Santa Catarina; era um material lenhoso, colorido e com um cheiro característico, bom para a talha.
Sobre Thedim, veja-se o que escreve a Wikipédia espanhola.
Sobre a imagem de Nossa Senhora de Fátima, ver aqui.
Ver ainda aqui e aqui.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

“Ofereci-me como vítima”



O modo como na Autobiografia a Beata Alexandrina conta que se ofereceu como vítima não é fácil de entender. Escreveu ela:

Sem saber como, ofereci-me a Nosso Senhor como vítima, e vinha, desde há muito tempo, a pedir o amor ao sofrimento. Nosso Senhor concedeu-me tanto, tanto esta graça que hoje não trocaria a dor por tudo quanto há no mundo. Com este amor à dor, toda me consolava em oferecer a Jesus todos os meus sofrimentos. A consolação de Jesus e a salvação das almas era o que mais me preocupava.

Esta oferta vai-lhe marcar toda a vida futura e foi feita “sem saber como”?...
Antes de mais, é claro que a poucos ou nenhuns de nós ocorreria fazer uma oferta como esta. Mais, não saberíamos o que isso queria dizer.
Ela não saberia mesmo?
Alguma coisa sabia, e isso lhe bastou. E como sabia?
A resposta, a nosso ver, encontra-se num livro paroquial. Veja-se o termo de abertura dele:
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Este livro há-de servir para inscrever os nomes de todos os associados do Coração de Jesus desta freguesia de Santa Eulália de Balasar, Arciprestado de Vila do Conde, Arquidiocese de Braga; substitui o livro primitivo com a data de 2 de Julho de 1893, por não estar em condições de servir. Vai ser rubricado e numerado com data de 27 de Julho de 1932.
O Director Local, P.e Manuel d’Araújo

A Alexandrina, a sua irmã e a sua mãe, todas estavam inscritas na Associação do Coração de Jesus.
Numa acta de 1933 - a secretária era a Sãozinha - do tempo do P.e Leopoldino e já de após o tríduo pregado pelo P.e Pinho em Balasar, esta associação aparece integrada no Apostolado da Oração. Ora isto significa sem dúvida que desde há anos a Alexandrina acompanhava o que se escrevia no Mensageiro do Coração de Jesus, na recente Cruzada Eucarística, etc., onde se falava insistentemente da reparação.
Sendo assim, ela tinha oportunidade de saber muitas coisas sobre o sentido da oferta de vítima. Se o fez algo inconsideradamente, tal não se opõe a que ela não tivesse já meditado muito no assunto. O nome do P.e Pinho já há alguns anos lhe seria familiar.

Ilustração - Imagem do Sagrado Coração de Jesus que se venera em Balasar.

sábado, 23 de abril de 2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

A Santa Missão de Balasar, de 1950 - 4

B.   Nos Sentimentos da Alma

10 de Novembro de 1950 (sexta-feira)

Mais um colóquio do pequeno conjunto contemporâneo da santa missão.
A propósito dela, o P.e Humberto escreve que a Alexandrina promoveu duas: uma é certamente esta, a outra será a do ano seguinte, pela mesma altura.
Fixem-se as referências da Alexandrina à festa em honra do "dogma da querida Mãezinha", a de Jesus a Balasar, a bela visão da barquinha no mar encapelado e, no final, a avaliação que Jesus faz da santa missão.
Por nos aparecer que não há grande proveito em colocar em linha o quarto colóquio relativo a esta missão, este será o último.
Ao menos a partir desta data, a presença dos Missionários do Espírito Santo em Balasar torna-se muito frequente.

