segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Santa Cruz de Balasar - I


Há mais de um século que mostrei a cruz a esta terra amada, cruz que veio esperar a vítima.
Tudo são provas de amor!
Palavras de Jesus à Beata Alexandrina em 21/1/1955

Transcrevemos abaixo o primeiro artigo, duma série de treze, saída entre 1933 e 1935, no jornal poveiro   A Propaganda. Pensamos que o autor dela foi o P.e Leopoldino Mateus, apesar de o escrito insinuar o contrário, despistando o leitor. Saiu em 14/10/33 e deu início ao estudo da história da Santa Cruz de Balasar.

 Junto da Igreja paroquial de Santa Eulália de Balsar, deste concelho, hoje zelosamente pastoreada pelo nosso querido amigo e conterrâneo Sr. P.e Leopoldino Rodrigues Mateus, existe uma capela dedicada ao Senhor da Cruz. Esta capela, levantada há cerca de 100 anos em memória de um acontecimento extraordinário, singular, dado dois anos antes, foi em tempo muito frequentada pelo povo crente, especialmente pela classe piscatória desta vila, que deixou gravados alguns siglos ou marcas na porta da mesma.
Esse facto extraordinário da aparição duma cruz de terra é suficientemente narrado numa representação dirigida pelo pároco de então ao Sr. Dr. António Pires de Azevedo Loureiro, desembargador provisor e, por ausência do governador, Vigário Capitular, sede vacante, encarregado inteiramente do governo temporal e espiritual do Arcebispado de Braga. Eis o teor da representação:

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor
Dou parte a Vossa Excelência de um caso raro acontecido nesta freguesia de Santa Eulália de Balasar.
No dia de Corpo de Deus próximo pretérito, indo o povo da missa de manhã em um caminho que passa no monte Calvário, divisaram uma cruz descrita na terra: a terra que demonstrava esta cruz era de cor mais branca que a outra: e parecia que, tendo caído orvalho em toda a mais terra, naquele sítio que demonstrava a forma da cruz não tinha caído orvalho algum.
Mandei eu varrer todo o pó e terra solta que estava naquele sítio; e continuou a aparecer como antes no mesmo sítio a forma da cruz. Mandei depois lançar água com abundância tanto na cruz como na mais terra em volta; e então a terra que demonstrava a forma da cruz apareceu de uma cor preta, que até ao presente tem conservado.
A haste desta cruz tem quinze palmos de comprido e a travessa oito; nos dias turvos divisa-se com clareza a forma da cruz em qualquer hora do dia e nos dias de sol claro vê-se muito bem a forma da cruz de manhã até as nove horas e de tarde quando o Sol declina mais para o ocidente, e no mais espaço do dia não é bem visível.
Divulgada a notícia do aparecimento desta cruz, começou a concorrer o povo a vê-la e venerá-la; adornavam-na com flores e davam-lhe algumas esmolas; e dizem que algumas pessoas por meio dela têm implorado o auxílio de Deus nas suas necessidades e que têm alcançado o efeito desejado, bem como: sararem em poucos dias alguns animais doentes; acharem quase como por milagroso animais que julgavam perdidos ou roubados e até algumas pessoas terem obtido em poucos dias a saúde em algumas enfermidades que há muito padeciam. E uma mulher da freguesia da Apúlia, que tinha um dedo da mão aleijado, efeito de um penando que nela teve, tocando a Cruz com o dito dedo, repentinamente ficou sã, movendo e endireitando o dedo como os outros da mesma mão, cujo facto eu não presenciei, mas o atestam pessoas fidedignas que viram.
Enfim, é tão grande a devoção que o povo tem com a dita cruz que nos domingos e dias santos de guarda concorre povo de muito longe a vê-la e venerá-la, fazem romarias ora de pé ora de joelhos em volta dela e lhe deixam esmolas; e eu nomeei um homem fiel e virtuoso para guardar as esmolas.
Querem agora alguns moradores desta freguesia com o dinheiro das esmolas se faça, no sítio onde está a cruz, como uma espécie de capela cujo tecto, coberto de tabuado, seja firmado em colunas de madeira e em volta cercado de grades também de madeira, para resguardo e decência da mesma cruz e, dentro e defronte da cruz descrita na terra, pôr e levantar outra cruz feita de madeira, bem pintada com a Imagem de Jesus Crucificado pintada, na mesma cruz.
Eu não tenho querido anuir a isto sem dar a Vossa Excelência parte do acontecido e mesmo em fazer a sobredita obra sem licença de Vossa Excelência, persuadido que nem eu nem os moradores da freguesia temos autoridade para dispor a nosso arbítrio do dinheiro das esmolas, que por agora ainda é pouco e não chega para se fazer obra mais dispendiosa e decente à proporção do objecto.
Agora sirva-se Vossa Excelência determinar o que lhe parecer e o que eu devo praticar a este respeito.
Santa Eulália de Balasar, aos 6 dias do mês de Agosto de 1832.
De Vossa Excelência súbdito o mais reverente,
O Reitor António José de Azevedo

sábado, 1 de janeiro de 2011

“Queria nascer agora…”


