segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Uma fotografia antiga da Igreja Paroquial de Balasar

Construída nos anos de 1908 e 1909, a Igreja Paroquial de Balasar que a Beata Alexandrina conheceu, onde o P.e Mariano Pinho pregou e onde o P.e Leopoldino celebrou anos e anos a fio era como a vemos nesta fotografia.
Que diferença da actual! Belíssima a talha!
Sobre o sacrário, vê-se o baldaquino oferecido pela Alexandrina.
O P.e Humberto encantava-se com o painel do Bom Pastor.
Clique sobre a fotografia para a ver em tamanho maior.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Jesus Cristo

Ao tempo em que a pequena Alexandrina frequentou a escola na Póvoa de Varzim - há 100 anos - havia um poeta de Aver-o-Mar, de nome Bernardino da Ponte, que justifica aqui uma referência: apesar de ser autodidacta, ele possuía uma sólida e diversificada cultura e deixou alguns poemas de tema religioso. Abaixo transcrevemos um dos melhores.
Recentemente colocámos em linha uma página com a informação relativa ao contexto político que se vivia em Balasar e nos arredores ao tempo da aparição da Santa Cruz.

Jesus Cristo

Meditações

I
Por entre agudos espinhos.
Duma sombrosa romagem,
Os mais dúlcidos carinhos
Marcaram sua passagem.

II
Embora grandes da terra,
Ciosos dos seus brasões,
Lhe movessem crua guerra
E o cobrissem de baldões,

III
A sua santa doutrina
Mais profícua se afirmou...
Foi como luz diamantina
Que o orbe todo inundou.

IV
Na senda cheia de cardos
Por onde passara ovante
Fez brotar preciosos nardos
Dum aroma inebriante.

V
Consagrado ao pensamento
De nos salvar e morrer,
Foi um milagre, um portento,
D'incomparável poder.

VI
A tragédia do Calvário,
Precedida de torpezas,
Abre-nos hoje um sacrário
D'inesgotáveis riquezas.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Meu Deus, quando poderei ver-Vos e amar-Vos?


O tempo não passa, a eternidade não chega. Não poderei, Jesus, ver ainda uns raiozinhos de luz, viver ainda entre os meus uns momentos de alegria?
Vontade santíssima do meu Deus, quero-te, amo-te com todo o coração e com toda a minha alma! Ando como um ladrão fugitivo a esconder-me de tudo e de todos. Mas mesmo assim mal posso aguentar a dor que me causa ver a distância que me separa de Jesus: Ele no Céu e eu na terra.
Meu Deus, quando poderei ver-Vos e amar-Vos? Secou em mim aquela fonte da qual nasciam em mim ânsias de Vos amar e possuir.
Beata Alexandrina

sábado, 19 de fevereiro de 2011

De cónego da Sé de Braga a Bispo Auxiliar do Porto


O cónego Deão da Sé de Braga e presidente do Centro Regional de Braga da Universidade Católica Portuguesa, Pio Alves de Sousa, é o novo Bispo Auxiliar da Diocese do Porto, por nomeação do Papa Bento XVI, ontem tornada pública pela Nunciatura Apostólica. O agora D. Pio Alves de Sousa assume o título da Diocese Aquae Flaviae (Chaves) que é uma diocese histórica extinta. De acordo com a nota que escreveu para este dia, o novo prelado confessa que acolhe com surpresa e perplexidade a decisão do Santo Padre por implicar «recomeçar em várias frentes». Diário do Minho
Embora devam existir no Centro Regional de Braga da Universidade Católica Portuguesa muitas pessoas habilitadas para promover a edição crítica da obra da nossa Beata, pensamos que o cónego Pio Alves de Sousa era particularmente credenciado para a tarefa.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Biografia da Beata Alexandrina em espanhol

Chegou ao nosso conhecimento que já foi publicada em espanhol a biografia da Beata Alexandrina, escrita pelo P.e Humberto, Alejandrina - Alma de Victima y de Apostol. Veja-se aqui (de facto encontra-se já à venda em várias livrarias).
Este livro corresponde aproximadamente a um que se vendeu muito tempo em Balasar, com o título de Sob o Céu de Balasar. Curioso é que em italiano ele exista quer com o título correspondente a "Sob o Céu de Balasar", quer com o título correspondente ao da publicação espanhola, "Alma de Vítima e de Apótolo".