Só hoje, dia 16, posso cumprir o meu dever de santa obediência, dizendo o que se passou na minha alma. Não pude antes, não me deixam.
Ai, meu Jesus, quanto é doloroso o meu Calvário! Na minha cruz só a Vós eu vejo. Oh, sim, posso dizer com toda a verdade: é o amor de Jesus que me leva a obedecer, embora à minha natureza repugne este acto de obediência e aceitação à cruz. Vence a força de Jesus. Eu não tenho força para sofrer nem coragem para obedecer.
Morreu a minha coragem, a minha vontade e todas as coisas que de mim dependem. A minha alma sofre indizíveis sofrimentos. Não os sabe dizer a minha ignorância. Causa-me pavor falar dos meus sentimentos, falar da minha dor e receber as visitas que de mim se aproximam. Sinto a necessidade de me refugiar, de deixar o mundo para me esconder só em Jesus.
Estou presa ao lodo, a toda a imundície humana; não tenho asas, assim nunca poderei voar.
Ai, o Céu, o Céu, que saudades! E para maior martírio não posso pedi-lo a Jesus. Prometi-Lhe isto, não posso faltar.
Nos dias da santa missão, sacrifiquei-me muito, recebi muitos espinhos, muito sofri por Jesus e em favor das nossas almas.
Tudo morreu sem que eu lhe sentisse um pequenino sopro de vida.
Na festa em honra do dogma da querida Mãezinha, quis do meu leito associar-me a Ela. Ouvi as aclamações que na igreja se faziam. Em união com os assistentes também eu Lhe dei os meus vivas e queria acenar-Lhe com o meu lencinho branco. Não pude: rompi em lágrimas. Pedi ao Céu, pedi às avezinhas da terra e a todos os seres que A glorificassem, A bendissessem por mim. Senti como se a Mãezinha nada recebesse de mim.
Na quinta-feira, durante o dia, senti dentro em meu peito o mundo inteiro, feito num Calvário: tinha todos os instrumentos que feriam Jesus. Nada havia na terra que não fosse Calvário. A sua dureza era maior que rochedos.
O peito e o coração abriram-se em dor. Fiquei no Horto: foi esta a dor que lá me trespassou.
Senti o abandono dos Apóstolos, suei sangue ao ser esmagada pela justiça divina.
Ofereci ao Pai o cálix da minha amargura, que transbordava sangue.
Na sexta de manhã, andei pelos tribunais, em ao mesmo, tempo revoltada contra o Senhor, não quis unir-me a Ele, não quis aproveitar-me do seu Sangue divino que corri montanha abaixo. Amaldiçoando (sem ser eu que amaldiçoava) a Jesus, fugi dele, nunca o busquei, sempre O maldisse. Fiz tudo ao mesmo tempo: fui Cristo, sofri com Ele, fui mundo revoltado, cheio de vícios e crimes.
Meu Deus, meu Deus! Fiquei no Calvário, fiquei pregada na cruz e sofrer com Jesus os seus tormentos, a bradar com Ele ao Eterno Pai.
Não há língua humana que possa descrever a agonia e dor de Jesus.
Eu esperei, deixei o mundo bem pouco tempo.
Jesus veio com a sua vida dolorosa, trouxe com Ele o Céu – ou Ele era mesmo o Céu.
Senti como que a abóbada do firmamento me absorvesse. E dentro deste Céu, mas com o coração a sangrar, ouvi que Jesus me dizia:
- Minha filha, vem para o teu Céu que a ti desceu, vem para o meu divino Coração; repousa aqui, vem fortalecer-te da vida divina, vem tomar conforto para mais e mais imolação.
- Ai, meu Jesus, é certo que me sinto no Céu, na vossa paz inefável. Mas, ó Jesus, que dor a minha! O coração parece rebentar-me. Valei-me se quereis que eu resista. Dai a vossa força para que eu possa continuar a ser a vossa vítima.
- Nada temas, minha filha, nada podes temer, porque Eu estou contigo e em ti opero o milagre da graça, da perseverança.
Hás-de vencer, hás-de perseverar até ao fim. A tua dor é como já te repeti muitas vezes, é a dor que sem a tua reparação sentia o meu divino Coração.
São os crimes do mundo que assim te fazem sofrer. São os crimes dos pecadores desta freguesia privilegiada, desta freguesia selada com o selo do mais forte amor que exige teu martírio.
O inferno está em guerra, em guerra aberta contra ti ao ver as almas que lhe fogem.
Que tempestade! Que mar imenso!
Neste momento via como que toda a terra transformada em mar. Uma parte em ondas agitadíssimas, que tentavam submergir tudo. Andava entre essas ondas uma barquinha. Eu via-a e eu mesma estava nela. Era eu sozinha que remava e andava louca a apanhar as almas sem número, perdidas naquele mar tempestuoso, agitadíssimo; e transportava-as para a outra parte do mar bonançoso, de serenidade e paz.
Oh, como era lindo ver aquele mar coberto de almas parecidas com os Anjos, livres de todo o perigo, sem se mergulharem nas águas! Nadavam por si naquele mar de gozo, sem se esforçarem para nadar: estavam salvas.
Todas pareciam ter asas, asas puras, asas brancas como os Anjos. Era lindo, lindo, lido!...
Meu Deus, não sei dizer mais. Trabalhei sem cessar, vi tudo, mas sem deixar de sofrer.
- Minha filha, minha filha, é bela esta visão, mas só no Céu a podes compreender. É a tua missão: transportar almas do mar tempestuoso do vício e das paixões para o mar celeste, para o porto de salvação. Tem coragem!
Vem agora receber a gota do meu divino Sangue. Deixa unir o meu amantíssimo Coração ao teu para que ele passe. É o Sangue de Cristo crucificado a correr nas veias da sua crucificada, da continuadora da sua obra de salvação.
Jesus uniu os nossos corações; passou do dele para o meu, por entre raios de fogo, a gotinha do preciosíssimo Sangue de Jesus.
Foi neste momento que a dor me desapareceu. Sem a dor e confortada pelo amor de Jesus, fiquei mais forte; não podia separar-me dele. Jesus disse-me:
- Vai, minha filha, para a tua cruz.
Respondi-lhe:
- Estou presa, Jesus, não posso separar-me.
- Vai, vai confiante. É para que saibas que sou Eu, o divino Artista, que trabalho em tua alma com sabedoria prodigiosa e omnipotente.
Confia: o Céu ama-te. Confia: todo o Céu está contente pelo fruto desta missão, pelas almas que com o teu sofrimento conduziste ao Coração de Deus. Todo o inferno está raivoso contra ti.
Nada temas, vai para a tua cruz.
- Obrigada, obrigada, meu Jesus.