Quem vinha ao Calvário pedir a intercessão da Beata Alexandrina para obter alguma graça, invariavelmente lhe ouvia este conselho: “reze, que eu também rezo”.
Neste tempo em que nos países tradicionalmente católicos a Igreja é tão desprezada e as pessoas e as instituições, com os Estados à frente, teimam em se afastar dela; neste tempo em que em países de tradição não católica se exercem contra ela absurdas violências; neste tempo em que a crise de vocações sacerdotais e religiosas atingiu proporções de rara gravidade, também devemos recorrer confiadamente à nossa Beata: rezar, como ela também rezou e continua a pedir por nós. Deve ser um programa a assumir por todos neste princípio do ano.
Vejam-se agora alguns dos desejos que a Beata Alexandrina, dirigindo-se a Jesus, expressou nos princípios de 1945 (diário do dia 4 de Janeiro):

Queria nascer agora, mas já Vos conhecer, para nunca manchar o meu corpo.
Queria que comigo nascesse o mundo inteiro e que todo ele já Vos conhecesse também, para não se deixar manchar.
Queria um coração novo, mas que sempre Vos tivesse amado para nunca deixar de Vos amar. O mesmo querer tenho para todas as criaturas, para assim Vos amarem com o mesmo amor que para mim desejo.
Onde hei-de esconder-me e comigo esconder o mundo?
Onde hei-de purificar-me e purificar o mundo a não ser em Vós?
Escondei-me, purificai-me.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Duas notícias de Balasar

No dia 23, Balasar homenageou Lino Araújo, o presidente da Junta de Freguesia que faleceu há um ano e que foi sempre muito estimado pelos balasarenses. Puseram-lhe um busto de bronze frente à sede da junta.
No dia 18, foi apresentada ao público uma nova edição do romance de Gomes de Amorim As Duas Fiandeiras. Vários capítulos da narrativa contam a romaria da Santa Cruz de Balasar do ano de 1845. É um documento importante.
As Duas Fiandeiras são a história de duas jovens poveiras, mas, de acordo com o subtítulo “romance de costumes populares”, fornecem muita informação sobre usos e costumes minhotos do tempo. Na romaria de Balasar sobressaem o vastíssimo arraial da romaria, o namoro rimado (os jovens namoravam em verso) e o final da festa em pancadaria.
Gomes de Amorim figura nas duas versões da Enciclopédia Católica (inglesa e espanhola).

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Glória a Deus nas alturas! Paz na terra aos homens de boa vontade!