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O abade de Touguinhó, P.e Custódio José


O pároco de Touguinhó tinha grandes rendimentos e por isso a paróquia era cobiçada, como se deduz do célebre dito: "Em Touguinha estou, Tougues vejo, Touguinhó desejo". O abade Custódio José, que fora afoito miguelista, temendo a perseguição, em 1834, ausentou-se para a sua terra natal. Na versão dum ex-voto conservado no Museu Municipal da Póvoa de Varzim e feito em honra da Santa Cruz de Balasar, as coisas foram menos pacíficas: em 1834 (certamente em Julho), ele foi preso e puseram-no fora da sua abadia.
Em 1838, obteve autorização do Governo Civil para regressar a Touguinhó, mas o lugar estava ocupado pelo P.e Domingos da Soledade Silos (desde Agosto de 1837) – que tinha certa apetência por paróquias rendosas (em 1839 foi para a de Vila do Conde).
O P.e Custódio José só voltou à sua abadia em finais de 1840. Do seu antecessor e parente, herdara uma muito grande fortuna e, "apesar de ter desbaratado muito dinheiro na causa miguelista, ainda assim continuou rico bastante, como pároco de Touguinhó, para mandar fazer uma igreja nova, como prometeu (…) em 9 de Dezembro de 1930" (Silva Rodrigues).
De acordo com o inquérito de 1825, transcrito pelo P.e Franquelim N. Soares, Custódio José residia em Touguinhó desde há 23 anos e era "de bom porte e distintos costumes".
Vinte anos mais tarde, o Pe. Silos, no inquérito paroquial, depois de ter dito que o abade Custódio José tinha residido sempre em Touguinhó, "à excepção de seis anos, que esteve fora do benefício por ter dado donativos a D. Miguel, do qual foi sectário acérrimo", declara que a "sua conduta é boa, porque a sua idade e educação não o deixa ser mau".
Vindo de quem vem, isto é um notável elogio. Mas esqueceu-se de dizer que fora este abade que pagara a nova igreja paroquial e provavelmente também a grandiosa residência. Se é que não custeara antes a Ponte d’Este… pois quem a pagaria naquele ano de guerra civil que foi 1834? (a inscrição que se lê na ponte e que a dá como obra do Estado não é de fiar. Que Estado? O que D. Miguel liderava ou o que liderava o seu irmão D. Pedro? E a guerra absorvia-lhes todo o dinheiro, que era pouco).
Segundo o P.e Franquelim N. Soares, o testamento deste abade, feito em 21 de Outubro de 1852, é "impressionante pela enorme riqueza e caridade cristã e reflecte bem a espiritualidade do seu tempo".
Imagens:
Ex-voto de Bernardina Rosa à Santa Cruz de Balasar, que retrata o abade de Touguinhó.
Retábulo neoclássico da capela-mor da Igreja Paroquial de Touguinhó, que há-de espelhar a dedicação do abade Custódio José pela sua paróquia. A tela ao centro representa a Transfiguração; o orago é S. Salvador…
Fachada principal da mesma igreja, que o abade Custódio José construiu a expensas suas; data de 1842.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Os inquéritos do P.e Silos em 1845


Para se medir a dimensão do descalabro que reinava nas fileiras do clero nos anos próximos da aparição da Santa Cruz de Balasar, leia-se o que temos andado a apurar.

O reatamento de relações do governo liberal com a Santa Sé em 1841 não significou, por exemplo, a restauração das Ordens Religiosas (o que seria perfeitamente razoável), o afastamento de todos os que se tinham infiltrado irregularmente nas estruturas da hierarquia religiosa, daqueles que tinham sido autênticos algozes de pessoas inocentes. Deve-se ter feito o que as circunstâncias permitiam. Mas foi um alento novo em direcção às posições da verdade e da justiça: a hierarquia dependia agora sem ambiguidades da Santa Sé, párocos injustamente expulsos regressaram às suas paróquias. Todos? Não fazemos ideia.
Um homem como o arcipreste de Vila do Conde não deveria pelo menos ter sido afastado do cargo? Hoje isso para nós é claro, mas não foi de modo nenhum o que se passou; continuou a defender abertamente, agressivamente as suas posições divisionistas, cismáticas. E morreu muito conceituado, em 1855. Mas se até o Dr. Manuel Loureiro chegaria a bispo!...
Conta-se que a abadessa de Santa Clara de Vila do Conde, ao avistar a armada liberal no oceano terá sentenciado: “Aquilo vem dar cabo disto”. Realmente as intenções que moviam D. Pedro e os liberais não eram boas, como já se saberia e depois largamente se verificou.
Tanto quanto nos parece, a revolução liberal provocou uma situação mais grave que a que associamos à República, e que já foi gravíssima. As divisões entre o clero foram então muito mais profundas, as humilhações mais duradoiras. Nem faltou a tentativa de vergar os sacerdotes pela indigência.
Os inimigos eram os mesmos, os pedreiros-livres, e tinham o mesmo objectivo. Mas os liberais mantiveram a sua posição muito mais tempo.