domingo, 17 de abril de 2011

A Santa Missão de Balasar, de 1950 - 3

B.   Nos Sentimentos da Alma (cont.)

4 de Novembro de 1950 (1º sábado)

Neste colóquio de primeiro sábado, repare-se que, como é hábito, são ditas palavras de consolação e incentivo também para o P.e Pinho e para o Dr. Azevedo. O P.e Humberto (que esteve em Roma na proclamaçãpo do dogma da Assunção) ordenou à Alexandrina que não registasse as que lhe eram dirigidas.
Muito interessantes as palavras de Nossa Senhora sobre a sua Assunção e sobre os Missionários do Espírito Santo.
Note-se o tom poético das palavras de Jesus e de sua Mãe.

Estava em agonia a minha alma, nesta agonia que leva à morte. Ofereci-a ao meu Jesus e à querida Mãezinha pelo fruto da nossa missão.
Com o coração trespassado de espinhos e alanceado de dor pungente, esperei a vinda do meu Jesus. Ele veio e foi para mim bálsamo e força. Logo que baixou ao meu coração, disse-me:
- Minha filha, minha filha, são doces as iguarias que Me dás na terra, neste palácio.
Minha filha, minha filha, ditoso Calvário, ditosa terra, grande vítima, grande reparação, grande união, grande amor.
Minha filha, estou contente, estou contigo, venço no teu Calvário.
Satanás é calcado sob os teus sofrimentos, como foi calcado sob os pés da Minha Bendita Mãe.
Alegra-te, minha filha, está contente. A seara é grande e grande é a colheita.
- Assim seja, assim seja, meu Amor.
- Diz, minha filha, ao teu Paizinho, àquele que Eu escolhi desde toda a eternidade para ser teu guia, teu companheiro, tua luz no Paraíso… diz-lhe que quero que seja desde já para ele o ano do regresso, do voo ao seu ninho, à sua Pátria.
- Ó Jesus, Vós sois o Senhor. Movei os corações, mas quero, meu Jesus, para vossa honra e glória, não para mim, que se realize, que se cumpra a vossa divina vontade.
- Eu quero, Eu quero, ó filha minha, que ele venha, que seja apressada a hora; não quero que os homens contrariem mais os meus desígnios divinos.
Dá-lhe a abundância do meu Amor, o meu Coração infinito.
Diz ao teu médico que não descanse. Eu quero que se apresse a minha vontade de hoje, que foi a minha vontade de sempre. Eu quero dar-te o Paraíso, porque lá a tua missão continua. Quero e não posso.
Dá ao teu médico a chuva de amor, a chuva de graças para o seu jardim florido.
Vem, minha Bendita Mãe, vem à terra, baixa a esta esposa, vem confortá-la na sua dor, vem dar-lhe os teus carinhos, vem enchê-la, prepará-la para mais luta, para mais dor.
- Vejo-Te descer, Mãezinha, com certeza como subiste.
- Minha filha, esposa do meu Jesus, Eu deveria aparecer-te como Mãe das Dores ao ver as ofensas feitas ao Coração divino de Jesus e ao meu Coração, mas, olhando à glória e à honra que Me foi dada, venho como Virgem da Assunção, do dia da subida ao Céu. Subi com os Anjos, desci com os Anjos. Eles levaram-Me pelos vestidos e pelos vestidos Me trouxeram. Trouxeram-Me como pombas brancas e trouxeram-Me como se tivessem seus biquinhos.
Alegra-te, conforta-te.
Eu contigo e tu comigo, será dada ao Eterno Pai a honra e a reparação que exige a sua justiça. Eu contigo e tu comigo, será dada ao mundo a graça do perdão.
Alegra-te, minha filha: com os teus sofrimentos e cicatrizada a ferida do meu e teu Jesus, a ferida do seu divino Coração e a ferida do meu Santíssimo Coração.
- Ó Mãezinha, são doces as vossa as palavras, doce o vosso carinho.
Ó Jesus, ó Mãezinha, estou mais forte. Como são ternos os vossos carinhos. São eles o conforto do meu coração e da minha alma.
- Minha filha, di-lo, em nome de Jesus e Maria, aos teus Missionários que trabalhem por esta causa, que é tão nossa, tanto do nosso agrado, tão gloriosa para o mundo e para o Céu. Dá-lhes a nossa graça, dá-lhes o nosso amor. Dá-o aos que amas, aos que te são queridos, dá-o aos que te rodeiam, dá-o ao mundo inteiro.
Vai em paz, leva o conforto de Jesus e de Maria.
- Obrigada, obrigada. Queria subir convosco, Mãezinha, agarrada ao teu manto.

sábado, 16 de abril de 2011

A Santa Missão de Balasar, de 1950 - 2

B.   Nos Sentimentos da Alma

São quatro os colóquios da Beata Alexandrina em que há alusões à Santa Missão: o do dia 3 de Novembro, que se transcreve abaixo; o do dia 4, que é de 1º sábado e por isso tem um conteúdo diferente dos de sexta-feira; e os dos dias 10 e 17. Ela quase não pode falar e por isso o colóquio do dia 10 só foi ditado no dia 16.
Tencionamos colocá-los aqui todos, embora ainda não estejam integralmente digitalizados. De facto, trata-se de um caso pouco comum, ao encontrarmos neles referências a um acontecimento bastante bem documentado.
Assinalamos a negrito as frases ou expressões que directamente se relacionam com a Santa Missão.