S. Lucas tem no Novo Testamento um lugar bem especial. Autor do terceiro evangelho, redigiu também os Actos dos Apóstolos. E nisso foi único. Ora este segundo livro, que nos mostra a igreja nascente a dar os primeiros passos sob a condução do Espírito Santo, é da maior importância. É por exemplo ele que nos deixa entrever o contexto das comunidades a quem S. Paulo e outros dirigem as suas cartas ou até um pouco ainda do contexto em que surgiu o Apocalipse.
Segundo S. Lucas, no momento do nascimento de Jesus, em Belém, os anjos cantam: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!” Mas isso passa-se num ambiente social preciso, pastoril, onde há um presépio, que é uma manjedoura. Ora os pastores eram gente pouco regular nos actos religiosos das sinagogas e por isso gente malvista. Mas como poderiam ser regulares a esses actos se eles vagueavam pelas terras áridas da Judeia à procura de pastos? Contudo a palavra dos anjos valoriza a boa vontade deles.
Cada evangelista tem traços próprios e uma perspectiva teológica sua. Coisa semelhante acontece, por exemplo, com os papas, com os bispos, com os párocos, etc. Vamos tentar penetrar um pouquinho na de S. Lucas.
Se o presépio nos fala da vinda do Salvador, a cruz fala-nos da conclusão, do remate da sua obra. E como vemos Jesus nesse momento?
Entre dois ladrões ou malfeitores, condenados pela justiça humana.
Apetece dizer: Glória a Deus que se digna estar ao lado dos pecadores! Desde o princípio ao fim da sua passagem entre os homens. Ele não veio para os condenar, mas para os salvar.
Entendo que o caso dito do bom ladrão – como é possível haver um bom ladrão? – é de molde a causar-nos verdadeiro escândalo. A justiça humana condenou-o à morte e umas poucas palavras suas, de boa vontade, patenteiam-lhe as portas do Paraíso. Sem Purgatório.
Então o homem não tinha de compensar as vítimas dos seus roubos, das suas violências?
Que bondade esta injustiça – certamente aparente injustiça – de Deus!
Fica-se com a ideia de que o próprio Deus assume o encargo de reparar os lesados. Mas o ladrão é que vai, “hoje mesmo”, para o Paraíso.
S. Lucas é o evangelista da parábola do Filho Pródigo. E nela há uma situação identicamente escandalosa. O outro filho amuou, e nós, na nossa justiça humana, tendemos a dar-lhe razão. Então ao mal comportado, que malbaratou os haveres “com mulheres de má vida”, passeatas e comezainas, faz-lhe uma grande festa de recepção e para o irmão ordeiro, dedicado, não há nada?
Nos escritos da Beata Alexandrina, Jesus chega a dizer-lhe coisa parecida com isto: Eu tenho vontade de ir de joelhos junto de cada homem e pedir-lhe que Me ame! A Alexandrina também reage e acha exagero. Mas é mais ou menos o que está no Evangelho. Jesus veio à procura do homem e, se ele tem um gesto de aceitação, se ele dá um passo na direcção certa, Jesus quer-lhe dar tudo.
Glória a Deus nas alturas!
Paz na terra aos homens de boa vontade!
Às vezes diz-se que todos os dias do ano deviam ser Natal. Eu entendo que não: há um dia para o Natal, outro para a Páscoa, outro para o Pentecostes, etc. Dizer que todos os dias deviam ser Natal pode significar o esvaziamento do carácter histórico da encarnação da Palavra, do Verbo de Deus. Aproveitar uma data do ano para falar de fraternidade, de amor, num jeito pouco comprometedor, mas sem Jesus, pouco tem de Natal.
No Credo há uma expressão que diz assim: “E padeceu sob Pôncio Pilatos”. A alguém pode parecer que o nome de Pilatos recebe ali uma consagração indevida. Não seria melhor esquecê-lo, um traste fraco como ele foi?
Não: o que esta frase afirma é o carácter histórico da morte e consequentemente da vida de Jesus. Jesus não é uma entidade mítica, duma era brumosa, à margem da aventura concreta do homem. Não, Ele partilhou connosco o nosso tempo, as nossas tentações, as nossas dificuldades de fome, de frio, o nosso sofrimento. E veio dar-lhes um sentido que nós não poderíamos suspeitar.
Paz na terra aos homens de boa vontade! Glória a Deus nas alturas!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Um surpreendente colóquio de Jesus com a Beata Alexandrina


— Vem, minha filha, louca de dor e amor, ao meu encontro. É dor que salva as almas, é loucura de amor por mim.
Se o mundo conhecesse esta vida de amor, esta união conjugal de Jesus com a alma virgem, com a alma que escolhe para sua esposa! Mas não conhece e porque não conhece, calunia-a, despreza-a, persegue-a.
Ó minha pomba bela, tu és esposa e és mãe, mãe que não deixa de ser virgem; és mãe dos pecadores: são filhos da tua dor, filhos do teu sangue que vais perdendo gota a gota, filhos do teu amor.
Minha filha, lá do Céu muitas vezes ouvirás da terra muitos pecadores chamarem-te, aclamarem-te pelo doce nome de mãe. Aclamar-te-ão aqueles que se virem livres das garras do demónio e conhecerem que foram livres por ti, aproximando-se assim do meu divino Coração.
Grande amor, ditosa dor que te levou a mereceres de Jesus tão honrosos e elevados títulos!
— Meu Jesus, meu Jesus, que envergonhada e confundida estou! Se eu pudesse ocultar tudo isto! Se fosse só para Vós e para mim! Confunde-me ouvir isto e ver a minha miséria!
— Já sabes que necessito da tua miséria para esconder em ti as minhas grandezas e omnipotência.
Escreve tudo, escreve, minha filha. Se o que te digo ficasse oculto, de nada valia ao mundo.
Mãe dos pecadores, nova redentora, salva-os, salva-os! És a nova redentora escolhida por Cristo.
Nunca houve nem voltará a haver no mundo sofrimento que se igual ao teu. Nunca houve nem voltará a haver vítima desta forma imolada, porque nunca houve tanta necessidade como hoje, nunca o mundo pecou assim.
Dezanove séculos são passados que Eu vim ao mundo e trouxe agora a nova redentora escolhida por mim para relembrar ao mundo o que Cristo sofreu, o que é a dor, o que é o amor e loucura pelas almas.
És a nova redentora que vens salvá-los, és a nova redentora que incendeias na humanidade o amor de Jesus. Nova redentora que serás falada enquanto o mundo for mundo.
Minha filha, livro onde estão escritas com dor e sangue, letras de oiro e pedras preciosas todas, todas as ciências divinas! Coragem, amada, não temas as tempestades, não temas o estrondo do trovão que traz consigo nuvem que orvalha graças, amor e maná celeste.
Enche-te, minha filha; é de amor e maná que vives. Enche-te para dares às almas.
— Obrigada, meu Jesus !