A Palestra da Junqueira

Desde o século XVIII, os párocos e outros sacerdotes reuniam-se mensalmente para tratar temas de interesse da classe. A essas reuniões chamava-se palestras.
Sabendo-se quem era o P.e Silos e que ele era o arcipreste, não é de estranhar que tivesse colocado à frente delas gente da sua confiança.
Em 1845, na área do arciprestado de Vila do Conde e Póvoa de Varzim, as palestras eram cinco:
A de Amorim, presidida pelo pároco de Nabais, tinha como vice-presidente o pároco de Terroso e incluía, além de Amorim, Nabais, Estela, Terroso e Laundos.
A da Junqueira, presidida pelo pároco da Junqueira, tinha como vice-presidente o pároco de Bagunte e incluía Rates, Balasar, Arcos, Rio Mau, Bagunte, Outeiro, Parada e Santagões.
A de Touguinha, presidida pelo pároco de Touguinha, tinha como vice-presidente o pároco de Argivai e incluía Touguinha, Touguinhó, Beiriz, Argivai e Formariz.
Havia depois a de Vila do Conde e a da Póvoa de Varzim.

Servindo-nos principalmente dos inquéritos do P.e Silos, vejamos o que se passava na da Junqueira.
Nela tinha o arcipreste um homem da maior confiança, o P.e João Gomes da Silva. Já se viu como o P.e Silos o avaliava: “a sua conduta moral, civil e política é a melhor possível, e sempre o foi; e quanto aos livros estão no melhor estado”.
Ele fora vítima das perseguições de D. Miguel, desde 28 de Outubro de 1828 a 30 de Março de 1834, quando a vitória liberal estava à vista. Pode até ter estado preso.
Regressado ao seu posto, parece ter sido particularmente expedito a pôr ordem nos párocos da palestra.
O vice-presidente era o pároco de Bagunte, um recuperado para o liberalismo, que fora foi suspenso (certamente pelo próprio pároco da Junqueira), entre 1834 e 1838, por afecto ao realismo; mas, em 1845, “a sua conduta moral, religiosa e política agora é boa”.
Sendo assim bons o presidente e o vice-presidente, analisemos o que por lá se passou.
O pároco de Balasar esteve expulso sete anos, entre 1834 e 1841.
O pároco de Rates “foi suspenso em 1838 por cismático e realista e reintegrado em 1843”.
O de Rio Mau deixou de paroquiar em 1834 (provavelmente por ter sido expulso).
O de Arcos, houve ordem para o expulsar, mas ninguém o quis substituir.
Em Santagões, ter-se-á passado algo ainda mais grave: a freguesia foi anexada à Junqueira, o que pode ter correspondido a uma verdadeira vingança do presidente da palestra (o pároco de Santagões cessa a actividade no mês fatídico de Abril de 1834)[1].
Restam as pequenas paróquias do Outeiro Maior e Parada. Do pároco de Parada, que há poucos meses ocupava o lugar, afirma o P.e Silos “que tem boa conduta moral e civil, porque não sabe o que seja: na verdade é um nulo”.
Do do Outeiro Maior, diz que “a conduta moral, civil e política é boa porque não sabe o que isso é – na verdade é um perfeito idiota, mas bom cidadão”.
Pelo que conhecemos das actas da junta de paróquia do Outeiro Maior, a que este pároco presidiu, elas dão dele uma ideia muito favorável.
Nenhum pároco desta palestra terá sido poupado. E quais os crimes praticados? Ser desafecto a um regime que impusera um cisma à Igreja.
As infirmações que acabamos de reunir podem deixar de fora ainda factos relevantes: houve muitas mais humilhações, por exemplo, sobre sacerdotes que não eram párocos. Dum deles escreve o P.e Silos:

Foi um cismático acérrimo, e um realista atrevido – hoje é bom, por não poder ser mau; da sua conduta moral pouco poderei informar, contudo nada me consta; tem forças e aptidões para ser pároco, se por desgraça o nomearem.

Havia contudo uma palestra onde as coisas não agradavam ao arcipreste, era a de Touguinha. O vice-presidente, pároco de Argivai, destoava no rebanho. Ele arrasa-o assim: “a sua conduta moral é fanática, a civil mal criada, a política infame miguelino, cismático acérrimo”.
Mas não lhe bastou: propôs a supressão da freguesia: “o lugar de Quintela para Vila do conde, os lugares de Gandra e Calvos para Beiriz e o lugar de Cassapos para Touguinha”. Isto é que seria cortar o mal pela raiz.
Quanto a chamar mal criado ao pároco de Argivai, é caso para dizer: olha quem fala!
Não sabemos se o P.e Sacra Família teria alguma influência na atitude do pároco da sua terra.
Não analisámos o que se passou nas outras palestras, mas não se deve ter chegado aos extremos ocorridos na da Junqueira.

Na imagem: Porta axial do Mosteiro de S. Simão da Junqueira.


[1] Conhecemos o caso duma paróquia que foi anexada em 1834 e que mais adiante também recuperou a sua independência. Do pároco dessa paróquia, não temos nenhuma indicação de que não cumprisse com as suas obrigações; daquele que provocou a anexação, sabemos que era um constitucional exaltado, que chegou a ser preso sob D. Miguel. Foi morto em 1838.