3 de Novembro de 1950

Morreram as minhas alegrias, morreu o dia, morreu o sol, não há nada no mudo que para mim tenha vida, só a dor, só o pecado.
Está a decorrer a santa missão. Só com os olhos em Jesus e nas almas, só pela salvação destas e glória do Senhor eu fiz tudo para conseguir esta graça para a freguesia. E o prémio do meu esforço tem sido dor tormentosa para o meu corpo e para a minha alma.
Meu Deus, meu Deus, não sei exprimir-me!
Ó meu Jesus, sou a vossa vítima, aceitai-me tudo isto para a santificação desta terra, para o fruto desta santa missão.
No meio deste pavoroso sofrimento, tanto de dia como de noite, tenho feito subir ao Céu muitas vezes a oferta deste mísero incenso, destas pobres migalhinhas que não são minhas, porque um morto nada tem.
Vejo os entusiasmos e a alegria em tantos rostos e parece-me ver e sentir mais fogo em tantos corações, e só eu nada tenho, tudo é morte.
No meu quarto, na minha caminha, ouço os cânticos, as pregações feitas na Igreja, na casa do meu Senhor, e só eu nada aproveito: tudo desaparece na minha mente, a minha ignorância nada me faz compreender, a morte tudo me rouba.
Meu Deus, meu Deus, as coisas do Senhor, não as compreendo, morrem logo, mas o pecado, o tremendo e pavoroso pecado não morre em mim, é meu, conheço-lhe toda a gravidade e malícia e parece-me que em todo o sentido da palavra, pecado de toda a espécie, toda a variedade de crimes. Eu conheço-os, eu conheço-os e parece-me que sou eu a praticá-los.
Mergulhei-me, banhei-me neste mar imenso de imundícies, mas sinto-me nesta ocasião mais mergulhada, mais sobrecarregada nos crimes desta terra. Sinto dela o que nunca senti. Sinto-me um trapo imundo e desfeito, que toda a humanidade calca, que todos escarram e de quem todos escarnecem. E mais, muito mais, como nunca da pobre gente de Balasar.
Ai, meu Deus, ai, meu Deus, o que eu tenho sentido e o que eu sinto! A minha alma vê e sente todo o inferno contra ela. Os demónios uivam raivosos, de dentes descarnados tentam atirar-se a mim, a amarfanharem-me, a derrotarem-me, a engolirem-me.
Não sei, mas sei, só com a força e graça do Senhor eu podia resistir sem cair no desespero. O Céu me aceite o sacrifício. Oh, como me custa falar!
Ontem, em todo o dia, senti o meu corpo e a minha alma a serem açoitados; foram açoites contínuos, foi um horto sem cessar. Só de noite senti mais o suor de sangue, a agonia que fazia com que a minha lama rolasse nos solo duro. A minha cabeça sentiu-se coroada de espinhos e estes abriram tanto sangue que regou a terra.
Hoje, logo pela manhã, viu a minha alma a grande montanha do Calvário e no cimo a cruz ao alto, onde eu havia de ser crucificada. Esta cruz chegava ao Céu e fazia-o abrir e resplandecer. E o meu corpo, condenado à morte, foi seguindo o Calvário para essa enorme montanha, como formiguinha que se arrasta pela terra. Levava sobre mim a cruz, o sangue corria, o suor banhava-me, o desfalecimento fez-me cair muitas vezes. No alto da cruz, não senti nela o corpo crucificado, mas sim, no centro, o coração, como se estivesse ele crucificado; e este gotejava sangue, bradava ao Pai em agonia e foi gotejando sempre até à última gota. E por último saiu água.