Sentimentos da Alma 1-12-1944 (sexta-feira)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Obras dos Signoriles sobre a Beata Alexandrina


Os Signoriles foram um casal italiano de professores de Matemática e Física do Liceu de Beccaria, Milão, que se especializou na Beata Alexandrina. Colaboraram já com o P.e Humberto Pasquale ao tempo do Processo Informativo Diocesano, que decorreu em Braga entre 1967 e 1973, traduzindo os cinco grossos volumes dos Sentimentos da Alma.
O professor Chiaffredo, nascido a 9 de Outubro de 1913, em Stroppo, província de Cuneo, faleceu entretanto, em 13 de Outubro de 1999. Mas a sua esposa, a Prof.ª Eugénia Signorile, nascida a 9 de Setembro de 1914, em Milão, continua a publicar livros sobre o tema.
Nenhum deles conheceu a Alexandrina.

Obras publicadas com autoria atribuída à Alexandrina:
Figlia del dolore, madre di amore. Quasi una autobiografia, Mimep-Docete, Pessano (MI), 1993 (768 páginas).
Mio Signore, mio Dio! Come pregava Alexandrina, Mimep-Docete, Milão, 1992 (foi publicada tradução portuguesa com o título de Vida Interior da Beata Alexandrina, Apostolado da Oração, Braga, 2004, com autoria atribuída a Eugénia e Chiaffredo Signorile).
Maria, Madre mia. Come Alexandrina sente la Madonna, Mimep-Docete, Pessano (MI), 1987.
Anima pura, cuore di fuoco, Mimep-Docete, Pessano (MI), 1990 (amplamente ilustrado; está traduzido para português e inglês).
Venite a me (richiami di Gesù), Mimep-Docete, Pessano (MI), 1991.
Soferenza amata, Mimep-Docete, Pessano (MI), 1999.
Ho sete di voi, Mimep-Docete, Pessano (MI), 2004.
Solo per Amore!, Mimep-Docete, Pessano (MI), 2006 (este livro, concebido como autobiografia, está já traduzido para português, francês e inglês e foi recentemente editado em francês pela Alex-Diffusion; é do melhor que se escreveu sobre o tema).
Zampilli Incandescenti, Mimep-Docete, Milão, 2007.
Quei due Cuori, Gamba Edizioni, 2010.
Il Sorriso nella Croce, Gamba Edizioni, 2010.

Obras publicadas com autoria atribuída a C.E. Signorile:
Croce e sorriso, Associazione "Sotto il manto di Maria Regina della Pace", Gorgonzola (MI), 2002 (foi publicada tradução portuguesa com o título de Sorrindo à dor, Cavaleiro da Imaculada, Porto, 2001, com autoria atribuída a Alexandrina Maria da Costa)
Sulle ali del dolore, Gamba Edizioni, Gorgonzola (MI), 2004.
Alexandrina, voglio imparare da te, Gamba Edizioni, Gorgonzola (MI), 2004 (esta obra, concebida como um vade-mecum dos amigos da Alexandrina, está traduzida para português; no Página Mensal do Sítio Oficial está traduzida para espanhol, inglês, francês e ainda, ao menos em parte, para alemão e esloveno).

Obra publicada em colaboração com Giulio Giacometti e Piero Sessa:
La gloria dell'Uomo dei Dolori nel sorriso di Alexandrina, Edizioni Segno, Tavagnacco (UD), 2005.

Curiosidade: veja aqui em 15 línguas um pequeno artigo sobre os Signoriles que  um dia colocámos na Wikipedia inglesa. Salvo uma ou outra mais cidada, as restantes devem ser traduções automáticas.

Imagens:
Os Signoriles (em cima).
Aguarela de Felicina Sesto no belíssimo opúsculo Anima pura cuore di fuoco (em baixo).