Como amava este coração e como sofria não o poder dizer! A dor era infinita e o amor ultrapassava a dor.
Não morri, mas separou-se a minha vida da terra e, momentos depois, Jesus veio como ressuscitado, numa ressurreição triste, horrorosa e dolorosa, e disse:
- Ouvi, meus filhos, ouvi o brado do Coração divino que vos ama. Estou sedento de amor e não posso ser amado, sendo ofendido como sou.
Ouvi, filhos, meus, ouvi e estai atentos: quero amor, quero amor e emenda de vida.
Vê, minha filha, olha o meu Coração divino aberto e desprezado. Foram os crimes que Mo abriram dum lado ao outro. São as iniquidades do mundo que servem de lança.
Vi Jesus com o Coração aberto e disse:
- Ó Jesus, ó Jesus, esquecestes-Vos do que me prometestes! Eu não Vos quero ver sofrer e foi isso que me prometestes, que deveria sofrer em lugar de Vós.
- Sossega, filha minha, sossega, vítima querida. Isto foi só um relance de olhos. Esta visão foi para mais te fazer sofrer. Tem coragem! O teu Esposo Jesus está contente no teu martírio. Todo o Céu se alegra e todo o inferno se enraivece.
- Ó Jesus, meu doce amor, é verdade que a minha alma tem sentido de facto as raivas dos demónios, que eu vi a quererem-me amarfanhar e querem destruir-me?
- Sim, sim, minha filha, foram os malditos meus inimigos das almas, a quem elas tanto amam, mais do que a Mim. Mas Eu não consenti que eles te tocassem. Foi só para teu tormento, grande martírio de expiação.
- Bendito sejais, Jesus, bendito sejais! Se é para o bem da nossa missão, se é para a salvação do mundo inteiro e sobretudo para não ser o Vosso Coração ferido, nisso está tudo. Sim, meu Amor, se não fordes ferido não sois ofendido, sois sempre o mesmo Jesus formoso e triunfante.
As minhas exigências, Jesus, são sempre as mesmas: quero a Vossa graça e o Vosso amor, e de tal forma que me leve a enlouquecer de amor pela cruz. Só Vos peço que me poupeis as almas à condenação eterna[1].
- Estás disposta a continuar no mesmo martírio e agonia? Martírio de corpo e agonia de alma?
- Estendo-Vos as mãos, Jesus, e aceito tudo e tudo estreito e abraço ao coração: a cruz, a dor, o martírio; e abraço-Vos a Vós no coração para Vos queimar neste fogo que me abrasa e queimar-me também no Vosso. Abracei-Vos, Jesus, encontrei-Vos. Vós estáveis tão longe!... Só Vos vi ferido e nada mais, mas agora, Amor meu, estais no meu coração. Sinto nele o Vosso amor, o calor que Vos abrasa.
Por momentos adormeci unida ao meu Jesus; despertei mais confortada.
- Já dormi o meu sono, já estou mais forte para mais e melhor sofrer. Tenho sofrido tão mal! Perdoai-me, Jesus!...
- Vem agora receber a gota do meu divino Sangue, a gota do amor, a gota que te dá vida, esta vida que te leva a sofrer, que te leva a amar, que te leva a viver…
Já corre nas tuas veias o Sangue que trouxe da Virgem, o Sangue que gera as Virgens, aquelas Virgens que Me hão-de rodear nos Céus e que junto do meu trono hão-de entoar meus hinos.
Vai em paz, minha filha, pede ao mundo, vai e grita: penitência! Penitência, emenda de vida, se querem livrar-se, se querem escapar aos rigores da divina justiça.
Vai em Paz! Coragem! Coragem!
- Obrigada, obrigada, meu Jesus!


[1] Na cópia de Balasar, estas páginas estão dactilografadas com deficiências pouco comuns. Aqui, por exemplo, está escrito “Não Vos peço que me poupeis as almas à condenação eterna”, o que não faz sentido. Corrigimos o não inicial para .

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A Santa Missão de Balasar, de 1950 - 1



A.   Na imprensa

No ano de 1950, entre 29 de Outubro, festa de Cristo-Rei, e 13 de Novembro, consagrado a Nossa Senhora de Fátima, decorreu em Balasar uma “concorridíssima Missão Religiosa confiada aos trabalhos apostólicos dos padres da Congregação do Espírito Santo, exímios no desempenho deste cargo” (Idea Nova, 18/11). Planeada ou não para coincidir com a proclamação do dogma da Assunção, o facto é que coincidiu com ela.
“Estiveram lá nada mais, nada menos do que cinco padres da Congregação a auxiliar o serviço, que era muito, porque os oradores arrastavam com os seus conselhos e direcção espiritual. São sacerdotes experimentados nestes trabalhos e que têm tirado excelentes resultados para as almas.
A freguesia é grande e populosa; pois muitas vezes aconteceu ficarem muitas casas fechadas, com os seus moradores a assistirem aos actos da Missão, que deve ter dado copiosos frutos para aquele aprisco tão amado do Senhor” (Ibidem).“A festa da conclusão da Missão foi deslumbrante, principalmente a Comunhão Geral, a procissão, a bênção eucarística e a erecção da Santa Cruz, com sermão pelo Rev. Meira” (Ibidem).

Depois de vermos esta perspectiva geral sobre a missão e sobre o seu êxito, recuemos para acompanhar alguns dos momento dela, sempre a partir do jornal Idea Nova.
“Estão-se ultimando os trabalhos da electrificação e embelezamento da nossa igreja paroquial para a missão religiosa que vai ser pregada por três sacerdotes da Congregação do Espírito Santo e principiará no próximo domingo, 29, com sermão do Rev. Olavo Teixeira Martins, director do Noviciado na Casa da Silva, Barcelos, e concluirá no dia 13 do mês de Novembro” (Idea Nova, 28/10, mas enviado para o jornal em 23).

“Principiou ontem a missão religiosa, confiado ao zelo apostólico de três missionários da Congregação do Espírito Santo. A pregação é transmitida por um altifalante, ouvindo-a nos campos e nas casas os que não forem ao templo santo. Depois de tomar posse a nova direcção da I.A.C.F. e realizada a procissão da Ladainha de todos os Santos perante a grande multidão de fiéis, abriu a Missão o Rev. Olavo Teixeira da Silva, director do Noviciado da Casa da Silva, de Barcelos, que se houve muito bem” (Idea Nova, 4/11, mas enviado para o jornal em 30/10).

“Durante a primeira semana da Missão Religiosa que vem decorrendo com grande concorrência de fiéis, foram pregadores os Rev.os Olavo, Meira e Oliveira, da Congregação do Espírito Santo. Na segunda semana serão oradores os Rev.os Felício e Manuel Moreira, da mesma Congregação.
No próximo sábado, haverá adoração nocturna e, no domingo à tarde, procissão de penitência com a Cruz da Missão e apoteose eucarística no largo da Igreja. Na segunda-feira, sermão, comunhão geral e procissão ao cemitério.
Há 69 anos que não se realiza nesta paróquia uma missão tão completa como esta.
No sábado e no domingo verificou-se a festa da congratulação pela definição dogmática da Assunção de Nossa Senhora em corpo e alma ao Céu.
No sábado quase todas as moradias se iluminaram de noite e acenderam as fogueiras no adro e em volta da Igreja, o que dava surpreendente efeito. A sessão de fogo-de-artifício, confiado aos pirotécnicos de Barqueiros e Paços de Ferreira, foi boa.
No domingo à tarde, efectuou-se a procissão da Senhora da Assunção, com lindo figurado da casa Elvira Maia, dessa vila, e apoteose à Virgem SS, que foi deslumbrante, pelo esvoaçar de centenas de pombas, chuva de flores, estralejar de foguetes, vivas, palmas, coro falado e cântico do Hino da Senhora da Assunção, da autoria do Rev. Olavo. A alocução do Rev. Oliveira entusiasmou muito a assembleia dos fiéis que enchia o vasto largo” (Idea Nova, 11/11, mas com data de 6/11).

Não se menciona aqui o nome da Beata Alexandrina, provavelmente porque era a instrução de Braga que havia, mas ela terá tido na organização do evento um papel decisivo.
De notar também o papel atribuído aos Missionários do Espírito Santo. Pode-se porventura dizer que três institutos religiosos se foram revezando junto da Alexandrina: os Jesuítas, os Salesianos e agora os Missionários do Espírito Santo.

Fotografias a partir de cima:
Cruz da Santa Missão.
P.e Leopoldono Mateus, pároco de Balasar.
Interior antigo da Igreja Paroquial de Balasar em dia de exposição do Santíssimo.
P.e Olavo, já velhinho, com o pequeno livro dos Signoriles Sorrindo à Dor na mão.